

Com 90% da produção mundial de calçado concentrada na Ásia, a indústria portuguesa está a concluir um investimento de 100 milhões de euros em sustentabilidade, digitalização, inteligência artificial e novas tecnologias para assumir Portugal como alternativa industrial de referência.
O presidente da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) explica que “a estratégia portuguesa passa por reforçar um modelo alternativo baseado na inovação, sustentabilidade, flexibilidade, proximidade aos mercados e produção de maior valor acrescentado”.
“Os 74 milhões de pares produzidos em 2025 e o excedente comercial próximo de 1.000 milhões de dólares demonstram que existe uma base industrial sólida e competitiva. Esta capacidade não surgiu por acaso: é resultado de décadas de investimento e de uma aposta permanente na modernização”, afirma Luís Onofre em declarações no âmbito das feiras Micam, Lineapelle e Simac, que decorrem esta semana em Milão, Itália, com a participação de 71 empresas portuguesas.
O diretor executivo, Paulo Gonçalves, salienta que “será necessário continuar a investir em inovação, sustentabilidade, qualificação e promoção externa para defender o espaço conquistado”.
"O setor opera sob intensa pressão: os conflitos armados na Ucrânia e no Oriente Médio continuam a afetar a cadeia de valor da moda, reduzindo significativamente o acesso a mercados de luxo que tradicionalmente foram importantes para as empresas portuguesas”, explica. Uma situação, acrescenta, “agravada por interrupções logísticas, especialmente no estreito de Ormuz, que estão a penalizar fortemente a atividade económica e a contribuir para custos mais altos".
Neste contexto difícil, a APICCAPS nota que a indústria portuguesa tem vindo a reinventar-se, diversificando as suas categorias de materiais e produtos.
O peso do calçado de couro nas exportações caiu de 69% há três anos para 58%, enquanto o peso dos produtos de borracha e plástico aumentou de 13% para 21% e a dos produtos têxteis de 8% para 12%. No calçado impermeável, Portugal já ocupa o 5.º lugar entre os maiores exportadores mundiais, com uma participação de 3,4% e vendas de 55 milhões de dólares (cerca de 47,2 milhões de euros).
Ao mesmo tempo, a indústria portuguesa tem vindo a distanciar-se da espanhola na vertente produtiva, ao fabricar mais 14 milhões de pares do que a sua concorrente direta, que em 2025 produziu 60 milhões de pares, exportou 164 milhões e importou 365 milhões, apresentando um défice comercial superior a 2.000 milhões de dólares.
Números que, sublinha a associação setorial portuguesa, “evidenciam o peso crescente das importações e reexportações espanholas, enquanto Portugal preserva uma base industrial mais forte e uma balança comercial positiva”.
De acordo com dados do World Footwear Yearbook 2026, a produção mundial de calçado manteve-se praticamente inalterada em 2025, aumentando apenas 0,1% para 24.600 milhões de pares, com a Ásia a responder por 88,7% do total, a Europa a perder quota e Portugal como 18.º maior produtor.
A Europa “assume um papel cada vez mais secundário”, com apenas 2,1% da produção mundial, atrás da América do Sul, com 4,5%, e de África, com 3,3%. Ainda assim, nota a associação, “o continente europeu conserva relevância nos segmentos de maior valor acrescentado e nas redes internacionais de distribuição”.
“A Europa não pode abdicar da sua indústria nem aceitar que a sua produção seja progressivamente substituída por importações. Precisamos de uma estratégia europeia que combine abertura ao comércio com reciprocidade, condições de concorrência equilibradas e defesa da capacidade produtiva”, sustenta, enfatizando que “o futuro da indústria europeia depende também da capacidade da Europa de defender os seus direitos no comércio internacional”.
O presidente da APICCAPS considera ainda que a posição de Portugal demonstra a importância de preservar uma indústria orientada para segmentos de maior valor acrescentado.
“A nossa indústria tem mostrado capacidade para competir pela qualidade, pelo ‘design’, pela inovação e pela sustentabilidade. É precisamente essa capacidade que temos de continuar a reforçar, enquanto esperamos da Europa uma política comercial que não coloque as empresas europeias em desvantagem”, remata.
Para a APICCAPS, o encerramento, no final deste ano, do ciclo de investimento marcado pelos projetos BioShoes4Al e FAIST - Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica, “não representa, por isso, um ponto de chegada”.
“Investir mais de 100 milhões de euros é importante, mas o verdadeiro desafio começa agora: transformar todo este conhecimento, tecnologia e capacidade instalada em novos produtos, novas empresas mais competitivas, mais exportações e maior valor criado em Portugal”, defende Luís Onofre.
O dirigente empresarial destaca que “o próprio BioShoes4All procurou demonstrar que é possível reforçar cadeias de valor estratégicas, reduzir dependências externas e recuperar capacidade industrial na Europa”.
“Estamos a fechar o maior ciclo de investimento da história do setor com uma convicção reforçada: o melhor da indústria portuguesa do calçado ainda está para vir”, enfatiza.
*Com Lusa