

Uma startup com sede em Figueiró dos Vinhos entrou recentemente no Sistema Único de Saúde do Brasil (SUS), o maior serviço público de saúde do mundo com uma tecnologia desenvolvida em Portugal. Esta é a história do PreemieTest, um dispositivo médico desenvolvido e produzido em terras lusas pela Birthtech, para combater a prematuridade, a principal causa de mortalidade neonatal no planeta. Mas a trajetória da startup começou muito longe das maternidades.
Fundador da Birthtech, doutorado em astrofísica e ex-colaborador da Agência Espacial Europeia, o brasileiro Rodney Guimarães, que vive em Portugal desde 2020, passou vários anos dedicado à investigação científica até começar a sentir um desconforto com a distância entre a academia e os problemas concretos das pessoas.
“Alguns anos atrás eu estudava Quasar [objetos celestes a milhares de milhões de anos-luz de distância], mas perto do observatório onde eu trabalhava, havia uma mulher passando fome, morando na rua. Ficava inconformado com isso: nessas horas você percebe que a sua influência no dia-a-dia ou na melhoira da vida das pessoas é zero", conta em entrevista ao Dinheiro Vivo o fundador da Birthtech, que posteriormente resolveu reconfigurar a rota da sua carreira.
"Chega um momento em que ou você leva a ideia para a frente, ou ela fica numa tese de doutoramento e nos artigos que escreveu, encostada”, diz, recordando o momento em que decidiu abandonar a carreira ligada à astronomia para trabalhar numa tecnologia com aplicação prática na medicina.
Em redor do mundo, são cerca de três milhões de recém-nascidos a morrere anualmente devido a complicações associadas ao nascimento antes do tempo, de acordo com dados levantados pela startup. Rodney explica que o PreemieTest atua precisamente nas primeiras 24 horas de vida, usando luz para medir a maturidade da pele do bebé e entregar o resultado ao médico em segundos, sem qualquer procedimento invasivo.
O ponto de partida da Birthtech é uma limitação concreta dos protocolos clínicos atuais: os dois marcadores tradicionais de prematuridade - idade gestacional e peso do recém-nascido - falham com frequência suficiente para justificar uma alternativa. “Você tem bebés com 40 semanas e peso acima de três quilos com os dois marcadores ótimos e, mesmo assim, o pulmão não está maduro”, explica Rodney.
O brasileiro conta que a solução surgiu a partir de uma observação da obstetra Zilma Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Rodney explica que a pele dos bebés prematuros é translúcida, enquanto a de um bebé nascido a termo é mais opaca. O PreemieTest mede essa translucidez e converte-a em probabilidades clínicas já familiares às equipas médicas, como a necessidade de suporte de ventilador, internamento numa UCI neonatal e risco de síndrome de dificuldade respiratória.
Segundo a empresa, os ensaios clínicos realizados com quase mil recém-nascidos mostraram que a tecnologia alterou o diagnóstico médico em um de cada cinco casos, permitindo identificar bebés que precisavam de apoio respiratório mesmo quando os indicadores tradicionais apontavam estabilidade clínica. O dispositivo consegue ainda medir o efeito dos corticosteroides administrados em grávidas com risco de parto prematuro.
A prova de conceito foi desenvolvida na Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, após uma candidatura ao programa Grand Challenge Exploration, da Fundação Bill & Melinda Gates. Com o passar do tempo, o projeto acabou por ultrapassar o universo académico e transformar-se numa startup instalada em Portugal por recomendação de um amigo de Rodney.
A produção do equipamento foi transferida para território português depois de o parceiro industrial inicialmente previsto no Brasil abandonar o projeto. Através de um contacto português, Rodney chegou à Incredible, empresa de Aveiro responsável pela componente ótica do dispositivo até hoje. A HFA assumiu a componente eletrónica, enquanto parceiros adicionais em Maia e Águeda completaram a cadeia de produção. A operação foi instalada em Figueiró dos Vinhos depois de a empresa vencer um concurso público municipal para ocupação de um espaço industrial que funciona hoje como sede europeia de desenvolvimento e produção.
Em relação a números, o brasileiro afirma que o financiamento total da Birthtech ronda os 500 mil euros entre investimento público e privado. O programa PT2030, através do COESO, contribuiu para a contratação de pessoal, enquanto a COREangels Atlantic investiu 250 mil euros numa fase ainda pré-receitas.
A Birthtech trabalha sobretudo com governos e organizações internacionais, o invés de vender diretamente a hospitais, num modelo de negócio da empresa que foge ao padrão habitual do setor tecnológico. Para os próximos tempos, a empresa mantém conversações com organizações como Save the Children e Médicos Sem Fronteiras, embora a entrada plena no mercado europeu ainda dependa de processo regulatório, que pode demorar até dois anos.
Além do Brasil, atualmente, a Birthtech está presente em duas dezenas de países, incluindo Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e vários mercados africanos, como Moçambique, Senegal, Burquina Fasso, Costa do Marfim e Angola, continente que é prioritário para a startup. No Brasil, o dispositivo foi incorporado no SUS (o equivalente ao SNS português) em fevereiro, e ficará disponível em maternidades públicas brasileiras, incluindo territórios indígenas, numa escala potencial de servir três milhões de bebés por ano.