

O Douro Vinhateiro e a região envolvente está numa encruzilhada, agora que passam vinte e cinco anos após ter sido classificado como Património Mundial da Unesco. Se é verdade que a região bate recordes anuais no turismo fluvial, é ainda escassa a riqueza que é deixada por este tipo de turismo no conjunto do território, composto por 19 municípios com uma elevada predominância de aldeias e onde vivem cerca de 200 mil habitantes. “Temos de trabalhar em conjunto e com o Governo para conseguir reter mais pessoas, mais desenvolvimento e oportunidades para a região”, diz Miguel Santos, secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Douro, em declarações ao DN/DV.
Em 2024, o turismo na via navegável do Douro atingiu um novo máximo, com perto de 1,4 milhões de passageiros registados, num aumento de 10,6% face ao ano anterior. Mas é preciso que este fluxo expressivo, sobretudo com origem na cidade do Porto, deixe mais retorno no território, defende Miguel Santos. “De outro modo, os cruzeiros no Douro deixam-nos apenas uma pegada ambiental que é o lixo produzido a bordo e que são os municípios que depois têm de transportar e tratar e que tem um custo”, exemplifica o responsável. A gestão dos resíduos é, aliás, um desafio para a região, agora que a legislação europeia impõe regras mais apertadas para o seu tratamento, assume o secretário executivo.
Para além dos cruzeiros e provas de vinho, a região tem investido no turismo rural, turismo de natureza e no turismo de luxo, atraindo novos perfis de turistas nacionais e estrangeiros. E entre 2019 e 2024, as dormidas no Douro cresceram 29,1% no Douro, contra 19,7% em Trás-os-Montes e 18,2% no Minho.
Mas a falta de boas infraestruturas de transportes ou de comunicações (fibra ótica) em muitas áreas da região estão a deixá-la aquém do seu potencial de desenvolvimento. Uma das carências mais reclamadas pela CIM Douro é a modernização da ferrovia. “Pode o Douro ser tratado como destino turístico sem uma ferrovia moderna e competitiva?”, questiona a CIM Douro, que reclama ainda a requalificação integral da ligação internacional a Espanha, lembrando, por exemplo, o seu impacto económico na exportação de vinhos.
Ainda no domínio da mobilidade, Miguel Santos, defende que “é necessário pensar o transporte público rodoviário de forma integrada na região e o seu reforço”. Mas também introduzir “soluções flexíveis para aldeias mais isoladas, em que o transporte a pedido (táxi ou TVDE) pode ser uma solução, quando a falta de viabilidade económica de carreiras mais regulares não justifque a operação”.
Importante é igualmente criar soluções de transporte fluvial entre as duas margens do Douro, que desobriguem as populações de ter de dar grandes e demoradas voltas para contornar a complexa orografia da região. Resolver a questão da mobilidade no Douro é crucial para o seu desenvolvimento, pois alguns projetos turísticos, independentemente da sua dimensão, só serão bem sucedidos se tiverem funcionários com capacidade para se deslocar até ao local de trabalho.
“A questão das comunicações e da fibra ótica é outra batalha dos 19 municípios do Douro, que ainda se debatem com zonas sem sinal de internet”, lembra Miguel Santos. As operadoras têm os seus investimentos em infraestuturas concentrados em zonas de maior densidade e ao longo de autoestradas, sendo que a legislação não as obriga a fazer a ligação de sinal até às aldeias. Sem um investimento público das autarquias, as operadoras também não avançam. Mas o tipo de turista que procura um turismo de natureza, enoturismo ou gastronomia não gosta necessariamente de ficar isolado sem comunicações.
Atendendo à especificidade destes territórios de baixa densidade, a CIM Douro defende que a região pode ser exemplo de política demográfica inovadora, com uma fiscalidade diferenciada para incentivar a fixação de jovens, por exemplo.
A CIM Douro assinalou a sua presença habitual na BTL (Better Tourism Lisbon Travel Market) com o lançamento de uma publicação, a Host Douro, uma revista que resume o evento promovido pela comunidade em setembro de 2025, e que atraiu a Lamego referências internacionais do universo da gastronomia, enologia e da hotelaria. Com o foco no conceito de acolher (host, em inglês), a região quer criar uma cultura anfitriã nas várias atividades económicas, “porque são precisos mais anifitriões do que guias turísticos”. É esse detalhe que transforma uma refeição em alta cozinha, assim como uma estadia simples numa experiência inesquecível.
A Comunidade Intermunicipal do Douro abrange 19 municípios dos distritos de Bragança, Vila Real, Guarda e Viseu, 217 freguesias numa área superior a 4 mil km quadrados. Criado para fomentar a cooperação regional e o desenvolvimento sustentável, destaca, entre os seus objetivos, a promoção da coesão territorial, a atração de investimento, a inovação tecnológica e a internacionalização dos seus produtos e serviços.