Wellington Martins, diretor clínico da Semear.
Wellington Martins, diretor clínico da Semear.Foto: DR

Diretor da maior clínica de reprodução assistida do Brasil: "As taxas de juro sufocam o planeamento empresarial"

"Não nos pautamos por preferências político-partidárias. O que o empresariado brasileiro quer é estabilidade macroeconómica", diz.
Publicado a

Os empresários da área da Saúde no Brasil enfrentam os problemas comuns a todos os empreendedores, como as taxas de juro altas e a burocracia fiscal, e mais alguns obstáculos específicos, conta ao Dinheiro Vivo o diretor clínico da maior clínica de reprodução assistida em volume do país. Entre os quais, “um movimento cultural crescente de pessoas que optam por não ter filhos”, “um custo financeiro desafiador para montar laboratório” e a “necessidade de conhecimento técnico gigantesco”, lista Wellington Martins.

“Sobre as eleições? Independentemente de quem vença, os projetos empresariais precisam de um ambiente que favoreça a queda estrutural dos juros, além de uma simplificação burocrática real e de regras laborais mais simples”, afirma o empresário.

Há obstáculos específicos que uma empresa na área da Saúde em geral e da reprodução assistida em particular enfrenta hoje no Brasil?

Enfrentamos os problemas macroeconómicos comuns a qualquer empresário, as taxas de juros muito elevadas, que sufocam o planeamento, e a burocracia tributária e a complexidade jurídica, que encarecem a operação. Além disso, lidamos com uma transição demográfica ambígua: por um lado, o envelhecimento da população aumenta a procura geral por serviços de saúde e o adiamento da maternidade para idades mais avançadas faz crescer muito a necessidade da medicina reprodutiva; por outro, há um movimento cultural crescente de pessoas que simplesmente optam por não ter filhos, o que atua como fator redutor de procura. Navegar por essas incertezas, somadas à dependência de insumos importados, é o nosso maior desafio.

E a reprodução assistida é área particularmente sensível…

Sim, a tolerância ao erro é mínima. As expectativas dos pacientes estão cada vez mais altas e a margem para falhas diminui. Como as nossas equipas são formadas por seres humanos, a gestão exige a criação e manutenção de protocolos clínicos e laboratoriais com camadas de redundância e dupla e até tripla checagem em cada etapa do processo. A competição na nossa área é muito forte, porém é numericamente mais limitada porque a necessidade de conhecimento técnico para iniciar um serviço é gigantesca e ainda temos as partes médica e laboratorial e o conhecimento de todas as exigências crescentes da Vigilância Sanitária. Somado a isso, o investimento inicial para se montar um laboratório com a tecnologia necessária é cada vez mais desafiador. Portanto, a dificuldade não vem de uma enxurrada de novos concorrentes mas do peso contínuo do altíssimo custo de atualização tecnológica, excelência operacional e gestão das expectativas.

Quando a Semear começou e quais os últimos números da clínica?

Começou em setembro de 2016. Dados abertos mostram que fomos responsáveis por um a cada seis embriões gerados no Brasil entre 2020 e 2025. Apenas em 2025 realizamos 3881 ciclos de punção e congelamos 22977 embriões. Isso representa 18% de todos os embriões do país e 35% do estado de São Paulo, o que nos consolida como a clínica líder em volume no cenário nacional.

O que a distingue de outras clínicas?

A excelência do aconselhamento. O nosso principal objetivo é fornecer a melhor consultoria para que os pacientes consigam atingir o sonho da maternidade da forma mais tranquila e com o menor gasto. Para isso, combinamos três pilares indissociáveis. Rigor científico: conduta clínica baseada na mais sólida evidência médica internacional; humanização: entender a carga emocional do processo para tornar a jornada a mais leve possível; e infraestrutura tecnológica: manter um laboratório de ponta que garanta a máxima eficiência dos ciclos. O que nos distingue é justamente esse foco num compromisso ético de longo prazo com o desfecho clínico do paciente, assegurando autonomia aos médicos e distanciando-nos da lógica de consolidação estritamente voltada a fundos de investimento.

A área da reprodução assistida está em constante transformação tecnológica: isso é desafiador?

É um desafio diário e fascinante. A reprodução assistida avança em ritmo exponencial. Manter-se na vanguarda exige um ciclo constante de treino médico e investimento em tecnologia. Se uma clínica estagnar, perderá em eficiência em pouco tempo.

O Brasil tem eleições em outubro: algum dos principais candidatos seria preferível para a Semear?

Não nos pautamos por preferências político-partidárias. O que o empresariado brasileiro quer é estabilidade macroeconómica, responsabilidade fiscal e previsibilidade jurídica. Projetos empresariais precisam de um ambiente que favoreça a queda estrutural dos juros para estimular investimentos, além de uma simplificação burocrática real. Independentemente de quem vença, o setor avança e investe com segurança quando as regras do jogo são claras e respeitadas.

A Semear tenciona expandir-se para Portugal?

O mercado europeu, e Portugal em particular, é atraente devido à proximidade cultural e ao fluxo de profissionais altamente qualificados. Embora o nosso foco atual seja consolidar o grande volume da nossa operação no Brasil, olhamos para a internacionalização como passo natural no futuro, considerando Portugal como consolidado centro de inovação em saúde na Europa.

Wellington Martins, diretor clínico da Semear.
Tecnologia contra principal causa de mortalidade infantil tem selo português
Wellington Martins, diretor clínico da Semear.
Ribeirão Preto. A Silicon Valley brasileira da reprodução assistida
Diário de Notícias
www.dn.pt