“Indústria portuguesa vai ter de agarrar todo o biometano que puder. Não vai haver para todos”
Qual é a atividade da REGA? Onde é que está o valor do vosso negócio?
A missão da REGA é acelerar o advento de uma indústria sustentável. O nosso foco é ajudar os nossos clientes, a indústria portuguesa a produzir os produtos mais sustentáveis da Europa e do Mundo e converter esta mudança em lucro. É este o nosso objetivo. Como podemos fazer isso? A primeira parte, a mais importante, é a de (ajudar) os produtos dos nossos clientes, o vidro e a cerâmica portuguesa, a ficarem valorizados, a ficar premium, e ter a capacidade de ganhar quota de mercado na Europa com produtos sustentáveis. Este é o ponto de princípio. A REGA é, até hoje, a única empresa que está dedicada e focada na indústria pesada portuguesa. Não conheço outras empresas de energia renovável que estão só é exclusivamente a tentar ajudar as indústrias pesadas, como vidro, a cerâmica, a tornar-se mais sustentáveis.
Porque aí o problema é o gás, certo?
Nestas indústrias não se pode electrificar totalmente. É preciso gás.
Pela necessidade de concentrar e libertar calor imediato em determinados momentos?
Não só. Há muitas razões pelas quais as indústrias não podem eletrificar tudo. A concentração de energia de que fala, talvez. A maturidade da tecnologia, o espaço disponível, a qualidade dos produtos.
O custo do investimento para eletrificar?
Às vezes sim e às vezes não. Mas a duração dos ativos, a flexibilidade da produção e a capacidade de mudar do ciclo de produção, de mudar de produtos, no fundo há muitas razões pelas quais, neste mundo da indústria pesada, não é possível eletrificar tudo.
Mas voltando à questão do valor de negócio...
O que é importante na visão de negócio, e para responder à sua questão, é que a solução para desenvolver um negócio lucrativo é começar pela procura e não pela produção. Hoje em dia, com a energia fóssil, estamos a escolher vários tipos de uso para consumir, estamos a pensar da produção até ao consumo. No mundo de energia renovável e no mundo da indústria, é preciso começar pela própria indústria e eles, cada um deles, tem a sua especificidade e uma grande experiência e vai escolher o método de energia para a sua transição energética. Há empresas que podem eletrificar e quando isso é possível devem mesmo eletrificar. Especialmente cá em Portugal, porque temos electricidade com grande qualidade de energia renovável. Mas as empresas que não podem eletrificar tudo vão precisar de gás renovável.
É aí que vocês entram. Sem contar com o efeito ambiental, é possível esta transição fazer sentido economicamente para as empresas?
Tem de fazer.
Então qual é o racional económico?
O racional? Acho que podemos ter dois ângulos para ver este problema. O primeiro ângulo é a realidade hoje em dia: a indústria europeia está em stress total. Está a fechar fábricas em todo o lado e, na Europa, a indústria tem um desafio de sobrevivência. Acho que isto é muito claro. A concorrência vinda de fora da Europa é muito grande e, especialmente no norte da Europa, temos uma redução massiva de indústria. Na Alemanha, em França, a indústria está a fechar e a mudar para fora da Europa.
Nomeadamente para a China.
Para a China, Turquia, Marrocos. Isto é uma realidade, dia a dia, e por isso a alternativa é mudar de modelo de negócio, mudar do tipo de produto, mudar provavelmente de quota de mercado para desenvolver um produto que é mais adaptado aos consumidores europeus. E também não concorrer com os produtos que vêm de fora da Europa. Esta é a parte mais defensiva, que é muito importante. Mais do que falar de lucro, é preciso falar de sobrevivência.
E o segundo?
O segundo ângulo é confirmar que uma parte do mercado hoje na Europa está a valorizar produtos que são: 1) Sustentáveis e 2) Made in Europe. O estudo da Nova Made in Portugal, Made Sustainable vai demonstrar, com muita profundidade, que não é só um wishful thinking. A profundidade. Há estudos que valorizam muito bem os produtos, uma vez que há uma certificação real, não é greenwashing, há uma confiança total em como os produtos são sustentáveis.
