Luís Pedro Martins: “Novas rotas da TAP ainda estão muito aquém do que queremos no Porto’’

Presidente do TPNP saúda os investimentos da TAP no Francisco Sá Carneiro, mas exige mais ligações transatlânticas e defende ainda que as obras no aeroporto são “urgentes”.
Presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro Martins
Presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro MartinsAndré Rolo / Direitos Reservados
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Depois de anos de “promessas não cumpridas” e de um “desinvestimento da TAP” no aeroporto do Porto - que gerou críticas dos principais representantes do setor na região -, a relação entre a transportadora aérea e o Norte do país parece estar a avançar para águas mais serenas. O presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP) aplaude as novas rotas anunciadas pela companhia de bandeira no Francisco Sá Carneiro, mas admite manter alguma cautela, alertando ainda que esta é a derradeira oportunidade para um virar de página entre as partes.

“A TAP tratou muitíssimo mal a região durante muitos anos, com sucessivas promessas que, na sua esmagadora maioria, nunca se concretizaram. Esta é a última possibilidade de criarmos uma relação. Se os anúncios feitos não vierem a ser cumpridos, será fatal”, assegura Luís Pedro Martins em entrevista ao DN.

No passado mês de janeiro, a TAP anunciou novas ligações para este ano a partir do Porto para a ilha Terceira, nos Açores, para a Praia, em Cabo Verde, e para Telavive, em Israel, além do reforço da ligação para Boston, nos Estados Unidos. A transportadora liderada por Luís Rodrigues comprometeu-se ainda a lançar mais quatro rotas no próximo ano, no âmbito de um plano estratégico traçado até 2028 e que prevê a expansão da oferta com novas ligações intercontinentais.

O presidente do TPNP saúda este que é o primeiro passo de um novo ciclo de investimentos da transportadora aérea a Norte, após o fim das limitações impostas pelo plano de reestruturação, mas pede à TAP o incremento da aposta transatlântica. “Estas são notícias bastante positivas, mas ficam ainda muito aquém daquilo que queremos. Sempre pedimos à TAP que fosse relevante onde pode ser, ou seja, nas ligações ao continente americano - nomeadamente aos Estados Unidos, ao Canadá e ao Brasil - é aí que a TAP pode fazer a diferença face a outras companhias”, aponta o responsável à margem do 35º Congresso da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), a decorrer no Porto.

Luís Pedro Martins justifica que a conectividade com os mercados europeus está já amplamente assegurada por outros operadores e que, por essa razão, é fundamental que a TAP concentre os seus esforços no reforço das ligações de longo curso para o continente americano onde, afiança, existe procura.

“A pouca operação que temos funciona bastante bem. Temos, por exemplo, a Air Canadá a assegurar as ligações com este país, a United Airlines a ligar-nos aos Estados Unidos e a Azul ao Brasil. Portanto, se há outras companhias a investir, significa que existe mercado, porque ninguém investe para ter prejuízo”, acrescenta.

Além dos novos voos, a TAP irá ainda investir 20 milhões de euros na instalação de um hub de manutenção e engenharia no aeroporto Francisco Sá Carneiro, que deverá estar concluído no prazo de dois anos e que irá criar 200 postos de trabalho. “É uma prova de que a TAP quer aumentar a sua atividade e representa mais emprego qualificado para a região. Todos estes projetos são extremamente positivos se se concretizarem”, reitera.

Apesar de o porta-voz do turismo da região Norte não querer ver as suas “expectativas defraudadas”, admite estar otimista e deixa elogios à atual administração da TAP.

“Quando o CEO, Luís Rodrigues, assumiu funções, teve o cuidado de se reunir connosco e de nos transmitir que 2025 seria um ano difícil, uma vez que a TAP continuava sujeita ao plano de reestruturação aprovado pela Comissão Europeia e impedida de aumentar o número de slots e de aeronaves. Disse-nos que, no que dependesse dele, tudo faria para que, assim que possível, o aeroporto Francisco Sá Carneiro tivesse o lugar que merece na operação da companhia. Por isso, acredito que desta vez estamos a iniciar um capítulo diferente”, salienta.

Já sobre o processo de privatização em curso, Luís Pedro Martins espera que este “não interfira no novo desígnio da TAP” e que o crescimento a Norte seja assegurado. Questionado sobre os três consórcios que estão na corrida à compra da companhia, refere que apenas travou contacto com a Air-France/KLM. “Foi, até agora, o único grupo que teve o cuidado de vir à região conhecer a realidade do turismo e a dimensão do nosso trabalho”, nota.

