O “Triângulo Ibérico”: a península afirma-se como a “primeira capital digital distribuída” do mundo

O Sul da Europa deixou de ser a periferia da conectividade para se tornar a principal porta de entrada de dados do continente europeu, diz Ivo Ivanov, CEO do maior Internet Exchange do mundo.
Ivo Ivanov elogia Lisboa, porta de entrada de comunicações para o mundo.
Ivo Ivanov elogia Lisboa, porta de entrada de comunicações para o mundo.DR
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A geografia digital da Europa está a sofrer uma alteração estrutural profunda. Historicamente dependente do eixo FLAP (Frankfurt, Londres, Amesterdão e Paris), o tráfego de dados global está a migrar aceleradamente para Sul. De acordo com os dados operacionais mais recentes apresentados pela DE-CIX - a gigante europeia de infraestrutura de interconexão fundada na Alemanha em 1995 e hoje a maior operadora mundial de Internet Exchange -, a região do Sul da Europa consolidou a sua transição de uma zona periférica para o principal gateway (porta de entrada) digital do continente.

“Por todos os indicadores de desempenho (KPI), o Sul europeu já não é a extremidade da Europa. Está a tornar-se o seu gateway digital”, afirmou esta quinta-feira, 11 de junho, Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, durante um encontro com jornalistas. Este reposicionamento é sustentado por um investimento massivo em novos centros de dados, capacidade de rede e na presença direta de operadoras internacionais na região.

A atividade da DE-CIX no Sul da Europa, que se iniciou há dez anos - com a operação em Lisboa a arrancar em 2019 -, abrange atualmente mais de 500 redes conectadas localmente e 18 localizações interconectadas (centros de dados) distribuídas por Portugal, Espanha, França (Marselha), Itália (Palermo) e, recentemente, Grécia (Atenas).

A singularidade do modelo ibérico

O principal vetor desta transformação é a Península Ibérica, que Ivanov classifica como “a primeira capital digital distribuída do mundo”, um modelo de rede descentralizado que não encontra paralelo noutras regiões do globo.

Esta arquitetura assenta num triângulo económico e de infraestruturas altamente complementar: Madrid funciona como o centro económico de Espanha, concentrando a maior densidade de infraestrutura digital terrestre da península; Barcelona consolida-se como um polo de atração de cabos submarinos no Mediterrâneo, complementar à infraestrutura de Marselha, enquanto Lisboa se afirma como a porta de entrada estratégica para as amar- rações de cabos submarinos transatlânticos e de ligação ao continente africano.

De acordo com as conclusões do estudo Iberia as a Distributed Digital Capital, que será apresentado formalmente no final de setembro no fórum Atlantic Convergence, o ecossistema ibérico agregado já conta com mais de 100 centros de dados ativos e em fase de projeto, mais de 800 redes conectadas e 35 sistemas de cabos submarinos a aportar em 20 estações de amarração diferentes. No total, as três cidades disponibilizam mais de 12 redes de transporte terrestre de alta resiliência e acumulam quase meio gigavolt-ampere (436 MW) de capacidade de TI instalada. Em termos de interconexão, existem na península 13 plataformas de Internet Exchange (pontos de troca de tráfego) distintas, um cenário de concorrência que, segundo a operadora, promove a redundância necessária para que as operadoras de telecomunicações se conectem a múltiplas plataformas independentes.

América Latina - Europa

A nível nacional, a DE-CIX Lisboa registou um crescimento de 13% no pico de tráfego de dados durante o último ano, superando a fasquia dos 100Gbps, com mais de 60 redes nacionais e internacionais conectadas diretamente à sua plataforma física.

Esta infraestrutura local ganhou uma nova dimensão estratégica com a ativação recente das operações da DE-CIX no Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro). Graças ao cabo submarino de fibra ótica EllaLink, que liga diretamente a América do Sul a Sines, o tráfego digital entre os dois continentes passou a processar-se de forma direta, eliminando a necessidade histórica de encaminhar os dados através de servidores localizados nos Estados Unidos da América. “O ecossistema da América Latina está agora conectado diretamente à Península Ibérica, a Portugal, sem precisar de fazer uma rota pelos Estados Unidos”, disse Ivo Ivanov. O executivo sublinhou que esta rota direta não só otimiza o desempenho de serviços digitais, como as transmissões de vídeo, mas responde diretamente a critérios de segurança nacional e jurídica. “Quantos menos saltos (hops) os dados derem, melhor é para a proteção soberana dos dados, especialmente os dados sensíveis.”

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