A Alberto Sousa, Lda, empresa de calçado de Guimarães que, em fevereiro, despediu 150 trabalhadores e se apresentou à insolvência, vai para liquidação. Essa foi a recomendação do administrador judicial ao Tribunal, que defende a venda dos equipamentos por leilão eletrónico e das existências – calçado e matérias-primas – através de “negociação particular”. O que já mereceu a oposição de vários credores, designadamente, do Sindicato do Calçado e do Novo Banco. A dona da Eureka acumulou dívidas de 21,7 milhões de euros e o valor estimado de bens e existências não chega aos 300 mil.
E este montante é uma das questões que mais intriga o sindicato, que não entende como é que administrador judicial não procedeu à apreensão do “ativo mais valioso” da insolvente, a sua marca. Recorde-se que a Eureka chegou a ter uma rede de 30 lojas em Portugal e três franchisadas no estrangeiro, tendo anunciado, no início do ano, o encerramento das 13 que restavam em território nacional. A empresa é, ainda, proprietária das marcas Eureka Shoes, Dock Star e Philip Souza e o sindicato exige que integrem a liquidação do ativo.
Mas há outras questões que preocupam os representantes dos trabalhadores, como o facto de o administrador judicial ter recusado realizar uma auditoria às contas, para evitar atrasos no processo. A questão é que nas instalações da Alberto Sousa, em Vizela, funcionava, também, a Asial – Indústria de Calçado, Lda, empresa detida quase na totalidade por Filipe de Sousa, filho do fundador do grupo. Era esta Asial que se candidatava aos apoios à promoção internacional para o grupo, designadamente marcando presença nas feiras internacionais com a marca Eureka. “Nunca houve uma distinção entre a Alberto Sousa e a Asial e é lamentável que não tenha havida o cuidado de analisar bem as contas para se perceber se não houve aqui uma delapidação de uma em favor de outra, designadamente ao nível da transferência de clientes”, salienta Aida Sá.
Refira-se que a Asial criou, entretanto, outra marca, a ESC, com a qual participou já, no início do ano, na feira de Milão, em Itália. E apesar do advogado da Alberto Sousa ter justificado o encerramento das lojas Eureka com a intenção da empresa se dedicar “exclusivamente à componente industrial e privilegiar a sua matriz inicial” o grupo procedeu à abertura de lojas ESC em algumas das posições onde estavam as sapatarias Eureka, designadamente no Mar Shopping, no Fórum Vizela e em Chaves. A covid-19 impediu a conclusão da remodelação da loja da Rua de Passos Manuel, no Porto, que vai, também, albergar uma sapataria ESC, confirme informação disponível na porta.
Dos 21,7 milhões de euros de dívidas acumuladas pela Alberto Sousa, 6,6 milhões são referentes à banca e outras instituições financeiras. Só o Novo banco reclama 5,799 milhões de euros, quase 27% das dívidas totais da dona da Eureka. O BCP tem mais de 1,6 milhões a receber, o Santander mais de 1,4 milhões, e a Caixa Geral de Depósitos tem 1,138 milhões, a que se somam mais 1,039 milhões reclamados pela Caixa Leasing. Ao BIC a empresa deve mais de 900 mil euros e ao BPI mais de 400 mil. À Segurança Social ficou a dever quase 700 mil euros e à Fazenda Nacional mais de 1,4 milhões de euros. A Cosec reclama 645 mil euros, Arrábida Shopping, Guimarães Shopping e Via Outlets têm mais de 45 mil euros a haver e a AICEP exige mais de 90 mil euros. Alberto Sousa Maria, fundador e sócio-gerente da empresa, reclama 116 mil euros em créditos salariais e 420 mil euros em suprimentos.
Segundo o relatório do administrador judicial, a empresa começou a demonstrar dificuldade a partir de 2016, dado que, apesar do aumento do número de lojas, o crescimento das vendas não se verificou. A Alberto Sousa recorreu a um PER em fevereiro de 2019, cujo plano de revitalização foi aprovado e homologado em julho de 2019. "O impulso que a implementação do PER previsivelmente permitiria nunca veio a implementar-se", pode ler-se no relatório. Na verdade, o volume de negócio da empresa ainda cresceu substancialmente em 2017, para 20,678 milhões de euros, ancorado no aumento das exportações. No ano seguinte, a empresa faturou quase 18 milhões, mas já teve 2,2 milhões de prejuízos. Em 2019, as vendas caíram para pouco mais de metade: 9,255 milhões de euros.
Entre 2016 e 2019, o número de trabalhadores da empresa manteve-se relativamente estável, com a Alberto Sousa a dar trabalho a 288 pessoas. Curiosamente, os gastos com pessoal caíram 11,4% neste período, para 2,660 milhões de euros, mas as remunerações dos órgãos sociais quase duplicaram, passando de 58 mil euros em 2016 para quase 105 mil euros em 2019.