

Os Açores ganharam uma posição ímpar no turismo, com a atração paulatina de visitantes ao longo dos últimos anos. Mas essa conquista foi alvo de um recente abalo – o fim da operação da Ryanair, que nem a anunciada intenção da Azores Airlines (antiga SATA Internacional) e da TAP em reforçar o número de voos minimiza. As ligações aéreas voltaram a evidenciar que são o calcanhar de Aquiles da região autónoma. Como sublinha Nuno Leandro, recém empossado presidente da VisitAzores, "o turismo nos Açores só pode resistir e prosperar se for alicerçado em verdadeiras e credíveis acessibilidades aéreas".
Na sua opinião, "é imperativo que as ligações aéreas deixem de ser um foco de incerteza para passarem a ser o garante da nossa competitividade, assegurando não apenas voos regulares e preços competitivos, mas uma previsibilidade total ao longo de todo o ano". Esta estabilidade é essencial para "conseguiremos combater eficazmente a sazonalidade e dar a confiança necessária tanto ao mercado como aos operadores locais, defende o presidente da VisitAzores. O arquipélago soma ainda a incerteza da privatização da Azores Airlines, antiga SATA Internacional.
O turismo é hoje "absolutamente central na economia dos Açores, afirmando-se como um dos principais motores de crescimento, criação de emprego e dinamização do tecido empresarial regional", aponta Nuno Leandro. Segundo o Serviço Regional de Estatística dos Açores, os estabelecimentos de alojamento turístico registaram-se 4,5 milhões de dormidas no ano passado (dados preliminares), um aumento de 4,5% face a 2024. O número de hóspedes atingiu os 1,4 milhões, mais 3,7%, e a estada média anual situou-se nas 3,32 noites. No ano passado, os proveitos totais da hotelaria e turismo no espaço rural ultrapassaram os 228 milhões de euros, o que representa um acréscimo de 10,3% quando comparado com 2024.
Como afirma Nuno Leandro, a região tem consolidado nos últimos anos "o seu posicionamento como um destino de natureza e sustentabilidade, conseguindo atrair uma procura cada vez mais qualificada e alinhada com a autenticidade do nosso território". O crescimento dessa posição exige resolver o problema da conetividade, que "continua a ser o fator mais crítico e o verdadeiro 'tendão de Aquiles' da nossa operação turística", sublinha. Na sua opinião, há também que notar que "as oscilações e o aumento da procura turística colocam pressão sobre a capacidade instalada, nomeadamente ao nível do alojamento e dos serviços". Ora, isto "exige um investimento contínuo e qualificado na hotelaria, que deve ser pensado a longo prazo e estar sempre alinhado com os princípios de sustentabilidade e valorização do território", advoga.
O atual contexto internacional está também a preocupar os agentes do setor nos Açores. "Os indicadores mais recentes do turismo apresentam sinais de abrandamento e ajustamento", cenário que reflete "um contexto macroeconómico e geopolítico marcado por uma profunda instabilidade internacional", observa Nuno Leandro. O aumento do custo de vida e o clima de incerteza provocado pelas tensões internacionais afetam "a disposição psicológica para o lazer e as viagens de médio/longo curso". No entanto, os Açores não perderam os seus atributos e podem capitalizar o interesse crescente por destinos vistos como portos-seguros, sustentáveis e sem multidões, enumera o responsável.
Há também a sublinhar a importância dos setores da agricultura e das pescas na economia do arquipélago. O Serviço Regional de Estatística dos Açores revela que, no ano passado, verificou-se um aumento de 1,3% no peso da saída de carne bovina para o exterior face a 2024 e uma variação anual positiva de 1,2% no número de animais. O número de cabeças de gado vivo saído da região apresentou um aumento de 195% (quase o triplo). Já o volume de conservas e preparados de peixe que saiu no ano passado da região aumentou 42,6% e em valor apresentou um incremento de 3,4%.
O relevo das Lajes
O atual quadro beligerante no Médio Oriente tem elevado a posição geoestratégica dos Açores. A Base das Lajes, na iha Terceira, ganhou uma nova importância junto dos EUA, que se estão a servir da sua privilegiada localização para apoio logístico e operacional, nomeadamente reabastecimento de aeronaves que se dirigem para área do conflito. Também estão a olhar para a infraestrutura militar como ponto fulcral para missões de vigilância no Atlântico Norte. Para Ana Miguel dos Santos, partner da Deloitte e especialista em Defesa e Segurança (e uma das oradoras da conferência de hoje, promovida pelo DN, em Ponta Delgada), esta renovada importância das Lajes é altamente benéfica para Portugal.
A Base das Lajes "é sem dúvida um ativo estratégico para Portugal", que o país pode capitalizar, diz Ana Miguel dos Santos. Na sua opinião, a utilização das Lajes pelos norte-americanos é uma garantia de segurança. Portugal "pode beneficiar do chapéu securitário dos EUA e evitar potenciais problemas maiores". Também ganhou "vantagem em relação a Espanha [que recusou a utilização das suas bases militares pelos norte-americanos no conflito do Médio Oriente]", o que permite "reforçar as ligações bilaterais com os EUA", diz.
Segundo defende, esta guerra trouxe "uma reconfiguração das alianças e Portugal pode ganhar um novo posicionamento junto dos EUA". A especialista vê possibilidades de um reforço do investimento americano nas Lajes, mas também potencial da infraestrutura em atrair missões secundárias para a região e de servir de apoio para o combate à pirataria em África. Como sublinha, o relevo das Lajes não é só militar, mas também vigilância de comunicações, tendo em conta os inúmeros cabos submarinos que ligam os dois lados do Atlântico Norte. E diz em jeito de conclusão: "Neste momento estamos numa posição estratégica confortável. É a hora de tirar proveito disso".