

O banco neerlandês Triodos prevê uma redução, este ano, em cerca de 1% no Produto Interno Bruto da União Europeia (UE), devido aos prejuízos que as temperaturas extremas sentidas este verão na região provocaram na economia. É uma quebra de cerca de 180 mil milhões de euros.
A confirmar-se esta previsão, significa que a economia europeia irá estagnar em 2026. Os incêndios que destruíram habitações, desviaram turistas e comprometeram produções agrícolas, o aumento das taxas de mortalidade, o transporte fluvial de mercadorias que foi impactado pela redução dos níveis de água (caso do rio Reno), são alguns exemplos dos efeitos dos fenómenos climáticos extremos registados este verão na atividade económica.
E foi neste cenário que a consultora GlobeScan, a pedido do departamento de políticas europeias da WWF (organização internacional para a proteção do ambiente), realizou um inquérito nos meses de junho e julho a 350 líderes empresariais da UE, 55% de pequenas e médias empresas e 44% de multinacionais. Uma das principais conclusões do relatório Beyond Uncertainty (em português, Para além da Incerteza) é a quase unanimidade dos gestores na defesa da descarbonização e sustentabilidade da economia europeia.
Nove em cada dez líderes empresariais acreditam que a transição para uma economia verde fortalece a competitividade da UE, apesar dos desafios que acarreta no curto prazo, sublinhou Perrine Bouhana, uma das autoras, na apresentação do estudo. Na mesma linha, a maioria (55%) considera que os recentes esforços de simplificação da regulação da UE nesta matéria tiveram um impacto negativo ou misto nos negócios. Uma maior incerteza sobre a orientação futura da política da UE (57%), investimentos desperdiçados e argumentos comerciais enfraquecidos são as consequências mais apontadas pelos gestores. O inquérito revela ainda que apenas 29% dos líderes empresariais reportaram impactos positivos destas iniciativas de simplificação.
Francesco Tramontin, vice-presidente global para os Assuntos Públicos e Relações com a UE da Ferrero, que participou no inquérito, defende que “a previsibilidade é essencial para que a política de sustentabilidade impulsione uma transformação real". Para este responsável da multinacional de chocolates, "uma estrutura regulamentar clara e coerente permite às empresas concentrar os recursos onde estes têm o maior impacto – investir na inovação, na resiliência da cadeia de abastecimento e na criação de valor a longo prazo – fazendo da sustentabilidade um motor de competitividade, e não apenas um exercício de conformidade".
Também o grupo de vestuário H&M colaborou no estudo, tendo sublinhado que a sustentabilidade "é um fator de resiliência, inovação e competitividade a longo prazo". Nas palavras de Pernilla Halldin, diretora sénior e chefe de assuntos públicos do grupo H&M, "o que as empresas precisam dos decisores políticos não é menos ambição, mas sim maior certeza e implementação eficaz que possibilite decisões de investimento a longo prazo".
Em 2024, um estudo da Comissão Europeia concluiu que os custos da não implementação da legislação ambiental ronde os 180 mil milhões de euros por ano, lembrou Florian Martinez- Buathier, da WWF Europa. O advogado sublinhou que o impacto financeiro é dez vezes mais do que os cerca de 17 mil milhões de euros de poupanças que a Comissão Europeia diz ter alcançado, até agora, com a simplificação legislativa e redução de burocracia para impulsionar a competitividade da economia.
No estudo, os gestores defenderam a previsibilidade política e legislativa como motor principal para a melhoria da competitividade das empresas (43% dos inquiridos), seguindo-se os investimentos e incentivos públicos (31%) e a energia verde a valores acessíveis (29%). Estes líderes estão céticos quanto à transição para uma economia sustentável. Mais de metade (56%) diz ser pouco provável que a UE atinja as principais metas, dadas as atuais condições.
Na opinião de Fleming Voetman, vice-presidente de relações externas e sustentabilidade da Velux, "a transição para uma economia mais sustentável e resiliente é uma oportunidade para a Europa aumentar tanto a competitividade como a prosperidade em benefício dos cidadãos europeus".