E a opinião interessa?

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Um dos fenómenos que acompanharam o crescimento das publicações online em todo o mundo foi o aumento dos textos de opinião que os media digitais têm assumido. Há uns tempos, responsáveis editoriais das páginas de opinião do Los Angeles Times, The Washington Post e New York Times, entre outros, juntaram-se para debater o tema.

Sewell Chan, responsável pelas páginas de opinião do Los Angeles Times, defendeu que, nos dias de hoje, o peso da narrativa ganhou ainda maior importância nos media. Contar histórias e relatar episódios reais são coisas que têm vindo a ganhar peso em todos os media - o que explica, por exemplo, a explosão dos podcasts, e das newsletters especializadas como fator de atração para a monetarização das edições digitais - o que cá faz, por exemplo, o Observador, que cria produtos especificamente para assinantes fora da edição normal. A voz das pessoas que se posicionam para ter uma opinião ou relatar uma experiência é mais poderosa que nunca.

Hoje em dia, admitiram os intervenientes na conversa, os media procuram cada vez mais pessoas comuns e não apenas especialistas em diversas áreas, sejam académicos, cientistas, analistas ou políticos em funções. Em muitos casos os novos media preferem pessoas pouco conhecidas, mas com algo a dizer, do que aquilo que um editor do New York Times chamou de "os guardiões das torres de marfim" vindos das grandes universidades ou políticos eleitos.

O objetivo é conseguir ter maior diversidade nas vozes, maior relato de experiências, maior capacidade de identificação com o leitor comum - este foi o ponto em que todos os participantes na conversa concordaram. Ainda segundo Sewell Chan, do Los Angeles Times, as páginas de opinião tornaram-se mais interessantes quando deixaram de contar apenas com políticos e académicos.

"Os relatos de vida, de experiências pessoais, ganharam um estatuto de autoridade que se equipara às credenciais académicas ou aos votos obtidos por políticos", afirmou Karen Attiah, do Washington Post. Ainda segundo Attiah, hoje em dia, quando aborda questões internacionais tenta evitar o recurso exclusivo ao que classificou de "intérpretes dos factos", ou seja, membros de think tanks ou de órgãos de poder, para procurar pessoas dos países a que as notícias se referem, com vários pontos de vista, para que possam dar uma perspetiva local e não uma visão distante.

Por outro lado, a maioria dos participantes no debate sublinhou a importância, no noticiário nacional de contar com a presença de pessoas das várias regiões, dos locais onde se passam as notícias, dando maior poder e voz às comunidades locais. "Não faz sentido ter um opinion maker de Washington a falar dos problemas da Califórnia - afirmou o representante do Los Angeles Times.

Da mesma forma, em relação às questões internacionais, os intervenientes nos debates dizem que um dos seus esforços é captar a atenção dos leitores em diversos países com as opiniões de pessoas desses países em diversos continentes. Adaptando à realidade portuguesa, é como optar por ter pessoas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau ou Brasil a dar a sua opinião sobre o que se passa nos seus países do que usar analistas e especialistas que vivem em Lisboa ou porta-vozes oficiais dos governos desses países.

Karen Attiah, do Washington Post, que editou muitos textos de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita assassinado, afirma que prefere dar espaço para publicação de ativistas e escritores que têm dificuldade em se fazerem ouvir nos seus próprios países. "O mercado dos média digitais é um mercado global e é assim que temos de pensar para decidirmos quem queremos publicar", sublinhou Attiah.

Mas a responsabilidade dos editores das páginas de opinião é grande e cada vez maior no contexto de proliferação de fake news. Eles devem assegurar a veracidade dos factos relatados, escolher criteriosamente quem publicam, e, sobretudo, não pretenderem concorrer com o que se passa nas páginas do Facebook e de outras redes sociais.

Criar diversidade não é deixar uma porta escancarada onde nada é escrutinado. O desafio de escolher quem publica opinião é a chave para ganhar a confiança dos leitores e aumentar a audiência.

Manuel Falcão, da SF Media

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