Energia verde 30% mais barata e 98% de fibra: os trunfos de Portugal na corrida à IA para a McKinsey
O avanço da Inteligência Artificial (IA) nas empresas atingiu o ponto da exigência de retorno financeiro mensurável. De acordo com o novo relatório da QuantumBlack, AI by McKinsey, The State of AI in 2026: On the road to ROI, 89% das organizações globais já utilizam IA e 80% dos profissionais sentem ganhos diários de produtividade. Mas pelo segundo ano consecutivo, o impacto positivo no resultado operacional (EBIT) não vai além dos 37% das empresas, e apenas 6% integram o grupo dos high performers, onde a tecnologia gera mais de 5% dos resultados.
Rita Calvão, sócia associada da McKinsey & Company em Portugal e especialista em transformação digital e analítica, desconstrói em entrevista ao DN/Dinheiro Vivo este paradoxo e analisa o posicionamento do país. Para a responsável, a escala não é uma condenação e Portugal dispõe de pilares estruturais únicos para acelerar a competitividade, desde que acompanhados por simplificação regulatória e incentivos dirigidos às pequenas e médias empresas (PME).
O estudo da consultora evidencia uma clivagem: a implementação de IA em grande escala atinge 54% nas multinacionais com receitas acima de mil milhões de dólares (com 40% a recorrer a agentes autónomos), enquanto nas organizações de menor dimensão a adoção destes agentes estagnou nos 22%. Perante um tecido empresarial português quase totalmente dominado por PME, existirá o risco de um fosso intransponível?
Rita Calvão recusa essa leitura determinista. Embora o estudo confirme a liderança das grandes multinacionais na escala, a responsável sublinha que a dimensão não é “o principal fator diferenciador”. O que se observa no terreno, argumenta, “é que existem organizações que estão a conseguir transformar a IA em valor muito mais rapidamente do que outras, independentemente da sua dimensão, porque têm maior clareza sobre os problemas que procuram resolver e maior capacidade para transformar a forma como trabalham”.
Para a porta-voz da McKinsey, a tecnologia pode mesmo funcionar como um equalizador: “Para as empresas portuguesas, a oportunidade é particularmente relevante. A IA reduz algumas das barreiras de escala que tradicionalmente favoreciam as grandes organizações.” Além disso, o país parte com trunfos competitivos na Europa: “Portugal tem fundações sólidas para tirar partido desta oportunidade, incluindo infraestrutura digital com 98% de cobertura de fibra ótica e um custo de energia verde 30% inferior à média europeia.”
Segundo trabalhos recentes da consultora, se o país reinventar as indústrias tradicionais e acelerar a adoção de IA generativa, “pode crescer significativamente”. A responsável deixa, no entanto, um severo aviso às políticas públicas: “Para isso é necessário que o ecossistema facilite esta adoção, nomeadamente através de simplificação regulatória e incentivos que permitam às PME aceder a estas tecnologias a custos competitivos.”
O alerta ganha peso num contexto em que os custos operacionais com processamento e tokens já limitam o uso de IA em 20% das empresas globais (subindo para 25% em TI e 24% na banca), como se pode ler no estudo.
Autonomia de software sem dispensar parceiros de TI
Outro dado marcante do relatório reside na estratégia tecnológica: 32% das organizações globais deixaram de adquirir pelo menos um produto de software comercial (off-the-shelf) para o desenvolverem internamente com agentes de codificação (coding agents), ferramentas já presentes em 31% das grandes empresas.
Questionada sobre se o mercado nacional — historicamente dependente de integradores e soluções SaaS (Software as a Service) — caminha para a internalização pura, Rita Calvão afasta a ideia de uma rotura com os fornecedores externos. “A principal mudança que estamos a observar não é uma substituição do software comercial por desenvolvimento interno. O que está a acontecer, também em Portugal, é um aumento da autonomia das organizações na forma como constroem as suas soluções tecnológicas”, salienta.
O recurso a agentes autónomos permite criar ferramentas internas com maior rapidez em setores como tecnologia, saúde e energia, mas a responsável garante que “isso não elimina a necessidade de parceiros tecnológicos”. Pelo contrário, “aumenta a importância da integração, da arquitetura tecnológica, da cibersegurança e da governação”.
A dinâmica em curso, conclui, “não é um movimento que opõe diretamente criar a comprar ou ter parceiros, mas sim uma maior sofisticação na forma como as organizações constroem as suas decisões tecnológicas”, residindo o teste decisivo na sua “integração efetiva nos processos, nas equipas e na forma como o trabalho é realizado”.
58% de horas automatizáveis, mas sem vaga de despedimentos
O impacto no emprego continua a gerar apreensão: 39% das empresas preveem cortes de pessoal nos próximos 12 meses devido à IA (sobretudo em operações e logística) e 47% dos quadros médios acusam pressão e fadiga com a tecnologia. Contudo, o histórico recomenda cautela: no ano passado, 32% das empresas previam reduções, mas apenas 14% as concretizaram e 66% mantiveram as equipas inalteradas.
Rita Calvão afasta o cenário de uma crise laboral e realça que as organizações que extraem valor não se limitam a automatizar tarefas: “Distinguem-se pela capacidade de redesenhar processos e criar novas formas de trabalhar, triplicando a probabilidade de transformar profundamente o seu modelo de negócio num horizonte de três anos”.
A responsável lembra que, embora a tecnologia atual possa “automatizar até 58% das horas de trabalho em várias economias europeias, isso não implica uma perda generalizada de empregos”. Cerca de 75% das competências procuradas pelos empregadores são partilhadas por atividades automatizáveis e não automatizáveis, “o que sugere que serão aplicadas em conjunto com sistemas de IA, não substituídas por estes”. Em Portugal, o setor bancário já reflete esta mudança de funções, com “60% dos utilizadores portugueses a recorrer já a IA generativa para tarefas financeiras”.
Rita Calvão resume: as organizações com sucesso sustentado “são as que combinam alinhamento estratégico, suporte executivo e pragmático, obsessão por impacto mensurável, rigor no controlo dos riscos desde início, capacidade de experimentar e aprender e investimento nas capacidades das pessoas que são responsáveis pela mudança no dia-a-dia.” O verdadeiro diferenciador não é, assim, a tecnologia em si, mas a capacidade das organizações de a integrar de forma disciplinada e orientada para impacto mensurável.


