Dot-com 2.0 e os unicórnios selvagens

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"Há vinte anos que não se via nada assim", disse o investidor Eric Paley ao New York Times, no final de 2020. "A festa está tão barulhenta e as bebidas estão a fluir com tanta liberdade como no boom das dot-com, embora estejamos todos a beber sozinhos em casa."

O que o investidor da firma Founder Collective descreveu aqui é a loucura que está formada no ecossistema global de capital de risco. Depois de uma travagem provocada pelo choque da pandemia de covid-19, os investidores começaram a tropeçar uns nos outros para chegarem primeiro às startups com tecnologia mais quente. No primeiro trimestre de 2021 foram batidos todos os recordes de financiamento global por capitais de risco, numa soma incrível de 125 mil milhões de dólares, segundo um relatório Crunchbase. Foi um aumento de 94% face ao homólogo e de 50% face ao trimestre anterior, mostrando como o apetite dos investidores está em máximos históricos.

Ao mesmo tempo que o dinheiro voa para startups tecnológicas em todo o mundo, está também a verificar-se a multiplicação de unicórnios, empresas privadas que atingem um valor de mil milhões de dólares ou mais.

Com os dados exuberantes de 2021, é impossível contornar o facto de que estamos numa espécie de era dot-com 2.0. O mundo é muito diferente do que era no final dos anos noventa, quando começou a febre das startups de base tecnológica, mas a abundância de financiamento disponível e a largueza com que tem sido levantado são claros déjà-vu.

"Há grandes somas de capital à espera de ser investido", escreveu a TrueBridge Capital Partners na Forbes, lembrando que a pandemia pôs em foco a importância das duas maiores áreas para os investidores de risco: saúde e tecnologia. Além disso, "há muitas oportunidades em indústrias nascentes", como é o caso das moedas digitais. Estes segmentos, que mal existiam há uma década, estão agora a ser validados por marcos atingidos - a exemplo do arranque de 85 mil milhões da Coinbase no Nasdaq.

"O mundo pós-vacinas deverá ser um momento activo e excitante para a indústria, à medida que a economia reabre", continuou a TrueBridge. "Espera-se que esta geração de empresas disruptivas continue a aumentar em escala, avaliação e importância", continuou. "Estes ventos em popa deverão certamente dar gás à capacidade e ao interesse dos investidores de financiarem as próximas grandes startups do amanhã."

No entanto, o relatório State of the Venture Capital Industry da TrueBridge mostra que há menos fundos de investimento e menos acordos, embora haja mais dinheiro a ser levantado.

Isto significa que as startups melhor estabelecidas têm facilidade em continuar a financiar-se e os investimentos semente e angel estão em território oscilante. A indústria está a ficar mais concentrada. Mas isto também abre oportunidades para investidores mais pequenos, com portfólios inovadores, e pode ser uma bênção disfarçada para novos empreendedores.

Por exemplo: mulheres e minorias, que até agora tiveram grandes dificuldades em convencer capitais de risco a investirem nas suas startups. A consciencialização das barreiras que existem num ecossistema onde a inovação e arrojo são cruciais abre oportunidades para investidores focados em fundadores mais diversos, com produtos desenhados para verticais específicos ou com uma visão bastante diferente do mercado.

Correremos o risco de haver um rebentamento da bolha, tal como aconteceu em 2000? Sim. Risco há sempre e startups sobrevalorizadas são aos pontapés em Silicon Valley. O tecno-optimismo foi manchado nos últimos anos por comportamentos deploráveis, em especial nas "big tech", e o tropo do fundador visionário que se ergue puxando pelos atacadores está gasto. Mas desta vez há outras vozes a ganharem balanço. Talvez estes unicórnios selvagens sejam mais coloridos que os anteriores.

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