

O Nuvem, o novo cabo submarino transatlântico da Google que liga os Estados Unidos a Portugal foi lançado esta terça-feira, 21 de julho, numa cerimónia no Oceanário de Lisboa. Trata-se de uma infraestrutura de última geração que liga Myrtle Beach, na Carolina do Sul, a Sines, com pontos de ancoragem intermédios nas Bermudas e nos Açores. O objetivo é criar uma rota estratégica e mais resiliente para as ligações do Atlântico Norte.
Segundo foi anunciado há três anos, o cabo Nuvem “irá melhorar a resiliência da rede no Atlântico e ajudar a responder à procura crescente por serviços digitais”, com um percurso que “irá acrescentar diversidade às rotas internacionais e apoiar o desenvolvimento da infra-estrutura de tecnologia de informação e comunicação para os continentes e países envolvidos”.
O Nuvem é o primeiro cabo submarino a ligar diretamente os Estados Unidos e Portugal, e representa a segunda grande chegada de um cabo da Google ao nosso país, depois do Equiano (2022), estando já está prevista a chegada do cabo Sol à Região Autónoma dos Açores para 2027.
A costa atlântica de Portugal, lembra a Reuters, posiciona o país como um importante centro de cabos submarinos intercontinentais, ajudando a transformá-lo num pólo de atração para centros de dados orientados por IA.
Com cerca de sete mil quilómetros, o Nuvem é composto por 16 pares de fibra com uma capacidade total projetada de cerca de 384 terabits por segundo.
O Ministro da Reforma do Estado e da Inovação, Gonçalo Matias, afirmou, segundo a Reuters, que o Nuvem faz parte de uma estratégia mais vasta para tornar Portugal num polo de centros de dados, de inteligência artificial e de inovação, reforçando ao mesmo tempo a resiliência e a soberania digital da Europa.
"Portugal está a tornar-se naquilo que a geografia sempre nos convidou a ser: a porta de entrada atlântica da Europa, o ponto de encontro de três continentes: Europa, África e Américas", disse na cerimónia de lançamento do cabo.
Dois cabos submarinos de alta capacidade já ligam Portugal a outros continentes: o cabo Equiano, pertencente à Google, que vai até à África do Sul passando por outros países africanos, e o EllaLink, que vai de Sines até ao Brasil.
"Quando uma empresa americana investe assim — não uma, mas três vezes - no mesmo país, isso não é coincidência", afirma o Embaixador dos EUA em Portugal, John J. Arrigo, que se juntou a vários decisores portugueses, executivos da Google e líderes da indústria no Oceanário de Lisboa para celebrar a amarração do Nuvem, citado em comunicado. "É uma empresa a ler o mapa do futuro e a decidir que Portugal está no centro", acrescenta.
De acordo com o comuncado da embaixada dos Estados Unidos, as empresas americanas transformaram os Estados Unidos na terceira maior fonte de investimento estrangeiro em Portugal — quase 20 mil milhões de dólares -, abrangendo setores como IA, energia, agricultura e turismo.
Referindo-se aos cabos submarinos como “autoestradas da Internet", a embaixada americana realça que se prevê que o investimento tecnológico dos EUA atinja os 40 mil milhões de dólares até 2031. “Só os investimentos da Google em cabos submarinos deverão gerar mais de 500 milhões de euros de impacto económico anual”, afirma.
"Cada novo cabo fiável que chega a solo português é um cabo que não está a chegar a um local menos fiável. Isto importa para Washington. E acredito que importa para Portugal", disse o embaixador, segundo a mesma nota, salientando que os cabos submarinos transportam mais de 95% do tráfego de dados mundial.
A Meo é parceiro nacional do cabo submarino Nuvem. "Seis anos após o fim de vida do sistema Columbus III – o único cabo que ligava Portugal aos Estados Unidos –, a Meo volta a investir numa infraestrutura submarina transatlântica estratégica. Como investidor e parceiro nacional do sistema Nuvem, desenvolvido pela Google, a empresa reafirma o seu compromisso com as infraestruturas digitais e com o reforço da posição de Portugal no ecossistema digital global", diz em comunicado, sem revelar o investimento em causa.
À margem da cerimónia para celebrar a amarração do Nuvem, o presidente do Governo Regional dos Açores afirmou que a geografia tem um valor tecnológico e que o valor da região, do ponto de vista geopolítico, é ainda mais relevante.
Isto "porque nós somos, sob o ponto de vista da importância da coesão social, económica e territorial, reconhecidamente uma região ultraperiférica que precisa de ajuda ao seu desenvolvimento, quer pelo todo nacional, quer pelo contexto da nossa adesão à União Europeia", disse José Manuel Bolieiro.
Contudo, "somos nestes novos domínios que têm muito a ver com o futuro, com as novas economias, uma centralidade" e "isso confere ao país, na sua geografia atlântica, um valor geopolítico e geoestratégico porventura ainda mais valioso do que toda a história do país".
"E eu estou muito empenhado em que também através destas transições que hoje o mundo passa, a transição desde logo digital e que hoje aqui nos convoca para esta reflexão com a passagem e amarração dos cabos da Google, tem verdadeiramente uma importância disruptiva relativamente ao nosso valor para a economia do futuro", referiu.
No quadro dos 'smart cables' [cabos inteligentes], também pode ser "importante para acompanhar" as transições quer sob o ponto de vista climático como ambiental ou energético.
"É por isso que nós estamos não só numa ponte, mas também numa sala de controlo do que será o futuro e das novas economias", salientou José Manuel Bolieiro.
"No mundo, na sua relação transatlântica, e em não apenas dois continentes, como é tradição fazer a relação bilateral Portugal-Estados Unidos, mas o continente europeu, o continente africano e o continente americano, as Américas na sua pluralidade, a do norte, a do centro e a do sul, portanto, hoje estamos aqui a fazer história", acrescentou.
*Com Lusa