Draghi agita debate sobre estratégia europeia

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Custe o que custar. Esta é a famosa citação de Mario Draghi quando era presidente do Banco Central Europeu (BCE), naquele que foi o instante mais decisivo para a sobrevivência da zona euro, e até da União Europeia na última década. Esta semana, “super Mario” apresentou uma visão estratégica para o futuro da competitividade europeia, colocou o dedo na ferida - a União Europeia está demasiado atrás da China e Estados Unidos em termos de inovação, e corre o risco de estagnar e tornar-se incapaz de crescer de forma sólida e geradora de valor para os cidadãos.

Para evitar esta fatalidade, o relatório propõe que a União Europeia se reinvente, seja capaz de reduzir a burocracia, e se mobilize para propostas públicas que incentivem o investimento para níveis significativos. E politicamente abre o caminho a maior integração europeia, a nível financeiro, fiscal e militar. Para atingir os objetivos definidos para a competitividade, o relatório assinado pelo antigo presidente do BCE projeta que será necessário um investimento adicional anual mínimo de 750 milhões de euros, correspondente a cerca de 5% do Produto Interno bruto (PIB) da União Europeia.

Numa primeira frente, são medidas que tornam a União Europeia mais reativa ao clima mais protecionista global - afetando o comércio internacional - e também aos desafios geopolíticos atuais que se deverão manter para futuro, como o caso da cortina de ferro com a Rússia que mexeu com os preços da energia. Todos estes fatores têm vindo a afetar a capacidade da Europa continuar a poder crescer de forma a entregar também melhores respostas de coesão social e a alimentar o descontentamento dos cidadãos com as instituições e com o projeto europeu.

Esta é por isso uma proposta de plano que também procura agilizar a burocracia na decisão das instituições europeias, e criar maior resiliência da União Europeia - que inclui, por exemplo, a criação de emissões conjuntas europeias (eurobonds) - o que constitui, no final do dia, a continuação do processo de maior integração fiscal, económica e também política a nível da União Europeia que teve origem no famoso plano de Mario Draghi, aquando da crise das dívidas soberanas.

Um documento que provocará, sem dúvida, um debate valioso para a Europa, e que promete agitar politicamente a agenda nos próximos meses. Estruturalmente a UE precisa de trazer para cima da mesa uma reforma do seu modelo de funcionamento entre os países membros e para com os parceiros globais, uma que seja compatível com o novo enquadramento geopolítico global, e que possa continuar a dar resposta em termos de crescimento económico e qualidade de vida, ou seja, que possa garantir também a qualidade da coesão social com os europeus. 

Economista, Presidente do Internacional Affairs Network

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