iRobot refunda-se com capital chinês e cria muralha na proteção de dados
A iRobot, empresa que há mais de duas décadas demonstrou ao mundo como é possível delegar a limpeza do chão a algoritmos, já não é a mesma. Após um conturbado processo de reestruturação financeira (o chamado Chapter 11 da Lei Comercial dos EUA), a tecnológica de Massachusetts emergiu, em fevereiro, com uma nova face: 100% detida pela Picea, gigante industrial de Shenzhen, China.
Se para os mercados este é um movimento de sobrevivência e escala, para os milhões de utilizadores cujas casas estão meticulosamente mapeadas nos servidores da empresa, a questão é outra: quem guarda, afinal, as chaves destas plantas digitais? Em entrevista exclusiva ao DN/ /Dinheiro Vivo, Nicolas Meurger, vice-presidente e diretor-geral da iRobot para a região EMEA (Europa, Médio Oriente e África), explica a estratégia utilizada para salvaguardar esses dados. E rejeita a ideia de “renascimento” da empresa. Prefere falar em “refundação”.
O objetivo é claro: usar o músculo produtor chinês para trazer para o mercado o dobro dos modelos já em 2026, enquanto tenta erguer uma “muralha da China” invertida, que proteja a soberania dos dados dos clientes.
O bunker de dados: iRobot Safe
A grande dúvida que se criou em torno desta aquisição, mal foi anunciada, prendeu-se com a Lei de Inteligência Nacional da China de 2017, que obriga as empresas daquele país a colaborarem com os serviços de informações do Estado. Perante o receio de que Pequim possa ter acesso aos mapas detalhados de milhões de residências ocidentais ou a metadados de utilizadores, a iRobot respondeu com a criação da iRobot Safe Corporation.
“Não há qualquer alteração para os utilizadores europeus ou americanos”, assegura Nicolas Meurger ao DN. “Estabelecemos uma entidade nos EUA que é completamente independente da nova empresa-mãe. Esta entidade irá alojar os dados nos EUA, tal como fazíamos anteriormente. É a nossa ‘torre de controlo’ para a integridade e privacidade dos dados.”
Segundo a empresa, esta nova estrutura funciona como um ‘silo jurídico’. Alisha Standing, diretora de Comunicações para a EMEA da iRobot, que acompanhou a entrevista, detalha que a iRobot Safe possui o seu próprio conselho de administração e um diretor de Segurança de Dados (DSO) independente. “As decisões sobre quem acede a quê são tomadas por esta entidade sob jurisdição americana”, garante, sublinhando que a empresa continua a reger-se estritamente pelo RGPD (Regulamento-Geral sobre a Proteção de Dados) na Europa.
Mas agora que a iRobot é uma empresa que deixou de ser cotada (ou seja, saiu do Nasdaq), o escrutínio público possível (a auditabilidade) mudou. Ou não? A empresa garante que continua sujeita às regulações de mercado de cada país. Resta saber se as agências de cibersegurança europeias terão o mesmo nível de acesso para verificar se não existem “portas traseiras” na comunicação entre os servidores americanos e a sede em Shenzhen, mas isso, só o tempo - e a prática - o poderá demonstrar.
O “melhor de dois mundos”: inovação e escala
A insolvência da iRobot não foi ditada por falta de ideias, mas por uma asfixia competitiva. Enquanto a marca norte-americana investia em hardware complexo — como mopas basculantes e sistemas de visão avançados —, marcas chinesas como a Roborock ou a Dreame ganhavam terreno com preços agressivos e ciclos de produção velozes.
A estratégia para esta nova fase passa por uma integração vertical profunda. “É a combinação do melhor de dois mundos”, afirma Nicolas Meurger ao DN. “A Picea é o fabricante número um mundial em unidades. A iRobot continua a ser a marca número um na mente dos consumidores. Esta união permite-nos ter a escala necessária para sermos competitivos.”
A prova de fogo desta “refundação” chegará já nos próximos meses. Meurger revela que o portefólio de produtos da iRobot para 2026 será “mais do dobro” do que foi em 2025. A ideia é cobrir todo o espectro do mercado: desde o aspirador de entrada, mais acessível, até ao segmento “super premium” que mantém o ADN de inovação do MIT (Massachusetts Institute of Technology).
O I&D (Investigação e Desenvolvimento) mantém-se oficialmente em Bedford, Massachusetts, mas a fronteira entre onde termina a invenção americana e começa a engenharia de produção chinesa está mais ténue. Existem agora equipas conjuntas a trabalhar no desenvolvimento de produtos, fundindo as 1300 patentes da Picea com o histórico da iRobot.
O “Momento Amazon” e o regresso ao trono
É impossível falar deste desfecho sem olhar para o passado recente. Em 2022, a Amazon tentou comprar a iRobot por 1,7 mil milhões de dólares, negócio que foi bloqueado pelos reguladores da UE e dos EUA por receios de privacidade e monopólio. A ironia é evidente: ao impedir a fusão com uma gigante americana, os reguladores acabaram por empurrar a empresa para os braços de uma potência tecnológica chinesa.
Embora Nicolas Meurger se escuse a comentar este caso, o tom atual da empresa é de urgência. Com mais de 50 milhões de robôs vendidos até à data, a iRobot quer recuperar a liderança absoluta do mercado nos próximos três anos.
Daí abraçar o conceito de “refunding” — “refundação”. Este não pretende ser um “renascimento” da iRobot porque, sublinha Meurger, “nunca estivemos mortos”. “Continuamos a ser o número um em Portugal e Espanha”, realça. Mas “foi-nos dada uma oportunidade real de trazer para a frente toda a inovação que tínhamos em pano de fundo, agora com a capacidade de a produzir rapidamente.”
Para o consumidor, garante, o Roomba que percorre a sala continuará a falar a mesma língua. Só o motor que o faz mover-se e o cofre que guarda os seus dados é que pertencem a uma arquitetura global mais complexa.

