Um engenheiro pega na maçã. Irá John Ternus devolver a ‘alma’ à Apple?

O sucessor de Tim Cook tem historial virado para o 'hardware', personalidade focada na sua privacidade e carreira pautada pela eficiência. Características a fazer lembrar o visionário Steve Jobs
John Ternus na apresentação do Macbook Neo, em março, o portátil mais barato da Apple
John Ternus na apresentação do Macbook Neo, em março, o portátil mais barato da Apple FOTO: Sarah Yenesel / EPA
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A data da transição está marcada: a 1 de setembro deste ano, Tim Cook deixará a cadeira de CEO da Apple e nela sentar-se-á John Ternus. Para os investidores, a mudança representa, esperam, a continuidade de uma era de lucros recorde, assegurados pela estabilidade institucional: Cook mantém-se como presidente executivo (Executive Chairman) e Ternus é da casa — trabalha na empresa há 25 anos.

Mas para os puristas e críticos — ainda esta semana a revista The Atlantic titulava "Apple Is Boring Now" (a Apple agora é aborrecida) — a escolha de Ternus é um sinal de que a empresa estará pronta para deixar de ser apenas a máquina de otimização financeira que se tornou com Cook e voltar a ser uma empresa de produtos de vanguarda que o mítico fundador Steve Jobs a tornou.

E não é só por o novo futuro CEO ter uma carreira fulgurante na empresa da maçã: ao longo deste quarto de século trabalhou diretamente no iPad, iPhone e AirPods, passou de engenheiro de design de produto a vice-presidente sénior de Engenharia de Hardware, em 2021.

Um "fantasma digital" com instinto de rali

O que mais salta à vista em John Ternus não é o que ele diz, mas o seu silêncio. No ecossistema de Silicon Valley, onde os CEO cultivam marcas pessoais exuberantes e discutem tendências em tempo real, no perfil de Ternus no LinkedIn encontramos… nada. Zero de posts públicos.

Este "vazio digital" não é um descuido: é uma característica intrínseca. Ternus é, nas palavras de quem com ele trabalha, um "engenheiro puro", alguém que prefere a precisão do laboratório à luz dos holofotes das redes sociais.

Ternus é, nas palavras de quem com ele trabalha, um “engenheiro puro”, alguém que prefere a precisão do laboratório à luz dos holofotes das redes sociais

O seu silêncio mediático esconde, segundo os media internacionais, uma personalidade privada intensamente dinâmica e competitiva. A mesma pessoa que nada “posta” leva equipas de engenharia para pistas de rali e foi capitão de natação competitiva na universidade.

Esta dualidade sugere uma liderança que valoriza a performance real e a disciplina física acima da perceção pública. É uma característica que, embora subtil, o aproxima mais da obsessão técnica e do secretismo de Steve Jobs do que da diplomacia corporativa e focada em políticas ambientais, sociais e de governança de Tim Cook. A sua postura de "falar através do produto" poderá sinalizar um regresso à era em que a Apple surpreendia o mercado com lançamentos disruptivos em vez de seguir tendências validadas por algoritmos ou pelo “politicamente correto”.

O Fim da Era "Boring"?

É um facto que Cook transformou a Apple na empresa mais valiosa do mundo (ou na segunda ou terceira do ranking, depende dos dias) através de uma logística impecável, de uma cadeia de abastecimento infalível e da expansão agressiva de serviços. No entanto, muitos entusiastas sentem que a "magia" do hardware se perdeu em iterações incrementais — o iPhone 14, 15, 16 e 17 foram vistos por muitos como variações conservadoras do mesmo tema, focando-se em melhorias de câmara ou ligeiros ajustes de processamento, que não mudam a experiência do utilizador. Além disso, nunca mais houve aqueles momentos “já agora”, em que Jobs tirava da proverbial cartola (normalmente, do bolso) uma novidade que deixava a plateia boquiaberta.

Ternus, ao contrário de Cook (que veio da área das operações), construiu a sua carreira a desenhar produtos. Ele esteve no centro nevrálgico da transição para os chips M-series — o momento mais "Jobsiano" da Apple na última década, que permitiu aos Macs ultrapassar a concorrência em performance e eficiência.

