

A capacidade das famílias portuguesas para honrarem os seus compromissos financeiros dentro do prazo sofreu uma deterioração significativa no último ano. Segundo o mais recente relatório European Consumer Payment Report (ECPR) 2025, publicado pela Intrum, a percentagem de consumidores que afirma pagar todas as faturas a tempo caiu de 85, em 2024 para apenas 77% em 2025. Este recuo de oito pontos percentuais sinaliza uma rutura na resiliência financeira e sugere que a "almofada" de capital das famílias portuguesas se esgotou perante um cenário onde o aumento do custo de vida e o estancamento dos salários asfixiam os orçamentos domésticos.
O estudo, divulgado no âmbito do Dia Mundial do Consumidor, destaca um dado preocupante sobre a gestão de liquidez: 46% dos portugueses admitem ter utilizado o cartão de crédito nos últimos seis meses para pagar contas correntes ou despesas básicas. Este recurso ao crédito deixou de ser uma opção para consumos extraordinários, passando a funcionar como uma extensão do salário para garantir a sobrevivência diária.
Luís Salvaterra, diretor-geral da Intrum Portugal, sublinha que os dados mostram uma "pressão significativa", notando que mesmo os consumidores que habitualmente cumprem os prazos "enfrentam cada vez mais desafios para gerir despesas inesperadas".
A análise da Intrum identifica o que se pode designar como o "Triângulo das Bermudas" do endividamento, revelando que as causas para as dívidas não resultam de uma má gestão ou de luxos, mas sim da pressão asfixiante sobre as necessidades básicas. Neste cenário, o aumento do custo de vida surge como o principal vilão para 50% dos inquiridos, focando-se sobretudo na alimentação e na energia. A este fator somam-se os imprevistos, como emergências médicas ou familiares, que afetam 43% das famílias, e o estancamento dos salários para 34% da população, cujo rendimento simplesmente não esticou o suficiente para acompanhar a inflação.
A falta de liquidez no momento do pagamento é a razão dada por 40% dos que se atrasam, embora 27% também apontem o "esquecimento" como fator — um sintoma que especialistas muitas vezes associam ao stress mental provocado pela precariedade financeira e pela dificuldade em gerir orçamentos no limite.
No plano geracional, as diferenças são marcantes. A Geração X, com 74% de respostas, afirma-se como a faixa etária mais fustigada pela inflação e pelo aumento do custo de vida. No entanto, é a Geração Z que demonstra a maior fragilidade de tesouraria e falta de liquidez imediata: 59% dos jovens admitem que qualquer custo inesperado é hoje suficiente para os colocar numa situação de incumprimento.
O estudo da Intrum, empresa líder europeia no setor de serviços de gestão de crédito, com presença em 20 mercados, demonstra que a pressão financeira não é sentida da mesma forma em todo o território nacional. Nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, a queixa sobre o custo de vida atinge o pico nacional, afetando 71% dos consumidores. Em contraste, o Alentejo revela-se como a zona mais vulnerável a imprevistos, com 82% dos inquiridos a apontarem despesas inesperadas como causa direta de dívida, enquanto na Área Metropolitana de Lisboa a principal frustração reside no desfasamento entre salários e o custo de vida, uma realidade para 56% dos consumidores locais.