

O Banco Central Europeu (BCE) considera que a Europa "precisa de reduzir as dependências em pagamentos e evitar criar novas" perante o crescimento do comércio eletrónico e um momento de aumento das tensões geopolíticas.
O membro do comité executivo do Banco Central Europeu (BCE) Piero Cipollone, responsável pelos pagamentos, disse esta quarta-feira, 1, em Riga que "o euro digital reduzirá a excessiva dependência da Europa de fornecedores não europeus".
O euro digital garantirá que os europeus possam pagar com o seu dinheiro na economia digital, o dinheiro soberano emitido pelos seus bancos centrais, como pagam em dinheiro na economia física, mas para isso é necessário que a União Europeia (UE) conclua o processo legislativo.
Da mesma forma, segundo Cipollone, "o euro digital assegurará a capacidade da Europa de processar as transações dos seus próprios cidadãos sem depender da infraestrutura governada noutros lugares".
A infraestrutura do euro digital estará distribuída em, pelo menos, três regiões geográficas, cada uma com múltiplos servidores.
Por isso, se um fornecedor de serviços de pagamentos sofrer uma avaria, os utilizadores poderão aceder ao seu dinheiro e pagar através de outro fornecedor.
A aplicação do euro digital permitirá aos utilizadores aceder ao seu dinheiro e gastá-lo sem interrupção.
O euro digital também poderá ser usado sem conexão à internet, sinal telefónico ou acesso a uma máquina ATM.
O BCE e os bancos centrais nacionais não cobrarão comissões pelo uso do euro digital, o que permitirá reduzir custos para os comerciantes e prestadores de serviços de pagamento.
Fortalecer a autonomia da Europa em pagamentos significa assegurar que a Europa tem "uma infraestrutura de pagamentos soberana" na qual os europeus podem confiar, segundo Cipollone.
"A indicação mais óbvia da dependência de sistemas de pagamento não europeus em transações diárias é o nível excecionalmente elevado de penetração de cartões estrangeiros", acrescentou Cipollone num evento organizado pela Escola de Economia de Estocolmo em Riga e pelo Banco da Letónia.
"Dois terços das transações com cartão na zona euro estão regidas pelas normas empresariais de companhias não europeias", acrescentou o responsável pelo euro digital no BCE.
Dois terços dos países da zona euro - incluindo os três países bálticos - dependem completamente de redes de cartões internacionais para pagar nas lojas, disse Cipollone numa alusão, por exemplo, às da Visa, Mastercard ou American Express, embora não as tenha citado.
O dinheiro emitido pelo BCE está agora disponível apenas de forma física, em dinheiro, cujo uso nas transações diárias caiu de 68% em 2019 para 40% em 2025, com a mudança mais pronunciada nos países bálticos, que estão entre as economias mais digitalizadas da zona euro, segundo Cipollone.
Mas o comércio eletrónico cresce e representa mais de um terço do valor das vendas a retalho.
Atualmente, alertou Cipollone, não há uma solução de pagamento digital pan-europeia, regida pela Europa que cubra toda a zona euro.
Os consumidores e os comerciantes na Europa devem cumprir os termos, preços e práticas de dados que estabelecem algumas poucas empresas privadas não europeias e têm uma margem limitada para negociar ou mudar.
Entre 2018 e 2022, as taxas médias líquidas por serviços comerciais na União Europeia quase duplicaram, apesar dos esforços regulatórios para as conter, porque os emissores de cartões internacionais cobram muitas comissões, que afetam muito os comerciantes a retalho.
A partir de setembro, o BCE oferecerá dinheiro de banco central 'tokenizado', o que permitirá a liquidação em dinheiro de banco central de operações baseadas na tecnologia de registo distribuído.
O BCE publicou na terça-feira a sua nova estratégia de pagamentos com a qual pretende melhorar as infraestruturas de pagamentos na zona euro devido às rápidas mudanças tecnológicas.