Quanto ao lucro: Em Portugal não há muito a fazer para produzir produtos mais sustentáveis. Porquê? Porque a electricidade já é renovável. Já é. Estamos a chegar até a uma percentagem de eletricidade renovável na eletricidade muito alta, muito mais do que o resto da Europa. E depois temos este potencial de biometano, um gás renovável para fechar a solução com as fábricas existentes. As fábricas, as pessoas, a cadeia de valor, tudo está cá para produzir em Portugal produtos sustentáveis, de baixo carbono, para vender e para apanhar a quota de mercado que está disposta a pagar por estes produtos.
E é possível produzir em Portugal a quantidade de biometano para abastecer as principais indústrias, a vidreira e a cerâmica?
Hoje em Portugal não há ou quase não há biometano. Em França, na Dinamarca e na Alemanha, o biometano está muito desenvolvido. Em Portugal, está a começar agora. O consumo da indústria portuguesa e a parte que não pode ser electrificada é mais ou menos de 35 TeraWatts / Hora. A produção potencial de biometano, se conseguirmos produzir todo o potencial de biometano de Portugal, vai atingir seis Terawatts / Hora. Talvez um pouco mais, até 2040. E isso leva-nos a duas conclusões. A primeira é a de que as empresas que querem vender os produtos mais sustentáveis do seu mercado, para gerar mais lucros, têm de eletrificar tudo o que é possível. E para a parte que não podem eletrificar, têm de segurar todo o biometano que conseguirem. Porque não vai haver biometano para todos.
Qual é a fonte do biometano que pensam produzir em Portugal?
Resíduos. O estrume e o chorume. Mas voltando, temos aqui uma dupla oportunidade: a primeira é Made in Portugal, Made Sustainable, que é só um movimento para organizar todas as indústrias que estão hoje a apostar na transição sustentável dos seus produtos para gerar mais lucro. Vai gerar a procura para a energia limpa, para a eletrificação em massa e também para o biometano. E o biometano não é só um desafio que vai ajudar as industrias a descarbonizar. Também é uma solução muito, muito relevante para os agricultores, para a gestão dos seus resíduos. Uma das limitações ao desenvolvimento de mais industrias agrícolas, à produção agrícola, é precisamente a gestão dos resíduos. Se tivermos uma opção para gerir e valorizar mais os resíduos dos agricultores, estes têm oportunidade de se desenvolverem mais.
É portanto um triângulo entre os consumidores, a indústria e os agricultores. Não é um processo mais difícil por ser um triângulo?
Não é triangular, é circular, porque depois o processo do biometano gera um fertilizante que é devolvido aos agricultores. Portanto, há toda uma circularidade. A parte difícil é a parte do consumidor. O estudo da Nova de que falei conclui que há mercado. Se houver um mercado que está a valorizar produtos Made in Portugal, Made Sustainable, com um willingness to Pay, uma disposição para pagar, um novo tipo de produto, um novo tipo de consumidor, um novo tipo de preço. Vai trazer tudo à cadeia de valor de maneira muito natural. É verdade que um pouco difícil para nós alinhar estes três pontos - consumidor, indústria e agricultores -, mas se conseguirmos, fazemos uma mudança total do modelo de negócio, do modelo de desenvolvimento industrial e agrícola de Portugal, onde vai ser mais fácil aqui fazer este alinhamento do que noutros países.
Em que projetos é que vocês já estão a trabalhar?
O nosso modelo de negócio começa com a indústria, que assina acordos a longo prazo de compra de energia. Já estamos a falar com toda a indústria portuguesa, provavelmente toda, e assinámos já quatro contratos de longo prazo. Um é com uma vidreira, a Crisal, na Marinha Grande. E três são do setor da cerâmica: a Revigrés, a Certeca e a Primus Vitória.
