Kristina Tikhonova: “Portugal está a bater-se acima do seu peso” na Inteligência Artificial

A diretora-geral da Microsoft para a Europa do Sul (‘multi-country cluster’), analisa o momento de viragem tecnológica do país e a estratégia para o transformar num ‘hub’ digital de referência.
“O progresso não  acontece em isolamento”,  diz Kristina Tikhonova, para quem o acordo ibérico para o digital é algo positivo.
“O progresso não acontece em isolamento”, diz Kristina Tikhonova, para quem o acordo ibérico para o digital é algo positivo.Paulo Spranger
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No âmbito do evento da Microsoft Building the Future 2026, que se realizou em Lisboa quinta e sexta-feira, os dados revelados pelo Estudo de Impacto Económico e Social do Ecossistema Microsoft em Portugal, desenvolvido pela EY, desenham o retrato de um país em plena aceleração. O ecossistema da Microsoft gera hoje 7,3 mil milhões de euros para a economia nacional, um valor que deverá ascender aos 9 mil milhões de euros assim que o investimento em Sines — que arranca com a instalação de 12.600 GPUs — atingir a velocidade de cruzeiro. Com um retorno de 9,6 euros por cada euro investido e a sustentação de 35.000 postos de trabalho, Portugal afirma-se como um fast follower da tecnologia que está a revolucionar o mundo, ao adotar IA a um ritmo superior à média mundial. Quem o diz é Kristina Tikhonova, diretora-geral da gigante norte-americana para a Europa do Sul que esteve na capital portuguesa e partilhou com o DN a sua visão.

Com o ecossistema da Microsoft a sustentar 35 mil empregos em Portugal, como garantem que a IA atua como um capacitador dos trabalhadores e não como um fator de exclusão por falta de competências?

A IA é uma tecnologia de uso geral, o seu impacto económico real virá da adoção e difusão por parte de pessoas e nações, não apenas dos inovadores. O Copilot [a IA generativa da Microsoft integrada nos seus produtos e serviços] é a forma como colocamos a IA diretamente no fluxo de trabalho — o que podemos chamar de "Work IQ". Trata-se de uma interface de IA para cada pessoa. Mais do que tecnologia ou formação, trata-se de uma mudança de cultura.

Como se impulsiona essa mudança de cultura, especialmente na mentalidade das lideranças portuguesas?

As pessoas acreditam naquilo que veem. Muitas empresas questionavam o valor real da IA, mas agora o reconhecimento é geral. Se mudarmos o foco da produtividade genérica para os KPI [Key Performance Indicators / Indicadores-Chave de Desempenho] centrais do negócio — como receita por vendedor, resolução de problemas à primeira ou ciclos de inovação — o valor torna-se evidente. É o momento de viragem para os líderes.

O vosso estudo revela um retorno de quase dez euros por cada euro investido em soluções Microsoft. O que fazem as "Frontier Firms" de diferente para extrair este valor?

Vemos uma distribuição de ROI [Return of Investment / Retorno sobre o Investimento] muito variável: enquanto a média [global] é de 3,5 dólares por cada dólar investido, em Portugal chegamos aos 9,6. As empresas com maior ROI têm padrões comuns: abandonaram os casos de uso genéricos em favor de processos de negócio centrais e industriais. Além disso, escalam a IA por, pelo menos, sete funções de negócio, abrangendo desde o produto e inovação até ao serviço ao cliente.

A responsável da Microsoft esteve em Lisboa para os dois dias da iniciativa Building the Future 2026.
A responsável da Microsoft esteve em Lisboa para os dois dias da iniciativa Building the Future 2026.Paulo Spranger

Pode a IA generativa ser o "atalho" para a Europa do Sul fechar a lacuna histórica de produtividade?

Sem dúvida. Para a Europa, prevemos um aumento líquido do PIB de 2,5 pontos percentuais. Para desbloquear isto em cada mercado, precisamos de três pilares. Primeiro, permissão social: as pessoas precisam de confiar na segurança e governação da tecnologia. Segundo, formação: em Portugal já formámos 1,5 milhões de pessoas, mas precisamos de especialistas em cibersegurança e dados. Terceiro, os próprios dados: não há IA sem dados consistentes e preparados na nuvem.

A infraestrutura e a realidade portuguesa estão preparadas para este salto?

Ainda há caminho a percorrer, mas há um bom impulso governamental. É fundamental definir regras como a política cloud-first em concursos públicos. O governo deve servir de modelo, implementando a IA e definindo as normas para o mercado. Portugal é atualmente um "fast follower", o que é uma posição positiva. Com uma difusão de IA de 24,2%, estamos acima da média mundial de 16% e acelerámos mais do que o resto do mundo no último ano.

Como convergem os planos do Hub de Dados Ibérico, acordados na Cimeira Ibérica no passado fim de semana, com o vosso investimento previsto de 8,6 mil milhões em Sines?

A IA define a competitividade nacional. Portugal já é um exportador líquido de TI [Tecnologias da Informação] e, ao juntar forças com Espanha, torna-se ainda mais forte. O país tem os ingredientes ideais: uma rede elétrica robusta, energia verde, conectividade submarina e talento. Creio que Portugal está a bater-se acima do seu peso, como gostamos de dizer sobre o país. O nosso investimento em Sines, que arranca com a instalação de 12.600 GPU, vai amplificar este papel. O progresso não acontece em isolamento, mas sim através da colaboração.

Qual é a sua visão sobre as estratégias de soberania digital da UE? É possível equilibrar proteção e inovação?

O importante é o equilíbrio. Na Microsoft, vemos a soberania como uma definição feita pelo cliente. Oferecemos um "continuum" de soluções: desde a nuvem pública com encriptação soberana até nuvens locais ou totalmente desligadas. Cada cliente decide o que é a soberania para si: privacidade de dados, cibersegurança ou inovação em ecossistema fechado.

As regras europeias, como o AI Act, têm este cenário em conta?

Estamos a ver isso moldar-se. O AI Act foca-se na regulação, mas a discussão sobre soberania continua ativa. O nosso papel é garantir que a soberania não signifique falta de escolha, oferecendo um leque completo de opções técnicas.

Sobre as "Mulheres na Tecnologia", outra das suas áreas: pode a IA mitigar o enviesamento algorítmico que ainda perpetua estereótipos de género do século passado, como um estudo revelou esta semana?

Acreditamos que é possível usar a tecnologia para chegar a decisões mais justas e imparciais do que as humanas. O enviesamento não é um efeito secundário inevitável; ele reflete quem cria as soluções e os dados escolhidos. Se usarmos equipas e conjuntos de dados diversificados, mitigamos esse risco. Temos princípios de diversidade "por design" e ferramentas técnicas para verificar a segurança e imparcialidade das soluções. Investimos fortemente na formação de mulheres em IA porque acreditamos que podemos tornar o mundo mais justo.

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