

O anúncio foi feito esta quinta-feira, 2 de julho, e não deixa margem para dúvidas: depois de, em março, ter sido declarada insolvente, a Unbabel vai agora ser encerrada e avançar para liquidação, com a aprovação unânime dos credores presentes na assembleia que decorreu no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. No final da audiência, Vasco Pedro, CEO da empresa, que já estava sem atividade e sem trabalhadores, agradeceu aos investidores da Unbabel e admitiu-se “vencido pela Inteligência Artificial”
De acordo com a juíza titular do processo de insolvência, nenhum plano de recuperação foi apresentado para tentar salvar a Unbabel, cujas dívidas a três dezenas de credores ascendem a cerca de 15,5 milhões de euros. A empresa, que foi criada por Vasco Pedro, Sofia Pessanha, João Graça, Hugo Silva e Bruno Silva no início da década passada, e que se especializou na área de tradução automática através de IA, foi declarada insolvente no passado dia 10 de março. Isto depois de ter recebido 14,1 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para o desenvolvimento de um projeto, e depois de vários anos focada em várias aquisições para tentar obter o tão desejado estatuto de unicórnio – uma valorização acima dos mil milhões de dólares -, o que acabou por nunca ser possível.
De acordo com informação veiculada pelo Jornal de Negócios, a empresa cumpriu com a totalidade dos compromissos assumidos no âmbito do PRR. No entanto, a despesa realizada e certificada ficou abaixo do contratualizado, o que obrigou à devolução do valor em excesso, cerca de 1,3 milhões de euros.
Por proposta dos maiores credores – os fundos de capital de risco Iberis Bluetech Fund II e Iberis Bluetech Fund III, com créditos de 4,2 milhões de euros e 7,2 milhões de euros, respetivamente –, a comissão de credores será presidida por um representante da própria Iberis, pelo Instituto da Segurança Social e pelo fundo Buenavista Equity Partner Portugal.
São 31 os credores da Unbabel sendo que o IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação, que responsável pela gestão de parte dos fundos europeus, surge na lista com o estatuto de credor privilegiado. Esse crédito, entretanto, foi objeto de impugnação pela Wuessen, uma sociedade financeira com sede no Luxemburgo e uma das principais investidoras na Unbabel. A Wuessen é detentora de um crédito de 2,4 milhões de euros e de um penhor sobre uma conta bancária da Unbabel, o que à partida coloca a recuperação do seu crédito à frente do dos restantes credores. A composição da comissão de credores da Unbabel, votada durante a assembleia, foi também objeto de impugnação pelos representantes da Wuessen, de acordo com informações da Agência Lusa. Isto porque a Wuessen alegou que o facto de o fundo Buenavista não ser credora da Unbabel faz com que os seus interesses “não estejam alinhados com os dos restantes credores”, segundo alegaram os representantes.
Com efeito, os créditos do Buenavista não foram reconhecidos pelo administrador judicial, Pedro Pidwell. Meses antes da insolvência, o fundo Buenavista Equity Partners interpôs um processo judicial em Portugal, no valor de 12,75 milhões de euros, para tentar anular a venda os ativos da Unbabel Inc. (empresa mãe da Unbabel portuguesa) à norte-americana TransPerfect, ocorrida em agosto do ano passado.
O fundo tem alegado que a operação, realizada por um valor que considerou como sendo muito baixo, inviabilizou o retorno dos montantes investidos na empresa. A Unbabel começou a perder clientes à medida que os seus produtos iam sendo substituídos por soluções de IA generativa mais baratas, tendo avançado no início do ano com o pedido de insolvência no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. Durante muito tempo apontada como uma das mais promissoras startups tecnológicas nacionais, era líder de uma das agendas mobilizadoras do PRR – a “Center for Responsible AI” -, tendo sido substituída pela Sword Health depois da venda à TransPerfect.
*com Lusa