Governo português já admite regresso ao défice público, mas insiste que as contas vão continuar "equilibradas".
Governo português já admite regresso ao défice público, mas insiste que as contas vão continuar "equilibradas".Foto: Leonardo Negrão

BCE prevê que guerra arrase cenário macro do OE 2026

Banco Central Europeu reviu previsão média anual do preço do barril de Brent, a referência para as importações nacionais, de forma muito significativa, para 81,3 dólares. São mais 24% que o do valor previsto pelo ministro das Finanças no OE português.
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As hipóteses de base usadas no Orçamento do Estado português para este ano (OE 2026) estão totalmente desatualizadas, tanto nos preços do petróleo como nas taxas de juro Euribor - as que servem de indexantes nos empréstimos e depósitos bancários -, mostram as novas projeções do Banco Central Europeu (BCE), de quinta-feira.

O OE 2026, feito pelo Ministério das Finanças, assume que o preço médio do barril de petróleo Brent seria de 65,4 dólares. O valor está largamente desatualizado por causa da nova crise petrolífera espoletada pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, entretanto agora propagada aos países árabes vizinhos, no Golfo Pérsico. O BCE reviu, por isso, a previsão média anual do preço do barril de Brent para 81,3 dólares em 2026. São mais 16 dólares, ou mais 24%, face ao pressuposto orçamental da tutela do ministro Joaquim Miranda Sarmento.

Nas taxas de juro de mercado (curto prazo, Euribor a três meses), muito usadas pelos bancos nos contratos dos empréstimos, por exemplo, o cenário também mudou de figura. Está mais caro.

Na sexta-feira, o contrato do barril de Brent, a principal referência para Portugal e a Europa, estava quase em 110 dólares. Na véspera, a meio da tarde, superou os 119 dólares. E a guerra continua, portanto, os sinais não abonam a favor de descidas.

O BCE e a presidente Christine Lagarde regressaram a uma linguagem muito mais agressiva por causa da inflação e da explosão nos preços da energia, sinalizando que o caminho iminente é subir as taxas de juro diretoras, considera já a maioria dos analistas de mercados depois do que disse a líder do BCE na passada quinta-feira, em Frankfurt.

No OE 2026, a taxa Euribor média assumida pelas Finanças para 2026 é de 2%, mas o BCE projeta agora 2,3%.

Por hipótese, muito conservadora, um crédito à habitação de 150 mil euros a 30 anos, indexado à Euribor de curto prazo, pode sofrer um agravamento de 0,3 pontos percentuais, fazendo subir a prestação em juros desse empréstimo, de 70 para 90 euros mensais. Ou seja, cerca de 20 euros a mais, em média, por mês. Mas os valores certos dependerão muito dos bancos e das condições contratadas, obviamente.

Economia portuguesa nunca escapará ao embate

Três dias antes da reunião do BCE, Paula Carvalho, economista-chefe do departamento de estudos do grupo BPI (BPI Research), analisou o impacto que o choque petrolífero pode ter na economia portuguesa.

“Embora a economia portuguesa não deva enfrentar problemas de abastecimento, ela será afetada pelo aumento dos preços da energia”, avisava a economista.

“Como referência, um aumento de 20 dólares no preço médio do petróleo no ano (para 87 dólares por barril) subtrai 0,14 pontos percentuais (p.p.) ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)”, calcula a analista do BPI.

Tendo em conta o aumento até à data e a duração do choque, “o crescimento da economia portuguesa poderá estar próximo dos 1,8%”.

Portanto, neste cenário, o ritmo de retoma da economia nacional já está abaixo da previsão de 2,3% que o governo inscreveu no OE 2026, e confirmada em dezembro pelo Banco de Portugal, aliás.

Ao dia de hoje, a média do ano, de 1 de janeiro a 20 de março, para o Brent já vai em 75 dólares, segundo cálculos do DN. São mais nove dólares do que diz o governo no OE e apenas menos sete dólares face ao prognóstico do BCE na nova previsão trimestral de março.

De relevar também que a média diária desde 1 de janeiro até 27 de fevereiro (antes do conflito com o Irão), o custo do Brent rondava os 67 dólares por barril. Desde então, a média disparou para 96 dólares até sexta-feira, 20 de março. São mais 30 dólares, um agravamento de 43%.

Segundo Paula Carvalho, aumentos destas magnitudes (20 dólares por barril a mais do que o esperado antes da guerra) “teriam um impacto sectorial muito heterogéneo: a indústria, mais intensiva em energia, seria a mais afetada; por outro lado, no turismo, a perceção de um destino seguro poderá compensar o choque sobre a procura”.

Na inflação, “a moderação esperada para 2,1% em 2026 poderá não se concretizar e manter-se em torno de 2,7%”, remata.

O governo português reconhece que esta crise energética, somada aos custos das tempestades devastadoras que assolaram o país em janeiro e fevereiro, deverá provocar mossa nas contas públicas, admitindo o regresso a uma situação de défice orçamental, mas continua a defender que as finanças vão continuar “equilibradas”, como pede Bruxelas.

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