Para cada um é um pouco diferente, mas confirma esta vontade - mais que defensiva, de sobrevivência - e, sim, de apanhar o mercado e responder à procura. Para a parte dos consumidores temos este estudo Made in Portugal, Made Sustainable, que vai sair na próxima semana, que está a mostrar que há valor aqui. Na parte agrícola, a REGA já assinamos vários contratos a longo prazo, a dez, 15, 20 ou 25 anos, para coletar o estrume e o chorume dos agricultores para tornar este resíduos em energia e depois produzir fertilizante renovável.
E em termos de capital, têm todo o que precisam neste momento?
Já fechámos três rondas de financiamento desde o início da REGA, as duas últimas com SWEN Capital Partners, um investidor francês de referência no mundo do biometano e que tem na sua carteira de investimento 200 unidades do biometano em exploração ou em construção em toda a Europa. Por isso, temos a experiência certa, que em Portugal não existe, para desenvolver os projectos de maneira certa, com uma boa gestão que já existe há dez, 15 anos em alguns países. Em Portugal será preciso produzir todo o biometano que for possível, porque há procura e não vai haver biometano para toda a procura.
Foi isso que essas quatroempresas já perceberam?
Acho que sim. A nossa missão é tornar a indústria em Portugal mais sustentável e, por isso, temos de ajudar as empresa a perceber que o biometano é raro e que segurar hoje, a longo prazo, é um hedge sobre o mercado. Por que daqui a uns anos vai haver falta de oferta.
A Crisal vai eletrificar tudo o que for possível e que, para segurar já o resto que não pode ser eletrificado, vai consumir hidrogénio verde e oxigénio verde. Já investiram num novo forno que hoje já está a funcionar e pronto a aceitar o nosso hidrogénio e oxigénio verde. E já temos o licenciamento. Estes dois projetos são complementares e permitem-nos apresentar a toda a indústria portuguesa o que é necessário para que esta apanhe o mercado dos produtos sustentáveis em Portugal.
O Thomas está em Portugal há cinco anos. Qual foi o principal obstáculo que encontrou ao investir em Portugal?
Eu sou um otimista. Desde o início que vi - primeiro foi uma intuição e depois vi, factualmente - que Portugal tem tudo para liderar. Apostei a minha vida ao vir para cá. Tenho três filhos alfacinhas, portugueses, e estamos em Portugal para ficar. Estamos a tornar-nos portugueses, eu e a minha esposa. Dito isto, é muito natural e estrutural este facto de Portugal ter energia renovável abundante. É um facto. Mas Portugal também tem campeões da indústria, especialmente no vidro e na cerâmica, que têm uma boa reputação no mercado, com qualidade, competitividade e que, mais do que sobreviver, estão a liderar o mercado num contexto muito, muito difícil. Não há biometano e não há hidrogénio verde. Por isso era óbvio que havia uma oportunidade cá: para trazer experiência e conhecimento e desenvolver todo o potencial de cá. A experiência que eu e os nossos investidores temos é que a infraestrutura demora tempo a desenvolver. E ainda bem, porque estamos a falar da indústria real. Há complexidade de licenciamento do biometano. Sim, é real. Porquê? Porque não existe. Não existe. Esta- mos a fazer o caminho certo, com uma ou duas outras empresas portuguesas de biometano, para desenvolver o caminho certo para o licenciamento.
Quando é que é possível que estas empresas já estejam a queimar biometano?
Eu sou um industrial e como todos os industriais sérios, eu não vou dizer um prazo que não vou cumprir. Mas digo isto: a procura está cá, a regulação está a chegar. O licenciamento das nossas unidades está em bom progresso. Temos de dar todos os passos certos. Quando tivermos todos os licenciamentos para começar a construção, estarei em posição de responder. O potencial é real, porque tudo foi feito: a tecnologia é madura, o sistema legislativo é maduro e o apoio da Europa está cá. Por isso, é só ir em frente.

