A revolução dos ‘qubits’ Majorana. Encontrado o ‘elo perdido’ para o computador quântico ideal?

Investigadores de Espanha e dos Países Baixos conseguem “ler o ilegível”, validando a aposta tecnológica da Microsoft, e abrem as portas à computação quântica em larga escala
D.R. / Microsoft
O 'chip' Majorana 1, da Microsoft, cabe na palma de uma mão e é escalável
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A computação quântica acaba de ultrapassar aquela que era, para muitos, uma das suas barreiras intransponíveis. Uma equipa liderada pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) de Espanha e pela Universidade de Delft, nos Países Baixos, confirmou esta semana, a 16 de fevereiro, que é finalmente possível “ler” a informação contida em qubits de Majorana sem destruir o seu estado quântico. Esta descoberta não é apenas um avanço académico; é a peça-chave que faltava no puzzle multimilionário que a Microsoft começou a montar publicamente no ano passado.

Para entendermos a importância deste salto, precisamos de olhar para a natureza destas partículas. Ao contrário dos qubits usados pela Google ou pela IBM, que são sensíveis a qualquer vibração ou mudança de temperatura, os qubits de Majorana são “topológicos”: a informação é guardada de forma não-local, está dividida entre dois pontos. É como se um código secreto fosse cortado ao meio e cada metade fosse guardada em cofres diferentes. Mesmo que um cofre fosse atacado, a informação continuava protegida, pois apenas metade tinha sido descoberta e, sem a totalidade, da informação era inútil.

Tentar medir um 'qubit' de Majorana era como procurar observar um fantasma: ao ‘acender a luz’, ele desaparecia. Agora, pode-se escalar a computação

O problema? Essa mesma proteção tornava os qubits “invisíveis”. Como explica Ramón Aguado, investigador do ICMM-CSIC e coautor do estudo: “Sempre soubemos que os estados de Majorana eram ideais para proteger a informação, mas o paradoxo era que essa mesma proteção tornava-os quase impossíveis de medir sem colapsar o sistema.” Até agora, tentar medir um qubit de Majorana era como tentar observar um fantasma: no momento em que se acendia a luz, ele desaparecia.

Solução: a sonda de capacitância

A equipa resolveu este dilema utilizando uma “sonda de capacitância quântica” num sistema chamado “cadeia de Kitaev mínima”. Pela primeira vez, conseguiram detetar a paridade (o estado par ou ímpar) do qubit em tempo real.

Segundo o comunicado oficial da equipa, esta técnica permitiu “demonstrar que a informação quântica nestes estados protegidos não só existe, como pode ser extraída de forma fiável através de medições rápidas de carga”, ou seja enquanto a computação está a decorrer.

Os investigadores observaram “saltos de paridade aleatórios” que permitiram medir tempos de coerência superiores a um milissegundo. “Este resultado é transformador, porque prova que a proteção topológica não é apenas um conceito matemático, mas uma ferramenta funcional que podemos controlar”, reforça Aguado no artigo publicado na Nature Physics.

Encaixe na estratégia da Microsoft

Esta descoberta valida retroativamente a grande aposta da Microsoft. Em fevereiro de 2025, a tecnológica de Redmond surpreendeu o mercado com o chip Majorana 1, o primeiro processador construído com materiais topocondutores.

No entanto, embora a Microsoft tivesse o hardware, faltava-lhe o mecanismo para ler com precisão os dados sem comprometer a estabilidade do chip. E essencialmente, para permitir “escalar” o mesmo - ou seja, poder juntar várias chips , aumentando o processamento sem falhas, algo que em teoria o Majorana 1 permite fazer.

O avanço de 2026 fornece exatamente esse “painel de instrumentos”. Ao provar que é possível medir estados de Majorana de forma fiável, a investigação do CSIC confirma que o caminho escolhido pela Microsoft é o mais viável para a escalabilidade. Enquanto outras empresas lutam contra taxas de erro elevadas, os qubits de Majorana, agora “legíveis”, permitem criar máquinas com menos ruído e mais potência real.

O caminho para o milhão de qubits

A escalabilidade é o “Santo Graal” deste setor. Com o método de leitura agora descoberto, o caminho para passar de dez para um milhão de qubits torna-se uma questão de engenharia e não de física teórica. Um computador quântico de um milhão de qubits estáveis permitiria avanços em ciência de Materiais, de forma a simular novas moléculas para baterias que carregam em segundos ou supercondutores à temperatura ambiente, bem como na descarbonização, para descobrir catalisadores eficientes para converter CO2 em combustíveis limpos.

Também se esperam enormes avanços na farmacologia personalizada, pois a computação quântica poderá criar modelos de proteínas digitais perfeitos, para desenvolver curas, sem necessidade de anos de ensaios clínicos. Como concluem os investigadores no seu estudo: “Estamos perante o fim da fase de exploração fundamental e o início da fase de computação quântica fault-tolerant (tolerante a falhas).” Se 2025 foi o ano em que a Microsoft construiu a casa, 2026 é o ano em que o CSIC - finalmente - instalou a eletricidade.

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