"É natural que consumidores continuem a dar primazia ao comércio de proximidade"

Comércio tradicional viu crescer procura durante o confinamento. Cristina Mesquita, da Euromadi Portugal, acredita que tendência veio para ficar.
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Comprar na mercearia lá da rua foi algo que os portugueses se habituaram, ainda mais, durante o confinamento provocado pela pandemia do covid-19. Situação que levou a um crescimento de 20% das vendas do comércio de proximidade nos últimos meses, obrigando o sector a se reinventar para dar resposta à procura por novos consumidores.

Cristina Mesquita, diretora-geral da central de compras Euromadi Portugal, acredita que os consumidores nacionais irão continuar a fazer as suas compras em lojas de proximidade. Constituída por 27 associados, a Euromadi agrega 41 Cash& Carry e mais de 2000 lojas de comércio de proximidade, representando cerca de 10% do mercado nacional de bens de consumo, nas categorias em que opera. O ano passado central de compras - que representa um volume de associados que gera vendas de cerca de mil milhões - registou um crescimento de 1,5%.

"A nossa perspetiva para este ano é superar este crescimento. Com o reforço das vantagens competitivas do comércio de proximidade, a tendência é bastante positiva", estima Cristina Mesquita.

Com o período da pandemia cresceu a procura pelo comércio de proximidade. Que impacto isso teve nos vossos associados?

O contexto atual de crise que vivemos, levou a uma inevitável mudança nos hábitos e tendências de consumo, tendências essas que já estavam a ter uma dinâmica crescente, mas que a crise veio acelerar e consolidar, tais como o aumento da proximidade, produtos frescos, alimentação equilibrada, o aumento da compra online, o foco nas marcas próprias e nas promoções.

Como tal, tudo aquilo que diferenciava o comércio de proximidade de outros tipos de comércio, tais como a dimensão mais reduzida, o atendimento personalizado, a comodidade, a qualidade e a rapidez, tornaram-se nas grandes vantagens competitivas numa altura como esta. Muitos consumidores optaram por fazerem compras em locais mais próximos das suas residências, evitando assim a permanência em filas ou tempos de espera mais prolongados. De acordo com os resultados de um estudo da Publivaga, na semana de 24 a 30 de março, cerca de 38% inquiridos afirmam que passaram a ir a outro tipo de lojas, maioritariamente ao comércio local, como minimercados, mercearias, talhos, peixarias, padarias, entre outros estabelecimentos.

Tudo isto contribuiu para que o comércio de proximidade que estava já em franco desenvolvimento antes da pandemia, alcançasse um resultado muito significativo nos últimos meses, apresentando um crescimento de dois dígitos. A grande maioria dos nossos associados registou também estes índices de crescimento. De acordo com o barómetro Nielsen o crescimento do canal de livre serviços - lojas entre 50 e 400m2 - registou entre 24 de fevereiro e 24 de maio, 20% de crescimento e é o formato de loja com maior crescimento.

A maior procura obrigou ainda a uma reinvenção do negócio. Que novidades foram introduzidas que melhor resultados obtiveram e que consideram que se irão manter nesta fase de desconfinamento e reabertura da economia?

Sem dúvida. As condicionantes impostas pela pandemia da Covid-19, levaram os consumidores a evitar deslocarem-se e a frequentarem sítios com elevada afluência. O comércio de proximidade adotou, desde a primeira hora, uma série de estratégias facilitadoras para garantir à comunidade, todos os bens essenciais. E porque períodos de crise aceleram mudanças, passaram a disponibilizar novos serviços como entregas ao domicílio, atendimento de encomendas por telefone, divulgação nas redes sociais, entre outras iniciativas.

A facilidade da encomenda por telefone, ou online, e a entrega no conforto do nosso lar, e num curto espaço de tempo, traduziu-se numa grande vantagem, especialmente para os grupos considerados de risco.

Neste sentido e perante a crise em que vivemos, assegurar uma excelente experiência ao cliente torna-se, mais do que nunca, fundamental. A confiança e o serviço personalizado aos quais o comércio de proximidade habituou os seus clientes refletiram-se no aumento da sua relevância.

Como qualquer crise, a da Covid-19 também trouxe oportunidades e conferiu, seguramente, um renovado sentido ao conceito de comércio de proximidade, que tenho a certeza que irá manter-se nesta fase de desconfinamento.

A procura cresceu na ordem dos dois dígitos. São níveis de crescimento a manter numa fase em que os portugueses estão a desconfinar?

O canal de proximidade reforçou o seu posicionamento no setor da distribuição. Assistimos, e ainda bem, à redução de algumas limitações impostas durante o confinamento e todos queremos que a dinâmica de mercado cresça rapidamente. Contudo, neste contexto de pandemia, os hábitos de compra por parte dos consumidores alteraram-se e, tendo em conta os índices de satisfação e de confiança elevados no canal de proximidade, é natural que os consumidores continuem a dar primazia ao comércio de proximidade.

O ticket médio subiu. O comércio tradicional tende a ser mais caro do que a grande distribuição. O que pode ser feito para ser mais competitivo ao nível de preços?

Existe a perceção de que o comércio de proximidade pratica preços mais elevados, mas a verdade é que, na generalidade, os seus preços são extremamente competitivos, oferecendo muitas vezes produtos com preços iguais ou até inferiores à grande distribuição. Penso que é uma questão de perceção, até porque o comércio de proximidade, que é mais disperso, não tem uma visibilidade tão massiva em termos de comunicação de campanhas.

O comércio de proximidade tem um peso de mercado muito grande. A Euromadi Portugal, por exemplo, agrupa um leque de associados que, juntos, têm uma faturação de cerca de mil milhões de euros, a nível nacional. O papel da Euromadi Portugal, enquanto central de serviços e negociação, é justamente obter junto dos fornecedores, negociações muito competitivas e produtos com um nível de qualidade elevado para o comércio de proximidade. Através desta negociação centralizada, os nossos associados conseguem assegurar preços muito competitivos.

O comportamento do consumidor também se alterou: compra mais e vai menos vezes à loja. De que modo o comércio de proximidades pode responder a essa mudança e às novas necessidades?

De facto, os consumidores preferem ir às compras menos vezes e comprar mais em cada visita, ainda que gradualmente irão retomando padrões de comportamento anteriores à pandemia. Mas sabem que podem optar por unidades de proximidade também para as grandes compras, até porque a proximidade de casa tem tido um peso muito grande nas opções de compra e puderam verificar que o preço é extremamente competitivo. Por outro lado, aquilo que sempre foi uma vantagem muito grande neste canal, e que se trata das compras do dia-a-dia, como os frescos ou alguns produtos específicos, mantém-se como tendência e até tem saído reforçada neste contexto de crise.

O consumidor será mais sensível a questões de segurança alimentar e higiene, mas não esperamos que mudem as suas prioridades: maior importância do preço (agravada pela situação económica), mais frescos, maior interesse pela sustentabilidade e um consumo cada vez mais atomizado que exigirá um estudo aprofundado do sortido das lojas. Viveremos um período de transição para o novo normal, durante o qual haverá um maior consumo em casa.

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