Fórum BCE. Imigrantes são melhores que os nacionais a puxar pelo investimento e pela produtividade

Economista italiano diz no Fórum de Sintra que "os imigrantes apresentam taxas muito mais elevadas de empreendedorismo, criação de empresas e investimento". Os nacionais, nem por isso.
Giovanni Peri, professor de Economia da Universidade da Califórnia, Davis. Sintra, 1 de julho de 2026.
Giovanni Peri, professor de Economia da Universidade da Califórnia, Davis. Sintra, 1 de julho de 2026.Sérgio Garcia/Your Image for ECB / Banco Central Europeu 2026
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Os imigrantes ajudam mais os países europeus e desenvolvidos (OCDE) que os recebem em termos de ganhos de produtividade e de dinâmica de investimento do que os nacionais e ou nativos dessas economias, assumindo que só se podia contar com estes últimos para trabalhar, isto é, se os países de destino tivessem as fronteiras fechadas, impedindo entradas de estrangeiros, conclui Giovanni Peri, professor de Economia da Universidade da Califórnia, Davis, Fórum BCE (Banco Central Europeu).

A investigação sobre as implicações das migrações no crescimento das economias da Europa, que submeteu à conferência internacional anual do BCE e que assina em co-autoria com Gaetano Basso, da Banca d'Italia (banco central italiano), e Mitali Mathur, seu colega na Universidade da Califórnia, suscitou um debate animado na sala, como não podia deixar de ser, até pelo tema que aborda. Giovanni Peri concluiu várias coisas.

A principal é que "em economias avançadas envelhecidas", como as europeias, "a evidência sugere que a imigração não só ajuda a compensar o declínio demográfico, como também apoia o investimento e o crescimento da produtividade no longo prazo, e mais do que o crescimento da população nativa por si só conseguiria".

O estudo conclui que nas últimas décadas, desde os anos 90 do século passado até 2024, "a imigração líquida leva ao maior crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) por trabalhador ao longo de dez anos".

O canal de transmissão mais forte desta imigração à economia foi "o aprofundamento do capital", isto é, o impulso que a disponibilidade de mão-de-obra imigrante dá aos novos investimentos que foram sendo feitos.

Além disso, e não menos importante, Peri destaca que "a imigração qualificada gera os efeitos mais fortes ao nível do capital humano, da produtividade total dos fatores e da produtividade do trabalho", ao passo que "a imigração pouco qualificada tem efeitos neutros na produtividade", ou seja, não é por serem menos qualificados que os estrangeiros prejudicam a economia.

Olhando para o panorama mais geral dos países europeus, o professor defende que considerando "as políticas de imigração externa mais abertas", "os grandes choques migratórios" das últimas décadas" e "as vagas sustentadas de imigração", "todas as análises apontam na mesma direção pró‑crescimento".

Estrangeiros são mais ativos e empreendedores, maioria dos nativos nem por isso

Já as alterações demográficas dos nativos "não revelaram qualquer associação positiva com a produtividade", pelo contrário.

Segundo o economista, "a imigração líquida pode ter contribuído para o crescimento acumulado da produtividade do trabalho, no período 1990–2024 em 28% em Espanha, 19% no Reino Unido, 14,5% em Itália". É significativo, para mais tendo em conta que "estes valores representam cerca de um terço ou mais do crescimento da produtividade do trabalho no período".

Na apresentação que fez, Peri indicou que "a imigração qualificada, por se concentrar nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, gera mais patentes, mais inovação e pode ter efeitos muito fortes de difusão da produtividade na economia".

E explicou a razão pela qual os imigrantes se saem melhor no trabalho, são mais produtivos, mais ativos, mais empreendedores.

"Porque é que os efeitos mais fortes surgem ao fim de dez anos? Porque a integração dos imigrantes, mesmo os mais qualificados, demora algum tempo. Só após essa integração plena é que produzem todo o seu efeito. Além disso, os trabalhadores nativos, em resposta à presença de imigrantes, ajustam a sua especialização de forma eficiente — e isso também leva tempo."

O economista sustenta ainda que "os imigrantes apresentam taxas muito mais elevadas de empreendedorismo, criação de empresas e investimento", o que "pode ajudar a explicar o efeito positivo observado no capital por trabalhador".

"Ao analisarmos alunos de mestrado estrangeiros e estudantes universitários estrangeiros em todo o mundo verificamos que desempenham um papel muito relevante como inovadores nas empresas", acrescentou o perito italiano.

Também diz que "o facto de encontrarmos um efeito reduzido ou nulo da imigração pouco qualificada na produtividade do trabalho é, de certa forma, consistente".

Peri completa, dizendo que "estes resultados são compatíveis com a ideia de que a imigração pouco qualificada não prejudica a produtividade do trabalho", ao contrário do que dizem muitos políticos e responsáveis com ideias hostis aos imigrantes ou à imigração.

A principal conclusão "é que os imigrantes não se limitam a substituir trabalhadores nativos, contribuindo apenas para o crescimento da população e da população ativa".

"O seu impacto pode ser muito mais amplo, através do investimento, do empreendedorismo e, no caso dos mais qualificados, do reforço da inovação — contribuindo assim não apenas para o crescimento do PIB, mas também para ganhos mais profundos na economia", remata Giovanni Peri.

O Fórum BCE, onde decorreu esta e outras apresentações, é o grande evento anual de debate sobre política económica e monetária que decorre em Sintra, Portugal. Esta é a 13ª edição do Fórum e decorre entre 29 de junho e 1 de julho de 2026.

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