Os espanhóis que querem ser “mais portugueses” e trocaram o ‘jámon’ por bacalhau chegam aos 81 supermercados este ano
Fábio Poço/Global Imagens

Os espanhóis que querem ser “mais portugueses” e trocaram o ‘jámon’ por bacalhau chegam aos 81 supermercados este ano

Depois de abrir a segunda loja na capital em fevereiro, a Mercadona prepara a entrada em quatro novos distritos este ano com a inauguração de mais 11 espaços. Estreia no Algarve está prevista para a segunda metade de 2026 em dose dupla.
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À primeira vista, há apenas uma fronteira que separa Portugal de Espanha. A proximidade entre os dois países vizinhos e a semelhança na sonoridade da língua validam oficiosamente o grau de parentesco com “nuestros hermanos”. A relação de familiaridade parece linear, mas as divergências culturais entre as duas geografias foram colocadas a nu quando Juan Roig, presidente da Mercadona, decidiu expandir a operação para terras lusas.

Há meia dúzia de anos, a cadeia de supermercados fez as malas, empacotou o modelo de negócio e percorreu os cerca de 900 quilómetros que separam Valência do Canidelo. Depois de quatro décadas a liderar o mercado espanhol do retalho alimentar, a empresa familiar, que nasceu no município de Espanha, instalou-se na freguesia de Vila Nova de Gaia.

O salto de fé na internacionalização materializou-se no dia 2 de julho de 2019 com a abertura do primeiro supermercado em Portugal. Foi nos três anos que antecederam a inauguração que Roig percebeu que, dentro de casa, os irmãos são, afinal, filhos de pais diferentes. Em Matosinhos nasceu o primeiro centro de coinovação da empresa no país, uma espécie de laboratório onde os hábitos dos portugueses foram dissecados à lupa.

O empresário septuagenário seguiu à risca a premissa do ditado que diz “em Roma sê romano”, e, em Portugal, o objetivo era ser português. O fundador da Mercadona já sabia que, por aqui, o bacalhau retira protagonismo ao 'jamón' e que carecia de uma análise mais minuciosa para convencer os ‘chefes’ - desígnio que a empresa atribui aos clientes - a encher o carrinho.

No espaço com mais de mil metros quadrados localizado no distrito do Porto, afinou-se a oferta aos hábitos locais: ajustaram-se sabores e intensidades e redefiniram-se embalagens à medida do olho de quem por aqui compra. O nível de preciosismo estendeu-se à cor dos panos de limpar o pó - em Espanha são brancos e em Portugal cor de laranja.

Os acertos do sortido são um trabalho em permanência e, uma década depois de anunciar a entrada em Portugal, Roig ainda se sente estrangeiro. “Precisamos de ser mais portugueses, conhecer melhor a realidade do país e dos fornecedores, mas ainda nos falta muitíssimo”, admitiu o principal acionista da cadeia de distribuição espanhola esta semana, durante a apresentação dos resultados anuais do grupo.

Mercadona abre 12 lojas este ano e chega ao Algarve

A entrada no país fez-se pelo topo do mapa nacional, e não foi arbitrária. Contra centralismos, ou não fosse o berço da Mercadona em Espanha descentralizado das grandes cidades, também em Portugal a capital ficou para segundo plano. Porto, Braga e Aveiro foram os distritos a albergar as primeiras 10 lojas da insígnia espanhola e o plano de expansão traçou-se com o objetivo de ir descendo pelo território português.

Lisboa teve de esperar na fila cinco anos e ver abrir 68 supermercados até estrear a primeira loja da marca, que inaugurou no ano passado. O hiato deu à capital uma recompensa em dose dupla que, no início de 2026, recebeu o segundo espaço.

O projeto de desenvolvimento desenhado até dezembro, e que contempla um investimento de 150 milhões de euros, prevê elevar a presença da Mercadona para 16 distritos, com a entrada no Algarve, Beja, Castelo Branco e Vila Real.

A grande novidade nos próximos meses é a chegada ao sul do país com a abertura de um supermercado em Portimão, no Nova Vila Retail Park, e o outro em Faro, em Vale da Amoreira, previstos para a segunda metade do ano. A expansão contempla ainda as cidades de Amarante, Beja, Covilhã, Esposende, Maia, Moita, Sintra, Vila Real e Viseu.

Desde que chegou a Portugal, o grupo espanhol, que emprega atualmente 7500 trabalhadores no país, investiu 1.230 milhões de euros, mas só há dois anos é que começou a ganhar dinheiro.

Depois dos prejuízos consecutivos - que em 2022 se cifraram nos 50 milhões de euros -a retalhista atingiu lucros de sete milhões de euros em 2024 e, no ano passado, mais do que os triplicou para os 26 milhões de euros. O objetivo para este ano é duplicar os resultados e atingir um resultado líquido de 50 milhões de euros.

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