

O Fundo Monetário Internacional (FMI) apelou esta quarta-feira, 25, à China para tornar a transição para um modelo de crescimento assente no consumo uma “prioridade central”, instando também Pequim a reduzir uma “política industrial injustificada”, face a crescentes desequilíbrios externos.
As recomendações da equipa técnica do FMI, divulgadas antes das reuniões anuais da Assembleia Nacional Popular (órgão máximo legislativo da China), reforçam os apelos a um reequilíbrio económico, sobretudo depois de o excedente comercial recorde registado pela China no ano passado ter intensificado preocupações globais.
“A China precisa de avançar de forma decisiva para um crescimento liderado pelo consumo”, afirmou Sonali Jain-Chandra, chefe da missão do FMI para a China, citada pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post.
A responsável acrescentou que o FMI acolhe positivamente a ênfase dada ao consumo nas propostas do 15.º Plano Quinquenal e no comunicado da Conferência Central de Trabalho Económico de dezembro, que definiu as prioridades para o ano.
No relatório anual sobre a economia chinesa – a chamada consulta ao abrigo do Artigo IV – o FMI defende um estímulo orçamental mais robusto para impulsionar o consumo e aliviar as fragilidades do setor imobiliário, a par de maior proteção social, novo alívio monetário e maior flexibilidade cambial.
“O modelo de crescimento liderado pelo consumo deve ser a prioridade central”, sublinhou o conselho executivo do FMI, acrescentando que deve ser mantida uma orientação expansionista até que as pressões deflacionistas diminuam de forma duradoura.
O relatório considera que as medidas adotadas até agora “permanecem insuficientes face à dimensão dos desafios” e recomenda uma expansão orçamental adicional equivalente a 0,8% do PIB em 2026, face ao cenário de base.
O FMI projeta que o crescimento económico chinês abrande para 4,5% em 2026, após uma expansão de 5% no ano passado.
As declarações surgem antes das chamadas “duas sessões”, as reuniões anuais dos órgãos legislativo e consultivo da China, nas quais são esperados anúncios sobre as metas de crescimento e inflação, o défice orçamental e as quotas de emissão de dívida pública.
No mesmo comunicado, os diretores executivos do FMI salientaram a necessidade de “reduzir a política industrial injustificada para diminuir a má alocação de recursos internos, reduzir custos orçamentais e mitigar efeitos externos”.
O Fundo saudou a campanha chinesa contra a chamada “involução” – excesso de concorrência entre setores – mas apelou a incentivos mais fortes para conter o excesso de investimento por parte dos governos locais.
Jain-Chandra reconheceu que a política industrial ganhou novo fôlego a nível global, mas afirmou que, segundo as estimativas do FMI, o recurso a estas medidas é “mais intenso na China do que noutras grandes economias”, representando cerca de 4% do PIB.
“Não estamos a dizer para eliminar o apoio à política industrial, mas sim para o reduzir para metade”, afirmou, defendendo que se mantenham apenas medidas bem direcionadas que corrijam falhas de mercado.
Num comunicado separado, Zhang Zhengxin, diretor executivo do FMI para a China, contestou as estimativas da equipa técnica, considerando-as “significativamente sobreavaliadas”.
Zhang afirmou que as políticas industriais chinesas se concentram sobretudo na promoção da inovação, na transição verde e no apoio às pequenas e médias empresas, contribuindo positivamente para a transformação ambiental e gerando efeitos favoráveis a nível global.
Acrescentou ainda que a política industrial é prática comum em vários países, tanto no passado como atualmente, e “não é de modo algum exclusiva da China”, apelando a debates “objetivos e equilibrados” que evitem duplos critérios e definições excessivamente amplas.