Empresas querem contratar profissionais em IA que quase não existem

Há escassez de talento em áreas como Inteligência Artificial, digitalização, cibersegurança e dados. Empresas procuram perfis "ideais", mas a solução está na formação interna, dizem especialistas.
Os salários de profissionais com competências em IA são "significativamente superiores" aos de muitas funções tecnológicas, diz Gonçalo Castelbranco, da Michael Page.
Os salários de profissionais com competências em IA são "significativamente superiores" aos de muitas funções tecnológicas, diz Gonçalo Castelbranco, da Michael Page. Foto: Pedro Granadeiro/Global Imagens
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A Inteligência Artificial está a transformar o mercado de trabalho. E um dos grandes desafios que está a colocar é a necessidade de profissionais com competências tecnológicas que quase não existem. Mas o desajustamento entre o que querem as empresas e o perfil dos candidatos estende-se a outros setores. Como salienta Gonçalo Castelbranco, da empresa de recrutamento Michael Page, "existe claramente um desfasamento entre aquilo que as empresas procuram e o talento disponível" e em IA "o problema é ainda mais complexo".

A tecnologia está a evoluir mais rapidamente do que as carreiras profissionais e "muitas empresas procuram simultaneamente experiência em desenvolvimento, data, cloud, machine learning, GenAI e conhecimento do negócio, uma combinação que poucos candidatos possuem", frisa Gonçalo Castelbranco. É esse o quadro que também traça Paula Baptista, diretora-geral da Hays Portugal: "O verdadeiro desafio está na velocidade a que as competências necessárias estão a mudar". Segundo a especialista em trabalho, "muitas empresas continuam à procura do candidato ideal, com experiência específica, setor específico, certificações específicas e disponibilidade imediata" e "esse perfil muitas vezes simplesmente não existe".

Lúcia Guimarães, da Adecco, depara-se com o mesmo entrave. Segundo adianta, em funções altamente especializadas, "é frequente as organizações procurarem profissionais que reúnam um conjunto muito alargado de competências técnicas, experiência específica e disponibilidade imediata, perfis que nem sempre existem em número suficiente". É uma realidade muito visível "em áreas onde a procura tem crescido mais rapidamente do que a oferta de profissionais qualificados, como é o caso da tecnologia em áreas de IA, a sustentabilidade ou ainda as funções técnicas especializadas", diz Daniela Lourenço, da Manpower.

Como se revolve este desajustamento? As empresas estão a perceber que "devem contratar potencial e desenvolver competências internamente", diz Paula Baptista. Na sua opinião, "a capacidade de formar, requalificar e desenvolver talento será uma das competências mais importantes das organizações durante esta década". Daniela Lourenço destaca também a necessidade de investimento em formação, reskilling e upskilling dentro das empresas para garantir as competências que necessitam e são mais difíceis de encontrar no mercado.

Lúcia Guimarães também considera que "as empresas continuam a definir perfis muito próximos do candidato ideal, quando talvez seja mais eficaz identificar profissionais com uma base sólida de competências e potencial de desenvolvimento". Segundo José Pestana, da Randstad, "as empresas apresentam um perfil com uma grande expectativa, mas depois face ao que encontramos no mercado e à realidade dos candidatos disponíveis muitas vezes redefinem o perfil".

O valor do talento

Os candidatos são hoje também diferentes. Daniela Lourenço lembra que os profissionais têm "uma maior consciência do seu valor e das oportunidades disponíveis", e valorizam cada vez mais fatores como a remuneração, as oportunidades de progressão, a flexibilidade e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal". Gonçalo Castelbranco chama a atenção que os profissionais com competências tecnológicas e de IA, principalmente os mais jovens, tendem a fazer pesquisa de mercado, ou seja, aderem a processos de recrutamento, “apenas para ver o que anda aí” ou confirmarem o seu valor.

Para Lúcia Guimarães, "o salário, apesar de continuar a ser determinante, deixou de ser suficiente para atrair e fidelizar talento, porque deixou de ser analisado isoladamente". Para atrair pessoas, as empresas estão a competir noutros vetores, como flexibilidade, modelos de trabalho híbridos, benefícios, oportunidades de desenvolvimento, cultura organizacional, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e qualidade da liderança, diz a especialista.

As empresas estão muito ativas na procura de profissionais com formação em tecnologias de informação e engenharia, mas a procura estende-se também às áreas financeira e de banca, serviços partilhados, saúde, construção e logística. Querem contratar especialistas em IA, machine learning, cibersegurança, cloud computing, SAP e dados, mas também engenheiros, gestores de projeto, diretores de obra, profissionais de logística, key account managers e business developers.

Há uma forte necessidade de quadros "altamente qualificados", diz Lúcia Guimarães. Como realça, "a digitalização, a crescente adoção da Inteligência Artificial, o reforço da cibersegurança, a utilização de dados para apoiar a tomada de decisão e a necessidade de maior eficiência operacional estão a impulsionar a procura".

O salário proposto acompanha o nível de experiência, o grau de especialização e a localização geográfica, diz José Pestana. Segundo a Randstad, a proposta salarial para funções em vendas e business development parte dos 16.000 euros anuais e atinge os 60.000, a que acresce uma componente variável. Em tecnologias de informação, o rendimento anual oscila entre um mínimo de 22.000 euros e um máximo de 80.000. Nas funções de finanças e controlo de gestão, as empresas estão a pagar entre 20.000 e 75.000 euros. No apoio ao cliente/operacional/saúde, oscila entre 12.000 e 32.000.

José Pestana destaca a forte valorização dos perfis de obra e engenharia devido à escassez de talento. "Um perfil recém-licenciado nestas áreas inicia a carreira situando-se nos 21.000 euros anuais, podendo atingir os 35.000 com cerca de três anos de experiência. Profissionais seniores (mais de 10 anos de experiência) ultrapassam frequentemente os 60.000 euros anuais, valor a que acrescem regalias como viatura de função e ajudas de deslocação", aponta.

Gonçalo Castelbranco esclarece que "os salários são significativamente superiores em IA face aos de muitas funções tecnológicas, sobretudo quando existe experiência real em machine learning, GenAI, LLMs, data ou AI engineering". Em Portugal, para profissionais com experiência relevante, as empresas oferecem entre 30.000–40.000 euros/ano a perfis mais juniores; 40.000–60.000 euros a profissionais já com alguma experiência; e para perfis seniores/especializadas 60.000-80.000 euros.

Em conclusão, o mercado de trabalho segue a lei da oferta e da procura e assume "uma valorização seletiva das competências mais difíceis de encontrar", diz Daniela Lourenço. Como justifica, "a escassez de talento continua a pressionar as políticas remuneratórias, obrigando as organizações a adotar abordagens mais competitivas para atrair e reter profissionais qualificados".

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