Termina esta quarta-feira o prazo de consulta pública sobre o projeto preliminar do Parque Eólico das Cachenas, da Galp, em Sines. Pela sua dimensão e, sobretudo, pela localização em área sensível, o projeto que visa fornecer energia à produção de hidrogénio verde na zona industrial de Sines, está a levantar preocupações ambientais. E vai contar com o parecer negativo da ZERO, segundo o DN apurou junto da organização ambientalista.“Tendo em consideração a não alteração dos pressupostos do projeto que resultam em impactes ambientais significativos e que colocam em causa a integridade da Rede Natura, a ZERO considera que não estão reunidas as condições para que este projeto seja aprovado e, deste modo, emite parecer desfavorável à conformidade do projeto de execução”, disse Ricardo Filipe ao DN. O parecer não é vinculativo, mas a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), cuja pronúncia é vinculativa, poderá ainda colocar reservas. O DN contactou a entidade, mas não foi possível obter uma resposta em tempo útil sobre quando e como se pronunciará, embora esta fase seja ainda prévia à avaliação de impacto ambiental.Em causa está a instalação de 19 aerogeradores, nas gamas mais potentes que existem, com 6,8MW de potência unitária, isto é, cerca de 200 metros de altura a contar com as pás. “Este tipo de aerogeradores é mas eficiente por unidade de área ocupada e portanto produz mais energia renovável por aerogerador, no entanto também aumentam os riscos de colisão com aves, o ruído e os impactos da construção”, explica Ricardo Filipe. O principal ponto da ZERO contra este projeto, que se encontra numa fase embrionária de Proposta de Definição de Âmbito, é muito semelhante aos pontos levantados nos parques eólicos de Arcos de Valdevez e no Parque Eólico de Silves, comunicados em maio de 2025. Ou seja, “não se deve desenvolver projetos, que artificializarão o solo e trazem impactes ambientais em áreas dedicadas à conservação da natureza”.Com efeito, um estudo de 2024 do Grupo de Trabalho para a definição das Áreas de Aceleração de Energias Renováveis baseando-se em estudos do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), “indica claramente que existem áreas menos sensíveis suficientes para atingir objetivos de neutralidade” . O levantamento do LNEG indicou para Portugal um potencial total de 15,7 GW para a produção de energia éolica onshore e 36 GW offshore.Segundo a ZERO, “este projeto encontra-se na sua totalidade sobreposto à Zona Especial de Conservação (ZEC) da Costa Sudoeste, colocando em causa habitats naturais e seminaturais de conservação, e a Linha elétrica de muito alta tensão também se sobrepõe a áreas muito críticas para aves aquáticas e aves de rapina”. Portugal, no contexto do regulamento europeu para o Restauro da Natureza, tem a obrigação de restaurar o estado de conservação de 30% do seu território e que “tem, uma área artificializada e uma área fora de zonas de potencial conflito mais que suficientes para permitir que explorações energéticas, solar e eólica, atinjam os objetivos de neutralidade carbónica para 2045”. Por isso, a ZERO reforça que “não faz qualquer sentido as autoridades ambientais permitirem a artificialização de espaços classificados para instalação de parques eólicos”. A organização aponta ainda a “omissão gravíssima” de o projeto da Galp dar a ideia de não estar situado em zonas classificadas, ignorando a Zona Especial de Conservação (ZEC).Segundo o projeto da Galp, no documento de Proposta de Definição de Âmbito, em causa está uma unidade de produção para autoconsumo que tem como objetivo o fornecimento de energia elétrica renovável para a produção e armazenamento de hidrogénio verde no GalpH2Park, situado numa área adjacente à refinaria e pertencente à Zona Industrial e Logística de Sines. Atualmente está em construção a 1ª fase (eletrolisador com uma capacidade total de 100MW) do GalpH2Park. O objetivo é aumentar a capacidade instalada de eletrolise até 2030, estando-se neste momento também a desenvolver estudos de engenheira para segunda fase. Apoiado pelo PRR e com interesse nacional, obteve também o estatuto PIN e está a ser avaliada a possibilidade de ligação direta de projetos de energias renováveis (solar e eólica).Na perspetiva da operadora, “considerando a articulação das diferentes áreas de negócio do Grupo Galp, a ligação direta através do parque eólico em questão é a sinergia natural numa empresa integrada de energia e comprometida com a transição energética nacional”. Com uma capacidade total instalada de cerca 129,2 MW, “o parque eólico apresentará uma produção anual estimada de 308 GWh/ano, com importante contributo na produção de hidrogénio verde e sua incorporação em vários setores de atividade, constituindo um claro contributo à descarbonização da economia”. E está enquadrado na Estratégia Nacional para o Hidrogénio e no Plano Nacional de Energia e Clima que definem uma capacidade instalada de 5,5 GW em eletrolisadores até 2030, para incorporação de hidrogénio verde em vários setores da economia, como a indústria (2-5% do consumo de energia), transporte rodoviário (1-5%), transporte marítimo (3-5%) e uma injeção nas redes de gás natural (10-15%).A companhia refere, no documento, que o projeto foi já objeto de um estudo de grandes condicionantes ambientais e diz que a localização dos aerogeradores agora apresentada foi ajustada, tendo em consideração o recurso eólico na zona, a disponibilidade de terrenos contratados para o efeito e de forma a tentar minimizar o impacto ambiental nas suas várias dimensões. Questionada sobre as alegações da ZERO, “a Galp não tem comentários a fazer nesta fase preliminar do processo, anterior ao estudo de impacto ambiental”, disse fonte oficial.