Ao colocar um engenheiro de hardware no comando, a Apple parece estar a admitir que, na era da Inteligência Artificial e da computação espacial (incluída nos óculos Vision Pro), a vantagem competitiva não virá apenas do marketing ou dos ecossistemas de subscrição, mas da integração física e técnica radical. Ternus tem background para entender que o hardware não é apenas um contentor para o software, mas a própria alma da experiência Apple.

O desafio da IA: Gemini como o legado de Cook

Será então Ternus a pessoa certa para apontar a Apple a um estilo "Steve Jobs"? Este era um visionário autocrático que impunha a sua vontade ao mercado. Não era engenheiro, mas "vivia" nos laboratórios de design e engenharia. Tinha um instinto enorme para perceber o que o consumidor iria querer. Também tinha uma personalidade intempestiva e despedia equipas inteiras de um momento para o outro se considerasse que não estavam a responder às necessidades do projeto.

Já Ternus é descrito como "afável" e "colaborativo", no que é um contraste grande para Jobs. Mas o seu primeiro grande teste será a Inteligência Artificial, onde a Apple está a perder para toda a concorrência, pelo que o desafio é enorme. Mas aqui, o terreno já foi preparado por Tim Cook.

O ainda CEO deixa a Ternus um legado estratégico crucial: o acordo histórico com a Google que leva o motor de IA Gemini para dentro do ecossistema Apple.

Tim Cook deixa a Ternus um legado: o acordo com a Google que leva a IA Gemini para dentro do ecossistema Apple

Este acordo serve como uma "rede de segurança" imediata para que os utilizadores de iPhone não fiquem por muito mais tempo a ver a o resto do mundo deixá-los para trás, mas impõe a Ternus um dilema existencial. O novo CEO terá de provar não só que a Apple consegue acompanhar, mas passar a liderar a corrida da IA generativa

Não bastará ser um cliente da Google, é preciso criar hardware especializado (como o Neural Engine) e modelos próprios que protejam a privacidade enquanto oferecem uma utilidade única no ecossistema da maçã. Se Ternus conseguir transformar em tempo recorde a Siri de uma assistente limitada num motor de inteligência contextual que "simplesmente funciona" (It just works, o mote da marca), utilizando o Gemini como suporte mas mantendo a identidade Apple, terá vencido o seu maior desafio no sprint inicial.

O próximo CEO da Apple é um homem que prefere o silêncio do laboratório ao ruído da internet. O tempo dirá se isto é a receita de concentração necessária para devolver ao mercado um novo impulso de inovação. Mas nos tempos atuais o relógio da tecnologia corre mais depressa do que os outros, pelo que será melhor mesmo Ternus despachar-se.

Chris Espinosa está há 50 anos na Apple
Chris Espinosa está há 50 anos na Apple FOTO: DR / Creative Commons

Chris Espinosa: o único sobrevivente da “fase da garagem”

Ele é o funcionário número 8 e completa meio século na empresa, mantendo vivo o espírito de 1976 em plena era da Inteligência Artificial.

Enquanto a Apple se prepara para uma mudança histórica na liderança, um nome permanece como o elo final à fundação da empresa: Chris Espinosa. Contratado aos 14 anos, em 1976, por Steve Jobs e Steve Wozniak, Espinosa é o funcionário número 8 e o único da “era da garagem” que ainda trabalha em Cupertino.

Ao longo de 50 anos, Espinosa sobreviveu a todas as crises, demissões e reinvenções da marca. Começou a escrever manuais para o Apple II e, décadas depois, contribuiu para sistemas fundamentais como o AppleScript e o Xcode. Mais do que um engenheiro, ele é o "arquivo vivo" de uma cultura que nasceu da rebeldia tecnológica.

Numa altura em que a Apple é criticada por se tornar "previsível", a presença de Espinosa recorda que a inovação disruptiva está no ADN da casa. Para o novo CEO, John Ternus, Espinosa não é apenas um colega, mas a prova de que, apesar da escala global, a Apple ainda guarda as chaves da garagem onde tudo começou.

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