“Investimento no aeroporto é urgente. Seria dramático repetir a saga da Portela”

O ano passado fez-se de novos recordes para o turismo da região Norte do país, com os principais indicadores a crescerem acima da média nacional. A escalada da procura refletiu-se também na infraestrutura aeroportuária do Porto, que movimentou um máximo histórico de 17 milhões de passageiros no acumulado de 2025.

A este cenário somam-se ainda os constrangimentos na Portela, que têm levado várias companhias aéreas a redirecionar as suas operações para o Porto, face à impossibilidade de expandirem atividade em Lisboa. A pressão adensa-se e o ponto de saturação pode estar próximo, sinais de alerta que levam o presidente do TPNP a pedir investimento urgente.

“Quando a última fase do aeroporto foi projetada, a expectativa era a de que fossem movimentados cerca de cinco milhões de passageiros por ano e, atualmente, já atingimos mais do triplo”, adverte. Por isso mesmo, há situações que pedem uma intervenção rápida. “É o caso dos acessos aos parques de estacionamento e dos acessos ao aeroporto. A placa de estacionamento das aeronaves também precisa de ser ampliada. Precisamos de uma nova pista que nos permita reforçar a operação, passando a atual pista a um taxiway preparado para que a operação seja mais rápida, permitindo o maior número de chegadas e partidas por hora”, enumera.

No mesmo dia em que a TAP apresentou os novos investimentos no Porto, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, revelou que o Governo irá constituir um grupo de trabalho para analisar a expansão do aeroporto Sá Carneiro. Luís Pedro Martins encara o anúncio do Executivo “de forma bastante positiva”,considerando-o decisivo para evitar um cenário semelhante ao que se vive no Humberto Delgado.

“Seria dramático que o país voltasse a repetir a saga do aeroporto de Lisboa, ninguém compreenderia. Dificilmente teremos um novo aeroporto em menos de 15 anos e, considerando a imagem muito negativa que a operação em Lisboa tem projetado do país, é fundamental olhar para o Porto - e também para Faro - como infraestruturas que podem reforçar a capacidade, de forma a evitar que se repitam situações como as que vimos recentemente, em que um passageiro chega a demorar dentro do aeroporto o dobro do tempo da própria viagem até ao destino”, afirma.

A operação no aeroporto do Porto irá continuar a crescer este ano com uma oferta de 130 rotas operadas por 40 companhias aéreas.

“Deveríamos evitar a construção de novos hotéis no centro histórico do Porto”

A procura turística a Norte do país continua a ganhar fôlego e os números comprovam a evolução histórica. Em 2025, os alojamentos turísticos da região receberam 7,7 milhões de hóspedes (+3,7%), que foram responsáveis por 15 milhões de dormidas (+5,2%), de acordo com os dados divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

A região concentrou ainda o maior número de dormidas do mercado interno a nível nacional (5,4 milhões) com um crescimento de 4,5% face a 2024. O presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), Pedro Duarte, tem vindo a alertar para os perigos do excesso de turismo, mas o cenário, explica Luís Pedro Martins, ainda não é uma ameaça.

“O excesso de turismo será sempre um risco em qualquer território, mas acredito que ainda não existe no Porto. É muito importante sabermos qual é a capacidade de carga e estou convencido de que ela ainda está longe de ter sido atingida”, defende.

Para o presidente do TPNP importa fazer uma distribuição equilibrada dos fluxos. “Somos uma região muito rica, se conseguirmos distribuir melhor pelo Douro, pelo Minho ou por Trás-os-Montes temos 21 mil quilómetros quadrados de belezas naturais, de muito património cultural, de muitos ativos turísticos e, portanto, acredito que o excesso de turismo nunca acontecerá”, diz.

Ainda assim, prossegue, importa fazer uma gestão equilibrada da oferta hoteleira. “Infelizmente a capacidade de gerir esta oferta não está nas nossas mãos nem nas mãos da CMP. Seria importante que estivesse, para conseguirmos dizer que, em determinado local da cidade ou da região, já temos oferta suficiente. No centro histórico do Porto já temos oferta hoteleira e deveríamos evitar a construção de mais hotéis”, defende.

O objetivo, destaca, passa por crescer em valor atraindo mercados de alto rendimento como os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil e também os mercados asiáticos. “Queremos crescer em valor, a ideia de melhor turismo não significa necessariamente mais turismo, significa melhores apostas. Estamos a trabalhar muito no Japão, na China, na Coreia do Sul e agora também na Austrália. Estamos também a fazer uma estreia com mercados da América Latina, nomeadamente com a Argentina e o México. O reforço destas ligações a mercados de alto rendimento vão-nos permitir crescer de acordo com o nosso desígnio “, conclui.

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