

A redução que se estima nas pensões, nos próximos anos, leva os jovens a tomarem mais cautelas do que as gerações mais velhas. De qualquer forma, a preocupação é transversal às gerações e 52% dos portugueses já fazem a previsão de que vão continuar a trabalhar após chegarem à idade da reforma.
Destes, metade (26%) consideram trabalhar a tempo inteiro e os restantes a tempo parcial.
Os dados fazem parte das conclusões que resultam de um estudo realizado pelo Doutor Finanças e que contou com 700 entrevistas. Intitulado "Preparar a reforma num país que envelhece", tem por mote a redução das pensões que está prevista para os próximos anos. É que, de acordo com o relatório Ageing Report 2024, da Comissão Europeia, a pensão média em Portugal deverá equivaler a 38,5% do último ordenado, em 2050, se nada mudar no sistema da Segurança Social (atualmente ronda os 68% do salário mediano para a população entre 55 e 64 anos).
Neste contexto, o estudo visa ajudar a perceber de que forma os portugueses perspetivam a idade da reforma e como estão a preparar aquela fase. Ora, quando a pergunta é se os inquiridos confiam que a pensão pública será suficiente para manter o nível de vida, 55% respondem que não (33% dos inquiridos são mulheres nesta situação e 25% são homens). São 30% os que respondem "parcialmente" (14% mulheres e 16% homens) e apenas 13% dizem que sim, com maior confiança entre os homens (peso de 9% sobre o total, contra 4% de mulheres).
Torna-se, por isso, claro que os portugueses já compreendem que vão ter dificuldades, naquela fase da vida. O estado de alerta, a este respeito, é particularmente notório entre os jovens dos 25 aos 35 anos. Nesta faixa etária, 70% acreditam que a pensão pública não será suficiente, ao passo que 60% discordam da ideia de adiar o tema.
O DN/DV esteve à conversa com um dos porta-vozes do estudo. Sérgio Cardoso é Chief Education Officer do Doutor Finanças e explica que "os jovens assumem que isto pode ser um problema e que não podem adiar", sublinha.
Sobre sentimentos quando se pensa na idade da reforma, quase metade salientam "medo" ou "ansiedade" (49%), com especial incidência entre as mulheres. Em contrapartida, apenas um terço referem "confiança" (32%) e ainda menos (15%) falam de "liberdade", ambos com maior peso entre os homens.
Questionados sobre qual a primeira palavra que associam à reforma, são 38% os que mencionam "incerteza", ao passo que 35% referem "descanso". Ora, no que respeita às maiores preocupações, quatro em cada cinco respondentes apontam a Saúde como o maior fator (mencionado por 88% dos inquiridos). Seguem-se a dependência de familiares (30%), perda de rendimento (29%) e os custos da habitação (23%).
Assim sendo, num cenário em que se deparassem com uma reforma equivalente a 65% do rendimento médio atual do agregado familiar, metade dos inquiridos (54%) admite que teria dificuldades sérias, seja na manutenção do nível de vida (32%) ou na cobertura de despesas essenciais (22%).
Não obstante, 32% antecipam que fazer alguns ajustes seria suficiente para se adaptarem, a que acrescem 9% que reiteram que sentiriam conforto nesta situação. Significa isto que a segurança financeira é visível numa pequena fatia da população. De resto, os sinais negativos ficam são mais notórios no sexo feminino.
Entre os inquiridos, 18% são mulheres que estimam não conseguir manter o estilo de vida e 13% reconhecem que terão dificuldades em cobrir despesas essenciais (15% e 9%, respetivamente, entre os homens). Ora, o sexo masculino está mais presente do lado da confiança, na medida em que 18% do total de inquiridos são homens que anteveem fazer alguns ajustes de forma a se adaptarem, ao passo que 5% se mostram confortáveis (14% e 4%, respetivamente, entre as mulheres).
Dito isto, "os portugueses já perceberam que vão ter dificuldades quando chegarem à fase da reforma, mas ainda não começaram a agir sobre o problema", explica o responsável. Uma tendência evidenciada pelos dados, pela falta de um planeamento financeiro a longo prazo. Isto porque 73% não sabem quanto precisam de acumular para manterem o nível de vida após a reforma. Ao mesmo tempo, 65% nunca simularam o valor da reforma.
A sociedade portuguesa continua a poupar de forma insuficiente e a principal razão apontada é a falta de rendimentos (52%). No que diz respeito a produtos de poupança, "os portugueses são investidores muito conservadores", lembra. Algo que resulta, em parte, da falta de literacia financeira em Portugal, que se concretiza na procura do público por "produtos que conheçam e com os quais estejam confortáveis", como é o caso dos depósitos a prazo, Planos de Poupança e Reforma e certificados de aforro, que são produtos com retornos reduzidos, mas garantidos.
Assim sendo, este grupo tem 30% de procura, seguido pelos depósitos e poupanças simples (27%). Um em cada quatro respondentes não investe em instrumentos de poupança (26%). Com um menor grau de interesse surgem os investimentos em imobiliário e na bolsa (17% cada), comprovando a conhecida aversão ao risco dos investidores nacionais.
O estudo resulta de 700 entrevistas e a margem de erro é de 4%, para um nível de confiança de 95%.