Quando a velocidade não é o mais importante: os parâmetros invisíveis que condicionam a internet em Portugal
Portugal apresenta uma das taxas mais elevadas de cobertura de fibra ótica da Europa, com uma infraestrutura doméstica de alta velocidade amplamente massificada. No entanto, a subscrição de pacotes comerciais com largura de banda de gigabit não tem garantido uma experiência de navegação livre de falhas. De acordo com especialistas do setor, o desenvolvimento tecnológico da rede nacional já não depende do aumento da velocidade nominal das linhas, mas sim da otimização das rotas de dados e da redução do tempo de resposta (latência).
Esta dinâmica constitui a principal conclusão de um estudo quantitativo de âmbito nacional realizado pela Netsonda para a DE-CIX - operadora europeia fundada na Alemanha em 1995 que atua como fornecedora neutral de pontos de troca de internet (Internet Exchanges) à escala global. A consulta pública foi realizada entre 11 e 20 de maio de 2026 e teve por base numa amostra representativa de 600 utilizadores portugueses com ligações de fibra ótica até casa (FTTH). E os resultados evidenciam uma divergência técnica entre a largura de banda contratada pelos consumidores e a estabilidade efetiva do serviço.
Apesar de a grande maioria dos portugueses (81%) associar diretamente uma maior velocidade de internet a uma melhoria automática na qualidade global da experiência de utilização da rede, os dados de monitorização da experiência real dos utilizadores contrastam com esta premissa de forma sistemática. É “o mito do gigabit: mais velocidade não garante uma melhor experiência”, afirma o CEO da DE-CIX, Ivo Ivanov, num encontro com jornalistas, esta quinta-feira, 11 de junho.
Como disse um porta-voz da DE-CIX em Portugal, o estudo reflete de forma quantitativa a diferença entre a largura de banda comercializada e o desempenho prático nas habitações: “A perceção pública aponta para que um pacote de maior velocidade melhore de forma automática a experiência online, mas o comportamento técnico das redes é complexo. Apenas 25% dos inquiridos considera que a qualidade real da sua ligação de internet corresponde totalmente ao valor que paga mensalmente.”
Mesmo no segmento de clientes que subscrevem planos de velocidade igual ou superior a 500 Mbps (megabits por segundo), cerca de 23% dos inquiridos relata sofrer interrupções na ligação - descritas como paragens temporárias, lentidão (lag) ou quebras abruptas de sinal - pelo menos uma vez por semana. No total geral da amostra de utilizadores de internet, a taxa de perturbações semanais fixa-se nos 22%, com 7% a reportar falhas diárias.
A análise comparativa destes dados expõe um aparente paradoxo: o investimento num pacote de internet mais rápida não tem um impacto real na redução das perturbações da ligação. E mesmo quem aumenta não vê grandes melhorias. Se na média geral da amostra a taxa de falhas diárias se situa nos 7%, no segmento restrito aos utilizadores com ligações de alto débito (iguais ou superiores a 500Mbps) este indicador recua apenas para os 6% - uma variação de apenas um ponto percentual. Em sentido inverso, a frequência de falhas semanais é ligeiramente superior no patamar de alta velocidade, registando 17% face aos 15% observados na amostra global.
Estes números demonstram que as queixas se mantêm praticamente inalteradas (oscilando apenas entre 1 a 2 pontos percentuais), independentemente do tarifário contratado. O estudo indica ainda que, para os utilizadores que decidiram aumentar a velocidade contratada na expectativa de erradicar as quebras de sinal, os resultados práticos foram limitados: cerca de 13% dos inquiridos que realizaram o upgrade, reporta que os problemas de instabilidade, bloqueios ou paragens temporárias continuaram a registar-se exatamente com a mesma frequência ou não apresentaram qualquer melhoria face à ligação anterior.
Maioria dos utilizadores com problemas
Os sintomas associados a estas quebras de desempenho foram detalhados pelos inquiridos no âmbito do estudo. Nos sete dias anteriores à aplicação do questionário, 51% dos utilizadores deparou-se com páginas web ou aplicações que demoravam demasiado tempo a carregar, enquanto 46% identificou microcortes de ligação com a duração de alguns segundos. Adicionalmente, 36% dos portugueses registou dificuldades na visualização de streaming de vídeo e 33% identificou o congelamento de imagem ou áudio durante videochamadas de cariz pessoal, profissional ou letivo.
A análise das motivações dos consumidores portugueses revela que, ao ponderar a migração para um plano de fibra ótica mais rápido, a velocidade nominal de download já não é o principal fator de decisão. O mesmo porta-voz salienta que: “Cerca de 53% dos utilizadores prioriza a obtenção de uma ligação mais estável, e 51% procura um melhor desempenho face à ligação simultânea de múltiplos dispositivos na mesma habitação. A rapidez nos downloads surge em terceiro lugar nas prioridades, com 42% das respostas. Há uma preferência mensurável pela estabilidade técnica em detrimento da velocidade bruta.”
A pressão na infraestrutura de dados
Durante a apresentação pública das conclusões do estudo, Ivo Ivanov recorreu a uma analogia hidráulica para ilustrar o funcionamento físico do transporte de dados: “Se instalarmos um cano com um diâmetro superior na nossa habitação, isso não se traduzirá num maior fluxo de água caso o sistema de abastecimento não possua pressão. Na nossa indústria, essa ‘pressão’ corresponde à latência, ao encaminhamento de dados (routing) e ao desempenho geral das interligações de rede.”
O executivo apontou que o debate público e as campanhas comerciais se focaram historicamente na largura de banda como métrica principal, premissa que se revela insuficiente face ao tipo de tráfego atual. À medida que a utilização da internet migra para serviços que operam em tempo real, fatores físicos como a latência - o tempo necessário para que um pacote de dados viaje do dispositivo do utilizador ao servidor de destino e regresse - assumem um papel determinante na estabilidade da experiência digital.
45% dos inquiridos ficaram surpreendidos
Os dados do estudo indicam que existe um desconhecimento generalizado por parte dos utilizadores relativamente à infraestrutura física da internet. Cerca de 45% dos inquiridos manifestou surpresa ao saber que os atrasos na transmissão de dados dependem do percurso geográfico que a informação percorre nas redes globais de telecomunicações, e não da velocidade máxima contratada ao operador.
Atualmente, quando confrontados com falhas de conectividade, os utilizadores portugueses atribuem a responsabilidade maioritariamente aos prestadores de serviços de internet (ISP), 39%, ou ao congestionamento geral da infraestrutura (28%).
No entanto, análises técnicas indicam que as falhas de estabilidade decorrem frequentemente da ausência de pontos de interligação direta (peering) localizados entre os operadores de telecomunicações e as plataformas fornecedoras de conteúdos.
Neste âmbito, as infraestruturas de interconexão neutral, como a DE-CIX, visam mitigar o problema do encaminhamento indireto.
Ao disponibilizar uma plataforma física local em Lisboa, a operadora fundada na Alemanha permite a troca direta de dados entre operadores nacionais e produtores de conteúdos globais (como serviços de streaming e redes de computação em nuvem), evitando que o tráfego dos utilizadores portugueses necessite de viajar para pontos de interconexão na Europa Central antes de retornar a Portugal.

