Incentea: O “dinossauro” tecnológico de Leiria que se reinventou com IA para duplicar dimensão

Carlos Vaz explica como a multinacional nascida no centro do país pretende atingir os 50 milhões de euros de volume de negócios, combatendo o “caos” organizacional.
Carlos Vaz, diretor de Marketing e especialista em IA da Incentea, explica como as empresas precisam organizar os seus dados para retirar deles valor.
Carlos Vaz, diretor de Marketing e especialista em IA da Incentea, explica como as empresas precisam organizar os seus dados para retirar deles valor.DR
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A Incentea fechou o ano de 2025 com uma receita consolidada de 24 milhões de euros e um crescimento de 5,4%. Para Carlos Vaz, diretor de Marketing e especialista em IA da empresa de consultoria digital sediada em Leiria, este resultado é fruto de uma decisão estratégica clara: “Concentrarmo-nos naquilo que é o nosso core - alienámos empresas que não eram o nosso core e isso permitiu-nos estar mais focados.” Este foco é o combustível para a meta assumida de duplicar o negócio até 2027, transformando este “dinossauro” tecnológico, como o próprio diretor o define, pois caminha para os 40 anos de existência, num líder da Inteligência Artificial aplicada à gestão.

Esta ambição de crescimento é sustentada por uma mudança de patamar na própria organização. Carlos Vaz destaca que o grupo já não joga na liga das pequenas empresas, tendo ganhado uma robustez que lhe permite enfrentar desafios de maior escala. “A Incentea passou de uma PME para uma small mid-cap”, diz o executivo, sublinhando que este salto de dimensão é essencial para acompanhar a aceleração tecnológica imposta pela cloud e pela Inteligência Artificial, as novas ferramentas da empresa que ajuda outras organizações a adaptarem-se ao desafio da transformação digital.

Presente em Portugal e Espanha, mas também França, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde, a Incentea é hoje uma verdadeira multinacional. Conseguiu-o através de uma estratégia de M&A (fusões e aquisições) bem planeada que serviu, também, para “incorporar o conhecimento” de décadas e depois “desenvolver as ferramentas adaptadas às novas necessidades”, diz Carlos Vaz.

A expansão ibérica é outra peça fundamental do puzzle. Com a integração da Dragomar, a Incentea pisou o acelerador no mercado espanhol, focando-se em nichos como a indústria do mar. “Sendo Espanha e Portugal países com uma unidade costeira imensa... há uma aposta forte na indústria do mar”, explica Vaz.

Do “petróleo do Futuro” aos agentes inteligentes

Atualmente, a Incentea está a desenvolver agentes de IA personalizados para cada cliente que atuam sobre o que Vaz denomina como o “petróleo do futuro” - os dados. Mas deixa um aviso às organizações: “As empresas têm de ver, antes de tudo, se têm informação devidamente catalogada. E esse é um trabalho de base.” Até porque, lembra, a tecnologia não é uma varinha mágica que resolve problemas de gestão estruturais. “Processos mal definidos só aceleram o caos”.

Nas empresas em que a Incentea presta consultoria, a estratégia passa por garantir que as empresas ganham maturidade na boa aplicação de algoritmos, para garantir que, no fim, “o verdadeiro impacto da Inteligência Artificial é na tomada da decisão”.

Um dos casos de sucesso que conta envolve a automação de mil e-mails diários numa empresa de certificação, algo que era, até então, feito por uma pessoa. “Um agente que nós criámos deteta automaticamente a intenção no e-mail... identifica e entrega ao CRM [Customer Relationship Manager - Gestor de Relacionamento com o Cliente] o pedido para a pessoa responsável.” Vaz destaca que esta “democratização” da tecnologia permite que as PME tenham agora acesso a “ferramentas que eram exclusivas às grandes empresas”.

O especialista destaca que, quando a decisão humana é “aumentada” pela tecnologia, a qualidade da mesma “aumenta em pelo menos 12%”. E, para as empresas, a vantagem competitiva reside na rapidez: “permite tomar melhores decisões, porque são baseadas no contexto, com mais informação”.

Financiamento e o “medo de vender”

No que toca ao financiamento desta revolução tecnológica, a Incentea marca presença nas agendas mobilizadoras do PRR, trabalhando em clusters. Mas Vaz deixa uma crítica construtiva ao ecossistema de inovação nacional: “temos de tirar o receio de usar a palavra ‘vender’. Nós temos de vender aquilo que criamos... temos de criar impacto nas soluções que criamos, fazer o retorno do investimento”.

Na própria Incentea, o objetivo é que “dois terços do valor” para atingir os 50 milhões de euros estejam assentes nestes serviços de inteligência. Mas apesar de a IA permitir recuperar “até 90 dias por ano” em tarefas financeiras e de gestão, Carlos Vaz assegura que o fator humano permanece intocável. “O clique final é humano”, conclui, reforçando que a missão da sua empresa continua a ser usar a tecnologia para libertar as pessoas para áreas de maior valor acrescentado, honrando o lema Technology for People.

A sede da empresa em Leiria foi fustigada pelo "comboio de tempestades" mas a operação quase não foi interrompida, o que demonstrou a resiliência do modelo descentralizado com base na nuvem.
A sede da empresa em Leiria foi fustigada pelo "comboio de tempestades" mas a operação quase não foi interrompida, o que demonstrou a resiliência do modelo descentralizado com base na nuvem.DR

Prova de fogo em Leiria: quando a nuvem vence a tempestade

A região de Leiria é, para Carlos Vaz, um exemplo de resiliência. “Estivemos no centro do furacão”, recorda, descrevendo danos físicos graves e semanas sem comunicações estáveis. Mas a aposta na descentralização e na cloud provou o seu valor.

A empresa tinha inaugurado instalações novas há apenas quatro meses quando o temporal atingiu a cidade: “ficou o espaço inutilizado”, devido a danos físicos graves, nomeadamente a quebra generalizada de vidros e falhas estruturais, obrigando a equipa a um regresso aos escritórios cheio de condicionalismos que ainda hoje persistem. “Um mês e uma semana depois ainda não tínhamos comunicações”, revela Vaz, sublinhando que a operação enfrentou ainda dias sucessivos de instabilidade energética. Perante este cenário de destruição física, a solução veio do modelo de negócio: a aposta numa infraestrutura descentralizada. “Isto permitiu que a operação continuasse.” Os sistemas permaneciam intactos, na nuvem, pelo que os consultores puderam continuar a apoiar empresas em todos os países e regiões onde o grupo opera.

“As nossas pessoas foram extraordinárias”, elogia Carlos Vaz. Para a Incentea, este episódio foi também a demonstração de como a continuidade do negócio é, hoje, também uma questão de estratégia tecnológica e não apenas de infraestrutura física.

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