

O Banco Central Europeu (BCE) deve manter as taxas diretoras na quinta-feira, sem ceder à urgência e aguardando para julgar o caráter duradouro ou não do aumento da inflação associado à guerra no Médio Oriente.
A presidente da instituição monetária, Christine Lagarde, insistiu na última segunda-feira na natureza instável do conflito, entre guerra, cessar-fogo e negociações, que dificulta qualquer antecipação sobre a duração do choque e respetivos efeitos na economia.
Essa incerteza "advoga a favor da recolha de informações adicionais" antes de rever o rumo da política monetária, sublinhou Lagarde.
O BCE deverá, portanto, salvo surpresa, manter a taxa de depósito diretora em 2%, nível em que se encontra desde junho passado, segundo os observadores.
Lagarde vai "jogar com o tempo", estima Ludovic Subran, economista-chefe da Allianz, citado pela France Presse.
Um quinto do petróleo mundial que normalmente transita pelo estreito de Ormuz está bloqueado, resultando num aumento significativo dos preços da energia, mas sem atingir os cenários mais pessimistas do BCE.
Os mercados continuam a apostar num choque energético temporário.
A inflação homóloga média nos 21 países da zona euro já subiu para 2,6% em março, acima do objetivo de 2% do banco central, e o número para abril será divulgado na quinta-feira, durante a reunião do BCE.
Quanto mais se prolongar o conflito com o Irão, maiores são os riscos de agravamento dos desequilíbrios entre oferta e procura de energia, com efeitos em cascata noutros setores-chave - semicondutores, fertilizantes, química, plásticos -, explicou Lagarde.
Depois de considerar um aumento das taxas em abril, os mercados agora estimam que o BCE esperará até junho para agir.
Lagarde poderá fornecer na quinta-feira "indícios implícitos para que um aumento das taxas durante o verão apareça como uma perspetiva credível", estima Carsten Brzeski, do ING, também citado pela AFP.
Depois do início da guerra da Rússia na Ucrânia no início de 2022, o BCE foi criticado por ter aumentado as taxas muito lentamente perante o aumento da inflação.
Um argumento a favor de um endurecimento "preventivo" das ‘torneiras’ do crédito consiste em lembrar que o aumento agressivo das taxas em 2022-2023 não causou nem "forte recessão, nem aumento do desemprego", destaca Bruno Cavalier, economista da Oddo.
As últimas declarações de responsáveis do BCE indicam que a paciência continua a ser a melhor resposta.
"Não estamos com pressa", declarou na semana passada Martins Kazaks, governador do Banco da Letónia e membro do Conselho de Governadores do BCE, ao Financial Times.
"Temos ainda o luxo de poder recolher dados e fazer a nossa análise", acrescentou.
De qualquer forma, aumentar as taxas pesaria sobre a atividade da zona euro, já pouco dinâmica, especialmente sobre o setor manufatureiro abatido pelo choque energético.
Os indicadores PMI publicados na semana passada mostraram que a atividade económica na zona euro se contraiu em abril pela primeira vez em 16 meses devido à guerra no Médio Oriente.
Nos Estados Unidos, as expectativas de queda das taxas também foram adiadas, e a Reserva Federal dos EUA (Fed) deverá também permanecer em espera hoje no final da reunião de política monetária.
O desenrolar da situação dependerá amplamente da capacidade do Irão e dos Estados Unidos chegarem a um acordo duradouro que garanta a segurança dos fluxos no estreito de Ormuz - um fator sobre o qual o BCE não tem controlo.