Conseguir quem faça orçamentos e reparações na região de Leiria ainda é como encontrar uma agulha num palheiro, mesmo um mês depois da tempestade Kristin ter varrido o território. Perante centenas de milhar de imóveis afetados e a procura desesperada por soluções rápidas, a lei da oferta e da procura já se faz sentir. Os preços sobem e se antes ninguém cobrava para orçamentar a reparação de um telhado, hoje essa tornou-se a regra, apurou o DN. Neste cenário inédito de devastação e de medidas de apoio “excecionais” há também quem esteja a aproveitar-se dos orçamentos apenas para pedir os apoios ao Estado e depois opte por fazer a reparação sozinho ou para meter algum dinheiro ao bolso, dizem ao DN agentes locais.
A cobrança de orçamentos é uma salvaguarda que as empresas tentam garantir, para não perderem tempo e dinheiro a acudir a todo o lado, a toda a hora, sem terem a garantia de que o serviço lhes vai ser adjudicado, explicam empresários.
Segundo o DN apurou, os valores que estão a ser cobrados para fazer orçamentos para reparar telhados rondam os 100 euros, quando são empresas, e os 40 euros pedidos por trabalhadores biscateiros. “Aqui em Leiria estão todos a pedir 100 euros”, diz a proprietária de uma metalomecânica da região, em declarações ao DN. “Como os pedidos são muitos, eles cobram o orçamento, mas se o serviço for adjudicado eles depois descontam no valor da obra”, explicou aquela empresária.
A prática foi confirmada ao DN por mais residentes de Pombal e Leiria. “A mim pediram-me 40 euros para virem fazer o orçamento de reparação da última fila de telhas do telhado”, disse uma proprietária. “Mas achei caro e não aceitei”, adiantou a professora que continua sem solução à vista para a sua casa. O mesmo valor foi pedido a Miguel, agente imobiliário, que estranhou o método nunca antes usado para obter um orçamento.
Os orçamentos são peças essenciais para a instrução dos processos nas candidaturas aos apoios do Estado, sobretudo a partir de valores de dez mil euros, ou para se ter direito ao reembolso das seguradoras no caso dos danos estarem cobertos pelos seguros. Por isso, todos os bloqueios nesta fase do processo acabam por atrasar toda a engrenagem. O problema no caso de estruturas mais afetadas é que têm de ser pedidos vários orçamentos para um mesmo imóvel. “Aqui na empresa ainda não conseguimos todos os orçamentos, porque quem trata das janelas não é o mesmo que trata do portão, ou do telhado”, exemplifica a empresária que ficou mais de duas semanas sem energia elétrica.
Quando o sistema de apoios às vítimas das tempestades foi apresentado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, a prioridade foi colocada na rapidez, redução de burocracia e confiança nos cidadãos. Por isso isentaram-se as obras até aos 5 mil euros de vistorias, bastando apresentar fotografias a comprovar os estragos, com o objetivo de acelerar os processos. Mas não demorou muito tempo até aparecerem esquemas para tirar vantagem do regime excecional, segundo dizem os agentes locais.
“Anda muita gente a aproveitar-se dos apoios do Estado. Aparecem para pedir orçamento só para terem o papel para ir buscar o dinheiro e depois fazem o trabalho sozinhos ou pedem a um amigo para achanatar tudo”, disse ao DN João Dinis, proprietário e sócio gerente da TLVE Construções. “Os piores são os administradores de condomínios que estão a gastar dinheiro à conta, a incluir coisas que não têm nada a ver com as tempestades, é tudo assim”, acusa o empresário. “É por isso que nós já não fazemos reparações, já só fazemos telhados inteiros. Já nem sequer perdemos tempo com isso”, refere o dono da empresa com instalações nos distritos de Coimbra, Lisboa e Porto.
“No outro dia, uma administradora de condomínios que é advogada, espertalhona, queria que lhe fizesse um orçamento. Eu apresentei 175 mil euros, mas ela acabou por arranjar outro que fazia mais caro, por 200 mil, sabe porquê? Isto já é uma praxe de há muitos anos, quando foi dos incêndios de Pedrógão foi igual. As empresas de condomínios têm sempre um empreiteiro da sua confiança _os condóminos não sabem, nem se querem chatear _ e tiram 10% a 15% do valor do orçamento para sua comissão. É assim que funciona”.
Sobre a prática de cobrar pelos orçamentos de reparação, João Dinis considera que “nem 100 euros compensa”. E, continua, “só o que gasto para mandar alguém de Coimbra a Leiria, pagar portagens, perder duas horas e levar equipamento não compensa. Teria de ser no mínimo 350/400 euros, por isso prefiro nem perder tempo com isso”, diz resoluto. E, avisa, “é preciso ter cuidado, porque quem aceita fazer o orçamento por 100 euros ou 40 euros pode nem saber o que está a fazer ou ser um burlão”. João Dinis teve as instalações cinco dias debaixo de água durante as cheias de Coimbra, mas, garante, “não pedi nada ao Estado, só quero continuar a trabalhar”.
Os danos indemnizáveis por seguros devido ao meu tempo já somam 750 milhões de euros, quase tanto quanto o que foi pago nos últimos 20 anos, de mil milhões de euros. Segundo a última atualização da Associação Portuguesa de Seguradores (APS) até final de fevereiro tinham dado entrada cerca de 140 mil participações de sinistros. Destes 115 mil são seguros de habitações, 13 mil seguros de atividades comerciais e industriais e 9,5 mil seguros de automóvel.