Francesca Bria: "Os oligarcas da tecnologia estão a controlar os media"

Listada na Forbes como uma das 50 mulheres mais influentes na área de tecnologia, a conselheira da ONU e da UE consiedra que vivemos uma oligarquia tecnológica.
Francesca Bria: "Os oligarcas da tecnologia estão a controlar os media"
Site de Francesca Bria
Publicado a

A economista da inovação Francesca Bria alerta para o facto de os oligarcas da tecnologia estarem a controlar os media e refere que é uma profissão que está a ser alvo de ataque.

A professora da UCL, conselheira da ONU e da UE, listada na Forbes como uma das 50 mulheres mais influentes na área de tecnologia começa por dizer, em entrevista à Lusa, que em primeiro lugar é preciso não ter medo.

"Se tivermos medo, a extrema-direita ganha porque ganham sempre assustando as pessoas", diz a economista, que foi uma das oradoras este ano do congresso da APDC (Digital Business Congress), em Lisboa.

Portanto, "acho que a comunicação social é a primeira vítima deste sistema, há uma elevada concentração de poder nos media, os oligarcas da tecnologia estão a controlar os media agora", aponta.

Isso acontece não só nos media digitais, diz. Nos EUA, Ellison, "agora controla a Paramount e o TikTok e todos os media, na verdade", refere.

David Ellison é presidente executivo (CEO) da Skydance Media e Paramount e faz parte do grupo de bilionários investidores liderados pelo seu pai, Larry Ellison, que controlam as operações do TikTok nos EUA.

"Acho que há um ataque aos media democráticos, há também um ataque aos jornalistas e à sua capacidade de produzir conteúdo verificado com fontes para fazer um trabalho jornalístico de investigação real que possa desafiar o poder", considera a economista.

No fundo, diz, "há um ataque à ideia de jornalismo numa sociedade democrática".

Criar alternativas "também significa criar um espaço para que a comunicação social democrática continue a existir", prossegue, sublinhando que "não há democracia sem a independência dos media".

Por exemplo, "se observar o impacto da IA [inteligência artificial] no trabalho intelectual, verá que já existem notícias falsas, 'deepfakes, conteúdos criados pela IA sem pagar aos jornalistas".

"Quem vai pagar aos jornalistas? Esta é uma profissão que está em risco", admite.

"Precisamos de defender o nosso pensamento crítico. Sim, a nossa capacidade de pensar criticamente, mas também de realizar este trabalho tão importante", acrescenta Francesca Bria.

A importância do jornalista "não é apenas criar conteúdo, mas sim ir para o terreno, falar com as pessoas, ter fontes, saber identificar informação relevante e desafiar o poder", reforça.

"Este é o quarto poder", remata, recordando o icónico filme de Orson Welles "Citizen Kane", que retrata isso mesmo.

Francesca Bria é uma economista da inovação e lidera a Iniciativa EuroStack sobre a Soberania Digital da Europa (www.euro-stack.info).

Armas IA sem controlo

A economista defende ainda a necessidade de haver uma conversa de alto nível, com cientistas e instituições, sobre armas de IA sem controlo e alerta para o poder dos oligarcas tecnológicos.

Instada a comentar o caso que envolveu a norte-americana de inteligência artificial (IA) Anthropic e o Pentágono sobre o uso irrestrito de armas de IA, Francesca Bria começa por dizer que este é um "tópico muito, muito importante".

Aliás, quando a bomba atómica foi desenvolvida "houve muita diplomacia científica, muita discussão sobre como ela deveria ser desenvolvida e controlada. Criámos muitas instituições e, no momento, estamos a ver a implantação de guerra automatizada e armas de IA sem qualquer controlo", salienta.

"Lembro-me de que o Papa Francisco, antes de falecer, foi ao G7 e fez um discurso sobre inteligência artificial, focando-se particularmente em armas de IA e dizendo que deveríamos bani-las se não as controlássemos", recorda Francesca Bria.

A economista aponta que "é muito importante analisar" o debate entre a Anthropic e o Pentágono, no sentido de que a tecnológica disse que não quer que essa tecnologia seja usada para vigilância em massa e para matar pessoas, até porque nem se sabe como estão a ser identificados os alvos e quem estão a matar, "porque isso é feito de forma automatizada com a tecnologia".

"Estamos a ver esta tecnologia a ser usada no genocídio na Palestina e também na guerra contra o Irão sem qualquer prestação de contas [accountability], sem qualquer controlo", o que é "assustador", sublinha.

Portanto, "devemos, absolutamente, ter uma conversa de alto nível sobre como isso é controlado e como é implementado, com a participação de cientistas, mas também de instituições internacionais como a ONU e a Convenção de Genebra e tudo mais".

Quanto à questão se a Europa deveria ter um debate sobre o uso ético da IA, Francesca Bria diz que a conversa deve ser outra.

"Penso que a Europa deveria desenvolver tecnologia ética", ou seja, "precisamos de desenvolver tecnologias que estejam alinhadas com os nossos padrões éticos, democráticos e a ordem internacional".

Porque "se não fizermos isso, ficaremos dependentes de outros que desenvolverão essa tecnologia de uma maneira diferente", argumenta.

A Europa tem "uma hipótese agora porque estamos a desenvolver o nosso sistema de defesa e a investir muito dinheiro na criação de novas tecnologias", afirma.

Quanto aos dados, a conselheira da UE sublinha que estes são "um bem comum, um bem público" e devem ser percecionados tal como a água, eletricidade ou ar que se respira.

A Europa, diz, tem o privilégio de ter regulação como o RGP ou Lei da Proteção de Dados que protegem a privacidade e autodeterminação.

Portanto, "não se trata apenas de o governo controlar os dados, mas também de fornecer sistemas que permitam aos cidadãos decidir quais dados que desejam manter privados e, para manter esses dados privados, quais os dados que desejam partilhar, com quem e para que finalidade", refere.

"Este é o caminho europeu. O caminho europeu não é entregar todos os nossos dados a Elon Musk [dono da Tesla, X, SpaceX, entre outros] e Jeff Bezos [fundador da Amazon] para que os bilionários e os oligarcas da tecnologia decidam o que acontece na democracia europeia", avisa.

"Isto não é uma democracia, isto é uma oligarquia tecnológica. E, portanto, a questão de quem controla a infraestrutura digital e os dados é uma questão fundamental da nossa vida política", insiste a economista.

"Temos visto os oligarcas tecnológicos muito presentes na eleição de Trump, no segundo mandato de Trump. Eles controlam sistemas críticos de missão neste momento, têm poder político real e não apenas nos EUA, estão a interferir na democracia europeia", sublinha.

Aliás, "vimos como Elon Musk tem usado a X durante a democracia europeia, como eles estão a apoiar partidos de extrema-direita, inclusive com Orbán na Hungria, e ele perdeu", aponta, referindo que "o povo europeu não gosta de ditaduras".

Diário de Notícias
www.dn.pt