A Casa Mendes Gonçalves, dona da Paladin, Moreno e Sacana, fez no ano passado um ‘assalto’ ao mercado e comprou a marca portuguesa de alimentação saudável Diese e a empresa Alimentos Guadiana, proprietária da Dona Sarah. Foi mais um passo na estratégia de crescimento via aquisição, iniciada há 26 anos com a tomada da Paladin, e que tem sido acompanhada por investimentos na área de produção. O plano de negócios da fabricante de molhos da Golegã, que emprega 420 trabalhadores e tem em Portugal o seu principal mercado, prevê também um crescimento orgânico. Na mira, está o reforço das exportações para o mundo árabe e a abertura de uma fábrica em Marrocos.
A compra da Dona Sarah teve como objetivo diversificar a produção. Como adianta Carlos Mendes Gonçalves, CEO e proprietário da empresa homónima, esta aquisição “não é o típico investimento de uma empresa maior que adquire outra para incorporar, mas que adquire, neste caso, na totalidade, para manter e para desenvolver, e passar a ter outra unidade fabril [em Moura, Alentejo], que permite chegar ao mercado com mais consistência e com mais produtos”. Escusando-se a revelar o valor da operação, o gestor realça que foi uma aquisição “para acrescentar”. Foram assegurados todos os postos de trabalho, inclusive o da anterior proprietária, que se mantém como gerente, e a Casa Mendes Gonçalves está já “a investir na infraestrutura”. A Dona Sarah tem no seu portfólio molhos como ketchup, mostarda e maionese, e também shoarma e kebab.
Já a aquisição da Diese - um investimento de 300 mil euros -, visou a entrada no segmento da alimentação saudável. Como explica Carlos Mendes Gonçalves, o projeto “é fazer o mesmo que já fizemos com a Paladin no passado. Recuperar uma marca portuguesa antiga, pioneira na alimentação saudável, e relançá-la. Transformá-la numa marca moderna, alimentada pela nossa inovação e pela nossa capacidade de perceber as novas tendências do mercado”. Em poucos meses, a Casa Mendes Gonçalves deu-lhe uma nova imagem e apresentou nos pontos de venda novos produtos: três referências de vinagre, quatro de cremes de frutos secos em formato top down e prevê lançar oito referências de chás e infusões no próximo trimestre. É - sublinha -, uma abordagem semelhante à realizada com a Paladin, que era uma marca com apenas uma referência de mostrada quando foi adquirida e hoje tem cerca de 50 produtos, desde os clássicos ketchup, maionese e mostarda, aos molhos para saladas, do “mundo” e “sabores” e, mais recentes, “super molhos”.
Na Mendes Gonçalves Ventures, participada da casa-mãe para negócios com potencial na área alimentar, a estratégia aquisitiva é também forte. “Semelhante ao que fazemos com as marcas - relançá-las, fazê-las crescer -, fazemos com as empresas. A lógica não é de aquisição total, mas de parceria”, explica o administrador. A última aposta foi na Semente Irreverente, uma empresa de refeições prontas a comer, 100% vegan e ultracongeladas, que trabalha sob a marca Plantz. O portfólio da MG Ventures integra ainda a Territórios Criativos, especializada em empreendedorismo, estratégia e formação, e a STI, com foco em serviços na área das tecnologias da informação. Tem em curso processos de incubação e aceleração nas participadas Roots and Meats (cortes especiais de carne, proveniente de raças autóctones em sistemas de agricultura regenerativa), Kim Ferments (condimentos desenvolvidos a partir de fermentações naturais, com base em frutas e legumes excedentes e imperfeitos, evitando o desperdício), ROCkin foods (produtos transformados, provenientes de agricultura regenerativa) e na já referida Plantz.
“O que queremos, e é a condição principal, é que os empreendedores que lançaram a empresa se mantenham e, por isso, temos por norma uma posição minoritária. Queremos dar o que fazemos bem ou temos a obrigação de fazer: industrializar, chegar ao mercado, criar uma marca”, frisa Carlos Mendes Gonçalves. “Nós não estamos numa perspetiva de compradores, não compramos ideias, juntamo-nos, fazendo parte do capital, e damos acompanhamento a empresários com ideias interessantes e que têm, muitas vezes, nestas três componentes, o motivo do falhanço”, faz questão de realçar.
A acompanhar a entrada de novas marcas na casa, a empresa da Golegã tem investimento no reforço da produção. No ano passado, aplicou dez milhões de euros na fábrica, o que permitiu aumentar em 30% a capacidade de fabricação, através da aposta na automação e substituição de equipamentos. Em 2025, a Casa Mendes Gonçalves produziu 18.423 toneladas de molhos/condimentos, 14.131 de vinagre, 1657 de vinagre não alimentar e 448 de cremes de frutos secos. A grande fatia é absorvida pela grande distribuição. A empresa tem clientes como a Sonae, o Pingo Doce, o Auchan, o McDonald’s, o Lidl, o Kikkoman, entre muitos outros.
Carlos Mendes Gonçalves quer reforçar o peso das marcas próprias na faturação que, no último exercício, atingiu os 63,5 milhões de euros, um crescimento de 6% face ao ano anterior. E, por isso, tem investido na compra de marcas e no lançamento de novos produtos. Só este ano já lançou 35 referências e mais vêm a caminho. O habitual é apresentar cinco dezenas ao mercado todos os anos. Não deixa contudo de sublinhar: “É uma relação de parceria. Não éramos o que somos hoje se não houvesse grande distribuição”.
Também quer crescer na exportação, que vale cerca de 20% das vendas. Espanha e Marrocos são os principais mercados, num total de 29. Para o gestor, a região do Médio Oriente e os países em desenvolvimento são potenciais esferas de crescimento da empresa, que possui certificação Halal (entre outras). Reconhece, no entanto, que o atual contexto geopolítico veio dificultar essa ambição de conquistar o mercado mais a Oriente. Ainda assim, está “sempre em cima da mesa, como empresa e na estratégia de futuro”, encontrando a parceria certa, “fazer com que a Paladin, a Diese, a Sacana, a Dona Pureza, a Moreno, sejam as marcas dos consumidores desses países”, diz. Por questões de coerência e de sustentabilidade, “não podemos depois transportar os produtos para países a cinco, dez mil quilómetros de distância”.
Marrocos “está claramente” posicionado nesta estratégia de encurtar distâncias com os mercados árabes e há já contactos com parceiros locais para uma futura unidade de produção. Marrocos garante também abastecimento local de matéria-prima. “Estamos a fazer esse trabalho. São culturas diferentes, são países diferentes. Não estamos numa posição de comprador, de impor, seja o que for, portanto, queremos encontrar o parceiro ideal para fazer esta caminhada em conjunto”. É um passo que está integrado no plano de negócios até 2030, que define como objetivos uma faturação de 100 milhões de euros, com as exportações a valerem 30% das vendas e as marcas próprias a pesar perto de 40%. Para o atual exercício, as previsões apontam para um incremento de 6% na faturação, tendo por base os 63,5 milhões registados em 2025.