

Além dos conflitos regionais que fustigam as fronteiras da Europa ou do Médio Oriente, o mundo encontra-se mergulhado numa nova e intensa Guerra Fria em que, ao contrário da sua análoga do séc. XX, a soberania não se mede em quilómetros de território ou em áreas de influência política direta, mas em petaflops de processamento. Há pouco mais de meio século, a corrida para desenvolver armas nucleares ocupou as mentes mais brilhantes dos EUA e da União Soviética. Hoje, o cenário é diferente, mas o objetivo é o mesmo: o domínio do mundo e, no limite, da forma de viver.
Nick Wright, investigador em neurociência cognitiva na University College London (UCL), resume à BBC esta nova era como uma batalha entre “cérebros” e “corpos”. Atualmente, enquanto os EUA lideram nos “cérebros” (no software e nos chips), a China está a dominar nos “corpos” (na robótica). Mas este equilíbrio está a ser posto à prova por uma aceleração tecnológica sem precedentes.
Em janeiro de 2025, na mesma semana da inauguração do segundo mandato de Donald Trump, o lançamento do modelo chinês de IA DeepSeek criou ondas de choque no Pacífico que se sentiram em Washington, D.C.
O LLM (Large Language Model - Grande Modelo de Linguagem) provou que a China consegue criar “cérebros” de alta performance com uma fração do custo dos laboratórios americanos, utilizando uma quantidade significativamente menor de chips.
A jornalista de IA Karen Hao descreveu à BBC o efeito na Administração americana como “extremamente desorientador”, sugerindo que os controlos de exportação dos EUA reforçados pelo presidente Joe Biden em 2022 quando a ‘corrida à IA’ começou a aquecer terão tido o efeito oposto ao desejado: “Acabou por acelerar a autossuficiência da China”, disse. Ao serem privados dos chips mais potentes, os engenheiros chineses foram forçados a ser mais criativos, otimizando o código, onde outros apenas adicionavam poder computacional.
O impacto financeiro foi imediato… E histórico. Segundo dados da Bloomberg, a Nvidia sofreu a maior perda de valor de mercado num único dia na história das bolsas americanas - cerca de 600 mil milhões de dólares - após os investidores terem percebido que o domínio do hardware americano poderia ser contornado por algoritmos chineses mais eficientes.
Selina Xu, investigadora de políticas de IA no gabinete de Eric Schmidt (Ex-CEO da Google e arquiteto da Estratégia de IA dos EUA que presidiu à National Security Commission), nota que a proposta chinesa é tentadora para o mercado global: “O modelo chinês pode ficar 10% aquém do americano na qualidade, mas é 90% mais barato.”
Perante este cenário, esta semana tornou-se pública a mudança de paradigma no coração do capitalismo tecnológico. A City AM revelou que a Google, a Anthropic e a OpenAI - tradicionalmente rivais ferozes que disputavam cada engenheiro e cada dólar de investimento - começaram a partilhar informações críticas sobre tentativas de espionagem e na chamada “destilação” de modelos. Esta colaboração está a ser coordenada através do Frontier Model Forum, a entidade sem fins lucrativos cofundada também pela Microsoft, em 2023, um esforço unido para proteger a margem comercial ocidental contra o que estas organizações consideram ser uma “extração de valor” sistemática.
O perigo reside na referida “destilação competitiva”. Parmy Olson, colunista da Bloomberg e autora do livro Supremacy: AI, ChatGPT, and the Race That Will Change the World, destaca que o modelo open source da China permite uma inovação coletiva agressiva: “As empresas tecnológicas na China não têm de começar do zero. Podem simplesmente pegar num modelo e construir sobre ele.” Para os gigantes americanos, que investiram triliões de dólares em modelos proprietários, esta prática de aprender com os outputs alheios representa uma ameaça existencial aos seus lucros e à sua liderança técnica.
A chave da vantagem estratégica americana não reside apenas no código, no entanto, mas também no hardware. Hoje, o design dos chips da Nvidia é soberano, mas a sua produção depende de uma cadeia de abastecimento frágil. A maioria dos componentes de alta gama é fabricada em Taiwan pela TSMC, a poucos quilómetros da costa da China continental. Para manter esta vantagem, Washington utiliza a “regra do produto direto estrangeiro”, forçando empresas de outros países a alinharem com as regras dos EUA se usarem tecnologia americana.
Isto afeta também a Europa. A empresa holandesa ASML é a única no mundo capaz de fabricar as máquinas de impressão ultravioleta necessárias para os chips mais avançados. Através de pressão diplomática e legal, os EUA garantem que estas máquinas não chegam a solo chinês. No entanto, como nota Stephen Witt, autor do livro The Thinking Machine, esta política de contenção está a ser desafiada pela capacidade da China de inovar dentro das restrições.
Enquanto nos “cérebros” a disputa é renhida, nos “corpos” a China leva uma vantagem consolidada. Relatórios do Center for Strategic and International Studies (CSIS) descrevem “fábricas escuras” em Chongqing, totalmente automatizadas, capazes de entregar um carro novo por minuto praticamente sem intervenção humana. A China detém agora 90% das exportações de robôs humanoides.
Este foco na robótica não é apenas industrial: é existencial. Com uma população com mais de 65 anos que, em 2035, deverá exceder toda a população dos EUA, Pequim vê nos humanoides a única forma de manter a sua economia funcional e cuidar dos seus idosos. Mas um robô precisa de uma inteligência capaz de tomar decisões independentes - o que nos leva à IA agêntica.
Esta é o ‘programa’ que permite a um robô realizar tarefas complexas e variadas, em vez de apenas movimentos repetitivos. Aqui, os EUA ainda lideram. Exemplo disso é o robô “Spot”, da Boston Dynamics, que utiliza IA agêntica para realizar inspeções em armazéns e detetar fugas de gás ou sobreaquecimento sem supervisão humana.
O futuro da guerra e da economia será decidido por quem conseguir fundir, de forma mais perfeita, estes cérebros inteligentes com os corpos de metal.
A vitória nesta Nova Guerra Fria não será um momento único de “chegada à Lua”. Greg Slabaugh, professor de visão computacional na Queen Mary University of London, afirma que o que importa é a “vantagem sustentada: quem incorpora a IA de forma mais eficaz em toda a sua economia e quem define os padrões globais”.
A disputa final poderá ser decidida pela escala de adoção. Mari Sako, da Saïd Business School da Universidade de Oxford, observa que estamos perante dois sistemas com regras opostas: o hipercapitalismo de consumo americano contra a supervisão estatal chinesa. “O jogador que conseguir atrair a maior audiência - utilizadores, adotantes, etc. - é o que provavelmente prevalecerá”, conclui.
Para já, este cessar-fogo em Silicon Valley pode ser interpretado como um reconhecimento de que nenhuma empresa, por mais rica que seja, consegue enfrentar sozinha o peso de um Estado que decidiu fazer da Inteligência Artificial o seu destino nacional. Mas na realidade ambos estão a tentar captar o máximo possível do poder da carteira de cada indivíduo.