Lagarde recomenda à Europa maior “autonomia estratégica” nas cadeias de abastecimento

“Somos a mais aberta das grandes economias. Agora, temos de fazer a transição para a autonomia estratégica”, defendeu a presidente do BCE, na conferência de Munique.
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE).
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE).RONALD WITTEK/EPA
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A presidente do BCE, Christine Lagarde, recomendou este sábado, 14, que a Europa faça uma transição para ganhar maior “autonomia estratégica” nas cadeias de abastecimento, porque o comércio não é apenas uma questão económica, mas também de segurança.

A líder do Banco Central Europeu (BCE) falava na 62.ª Conferência de Segurança de Munique, numa mesa redonda sobre dependências comerciais e cadeias de abastecimento a nível mundial, onde sublinhou que a autoridade monetária da zona euro precisa de estar preparada para atuar num ambiente económico mais volátil.

Somos a mais aberta das grandes economias. Agora, temos de fazer a transição para a autonomia estratégica”, defendeu, referindo-se às cadeias de abastecimento.

“Num mundo em que as dependências das cadeias de abastecimento se tornaram vulnerabilidades de segurança , a Europa deve ser uma fonte de estabilidade – para nós próprios e para os nossos parceiros”, vincou, considerando que “isso também faz parte da segurança europeia”.

Lagarde começou a intervenção dizendo que o facto de uma banqueira falar numa conferência de segurança sobre cadeias de abastecimento “é um sinal de como o nosso mundo mudou”, porque se isso acontecesse há uma década pareceria um engano mas hoje todos “reconhecem que o comércio é tanto uma questão de segurança quanto uma questão económica”.

Para a presidente do BCE, a Europa deve preparar a sua autonomia estratégica apostando em três eixos: independência, indispensabilidade e diversificação.

O primeiro passa por “reconstruir cadeias de abastecimento internas em tecnologias e consumos críticos para reduzir a dependência” externa, o segundo significa “desenvolver pontos fortes em áreas críticas ‘indispensáveis’ dessas cadeias de abastecimento” e o terceiro representa “distribuir as cadeias de abastecimento entre parceiros para que nenhuma interrupção isolada possa paralisar” a economia, detalhou Lagarde.

“A interdependência económica aprofundou-se substancialmente nas últimas décadas, criando redes complexas de fluxos comerciais transfronteiriços. O que antes era visto como uma fonte de estabilidade é agora uma fonte de vulnerabilidade: das perturbações globais como a pandemia à utilização deliberada das dependências como uma arma”, referiu.

De acordo com dados do BCE citados por Lagarde, “uma queda repentina de 50% no abastecimento por parte de fornecedores geopolíticamente distantes reduziria o valor acrescentado da indústria transformadora [europeia] em 2 a 3%, com o impacto concentrado nos equipamentos elétricos, produtos químicos e eletrónicos”.

Lagarde avidou ainda que “depender exclusivamente do comércio – mesmo no âmbito de alianças – também acarreta riscos”, porque “os parceiros de confiança nem sempre o permanecem”.

“Em alguns setores críticos, precisamos de desenvolver capacidade interna, mesmo que isso seja temporariamente mais caro”, apontou.

Christine Lagarde disse ainda que “o BCE precisa estar preparado para um ambiente mais volátil”, em que a política industrial é “mais assertiva”, em que “as tensões geopolíticas aumentam” e “as cadeias de abastecimento são interrompidas”, porque nesse cenário “é provável que o stress nos mercados financeiros se torne mais frequente”.

“Temos de evitar uma situação em que esse stress provoque vendas precipitadas de títulos denominados em euros nos mercados de financiamento globais, o que poderia prejudicar a transmissão da nossa política monetária”, sendo necessário criar a “confiança de que haverá liquidez em euros disponível, caso seja necessário”, explicou.

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE).
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