Maiores economias do mundo precisam de agir para "pôr a dívida num caminho sustentável", alerta FMI

As yields da dívida soberana estão em máximos de décadas em vários países e erguem receios sobre uma eventual crise. É preciso definir planos a médio prazo e tomar medidas no imediato, diz o FMI.
Maiores economias do mundo precisam de agir para "pôr a dívida num caminho sustentável", alerta FMI
EPA/RUNGROJ YONGRIT
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Há décadas que países como EUA, Alemanha ou Japão não prometiam pagar tanto para se refinanciarem. O cenário exige "medidas concretas", de forma a evitar um efeito de contágio que poderia chegar a economias mais periféricas, como é o caso de Portugal.

Quem o diz é o Fundo Monetário Internacional (FMI), numa análise divulgada esta quarta-feira. Aquela entidade começa por salientar que, entre fevereiro e setembro, a yield média da dívida soberana da 10 anos de cada membro do G7 subiu mais de um ponto percentual.

Significa isto que os prémios para quem compra dívida soberana alcançaram o nível mais alto em quase duas décadas. Ao mesmo tempo, o endividamento já está em níveis "elevados" e o FMI antevê que os próximos anos fiquem marcados por novas subidas.

Ora, "quando a dívida já é alta, a subida das taxas de juro leva a um aumento do défice fiscal e da dívida", lembra o FMI. O cenário deverá tornar-se mais preocupante nos próximos anos, já que o Fundo Monetário Internacional estima que a dívida global atinja 100% do PIB mundial até 2030. Recorde-se que a última vez que aquele nível de dívida foi registado aconteceu logo após a Segunda Guerra Mundial.

Porque sobem as yields?

Os prémios para quem empresta dinheiro aos Governos estão sob pressão por vários fatores. Desde logo, o choque energético, ligado aos cortes na exportação de petróleo, devido à guerra no Médio Oriente. É que estes foram mitigados "apenas parcialmente" pelo aumento da produção noutros países, segundo revelou a Agência Internacional de Energia (AIE), igualmente na quarta-feira.

Também a inflação persistente (impulsionada pelo disparo dos preços do petróleo) e com perspetivas de se manter elevada em 2027, tem um papel neste âmbito, já que torna os investidores mais exigentes com os rendimentos das bonds, que são ativos com rendimento fixo.

Ao mesmo tempo, a "forte procura por investimento e a expetativa de elevado crescimento futuro, ligada à inteligência artificial (IA)", estão também na base da subida das yields. O contexto sugere que algumas das maiores economias mundiais e europeias (França e Alemanha, desde logo) vão pagar elevadas quantias de dinheiro por financiamento, nos próximos anos.

Ora, face a este cocktail de elevado endividamento, pressões sobre a despesa e perspetiva de grandes emissões de títulos de dívida nos próximos anos, algumas das maiores economias (a alemães e franceses acrescem EUA e Japão, por exemplo, no que diz respeito às extra-europeias) registaram um sell-off dos títulos de dívida.

É que os investidores exigem mais para emprestarem dinheiro a longo prazo (maturidades de 10, 20 e 30 anos) e começaram a fugir de rendimento fixo que consideravam pagar demasiado pouco. Gerou-se o pânico, que levou os departamentos do Tesouro a optarem pela subida das yields, de forma a recuperar financiamento.

Que riscos existem?

O outro lado da moeda diz respeito à possibilidade de os governos estarem a prometer pagar valores que se tornam insustentáveis para as próprias economias, obrigando a um ciclo de refinanciamento sem fim à vista. Nos EUA, por exemplo, espera-se que o dinheiro destinado ao pagamento a credores suba de 2,8% do PIB antes da pandemia para 5,7% em 2031.

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Ora, o FMI antecipa um crescimento de 1,1% já este ano na zona euro. As economias dos países desenvolvidos devem crescer 2,1% em 2026 (após 2,0% no ano passado), mas com uma desaceleração para 1,9% em 2027, de acordo com as contas divulgadas na terça-feira.

Detalhando, a Alemanha quase estagnou em 2025 e deve crescer 1,3% no presente ano, ao passo que França cresceu 0,9% no ano passado e o FMI espera um abrandamento para 0,4% em 2026. Portugal deve crescer 2,1% em 2026 e 1,9% no ano seguinte.

O cenário não é o melhor e o crescimento das economias não anima, sendo que aquelas que "importam energia e estão de fora da cadeia de valor da tecnologia enfrentam as perspetivas mais debilitadas", de acordo com o próprio FMI.

Ora, "yields [das obrigações do Tesouro] mais altas nas principais economias podem espalhar-se para outros países, castigando as dinâmicas da dívida" em países economicamente periféricos. É o caso de Portugal, que pode assim ser impactado pelo cenário macro internacional.

Saldo orçamental nulo

Para Portugal, o FMI projeta um saldo orçamental nulo, ou seja, 0,0% face ao PIB, em 2026 e 2027. Acredita depois num regresso ao défice, na ordem de 0,3% do PIB em 2028, 0,6% em 2029, 0,9% em 2030 e 1,3% em 2031.

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