Imobiliárias têm semestre recorde, apesar da falta "estrutural" de casas

Não há sinal de travagem na procura de habitação, nem nos preços dos imóveis. Os portugueses começam inclusive a ajustar em alta o orçamento para a compra de casa. Mas há indícios de quebra na oferta.
O mercado residencial apresentou uma redução de cerca de 9% no número de transações na primeira metade de 2026, diz a KW.
O mercado residencial apresentou uma redução de cerca de 9% no número de transações na primeira metade de 2026, diz a KW.Foto: Gerardo Santos
Publicado a

Os dados oficiais do comportamento do mercado imobiliário no primeiro semestre deste ano só serão conhecidos a 22 de setembro, mas as agências imobiliárias já anteciparam que a primeira metade de 2026 foi marcada por crescimentos históricos do negócio. Esses bons resultados foram obtidos num contexto de acentuada escassez de oferta, apontam as marcas ouvidas pelo DN/DV. E admitem que a falta de casas irá continuar a sentir-se nos próximos anos.

"A procura manteve-se robusta, sobretudo se comparada com a oferta", que "continua insuficiente para responder às necessidades do mercado, sobretudo nos segmentos de maior procura e nas principais áreas metropolitanas", diz Beatriz Rubio, CEO da Re/Max. Mesmo com dificuldades de produto, Junho "coroou um conjunto de recordes absolutos" na agência: "melhor junho de sempre da marca, melhor segundo trimestre de sempre e melhor primeiro semestre de sempre", sublinha a responsável.

A Keller Williams (KW) também registou um semestre histórico em faturação. A marca contabilizou 43 milhões de euros de faturação nos primeiros seis meses deste ano, o que representa um crescimento homólogo de 13,3%. Segundo avança, o mercado residencial apresentou uma redução de cerca de 9% no número de transações na primeira metade de 2026, sendo que a KW mediou cerca de 7300 operações. Foi "um ligeiro aumento", mas "trata-se de um desempenho superior ao do mercado", frisa.

Os dados do portal de anúncios Imovirtual "não indicam qualquer retração da procura" no primeiro semestre, antes "pelo contrário", sublinha Sylvia Bozzo, marketing manager da plataforma. "Comparando com o mesmo período do ano anterior, as visualizações de páginas de imóveis para venda aumentaram 30,7%", diz. Logo em janeiro observou-se um crescimento de 68,6% nas visualizações de imóveis para venda face ao mesmo mês de 2025, afirma. A responsável dá ainda nota que se verificou uma redução de cerca de 6% no número de anúncios de venda, o que reforça "a percepção de escassez de oferta que continua a caracterizar este mercado".

Rui Torgal, CEO da Era, recorda que a marca fechou 6300 transações no primeiro semestre, praticamente o mesmo número que em igual período do ano passado. É um dado "que já diz muito num contexto em que a oferta disponível para transacionar não cresce ao ritmo que gostaríamos", aponta. Como afirma, "num mercado em que a escassez estrutural continua a ser a regra", a Era apresentou "crescimento em todas as métricas que importam": "faturámos 63,2 milhões de euros, mais 6% do que no primeiro semestre de 2025, com um volume de negócios de 1,24 mil milhões de euros, mais 5,8%".

A falta de casas e a forte procura irá manter-se, com consequências no bolso dos portugueses. Como explica Beatriz Rubio, este desequilíbrio continua a exercer pressão sobre os preços, embora se tenha verificado uma tendência de estabilização do ritmo de crescimento. No caso da Re/Max, o valor médio por transação cresceu mais de 9%, face ao primeiro semestre de 2025. Na Era, o preço médio de venda subiu 4,2% e ultrapassou, pela primeira vez, os 234 mil euros.

No Imovirtual, o preço médio procurado aumentou 9% face ao primeiro semestre de 2025, passando para 262.131 euros, revela Sylvia Bozzo. Na sua opinião, este crescimento "mostra que os compradores ajustaram o seu orçamento máximo e estão dispostos a alargar o intervalo de preços considerado durante a pesquisa, procurando adaptar-se à evolução do mercado". Mas esse valor "continua bastante abaixo do preço médio anunciado", que se situava nos 431.333 euros no primeiro semestre, face aos 404.150 euros do homólogo de 2025, o que representa um aumento de 7%, sublinha. Sylvia Bozzo conclui: "a disponibilidade para aumentar o orçamento existe, continua é longe de acompanhar a evolução dos preços anunciados".

"O desfasamento entre a oferta e a procura é algo estrutural e como tal não se resolve no espaço de alguns meses", diz Beatriz Rubio, instada a comentar as políticas lançadas pelo Governo para mitigar a crise da habitação. "O aumento da construção nova depende de processos administrativos, licenciamentos, disponibilidade de mão de obra e capacidade produtiva do setor, fatores que exigem tempo para produzir resultados concretos", defende. Já o CEO da Era considera que as medidas que estão a mexer com o mercado "são as que retiram o Estado do caminho", como é exemplo o Simplex Urbanístico. Para Rui Torgal, o efeito "só se vai sentir de forma visível a partir de 2027, 2028, e só se o ritmo de simplificação se mantiver, porque a tentação de voltar a intervir no preço, em vez de na oferta, nunca desaparece de todo em Portugal".

O mercado residencial apresentou uma redução de cerca de 9% no número de transações na primeira metade de 2026, diz a KW.
Fundação Âncora quer construir mil casas para arrendar em cinco anos
O mercado residencial apresentou uma redução de cerca de 9% no número de transações na primeira metade de 2026, diz a KW.
Habitação. Tardam efeitos das medidas do Governo: preço das casas disparou
Diário de Notícias
www.dn.pt