Warsh sucede Powell na Fed e terá de enfrentar Trump com inflação a acelerar

O novo responsável terá de lidar com uma combinação de dados complexa, com aumento dos preços da energia, um mercado de trabalho incerto e dúvidas sobre as mudanças nas tarifas comerciais.
Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para suceder a Jerome Powell na presidência da Reserva Federal, a partir de maio de 2026.
Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para suceder a Jerome Powell na presidência da Reserva Federal, a partir de maio de 2026.Foto: WILL OLIVER / EPA
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Kevin Warsh vai assumir a liderança da Reserva Federal dos EUA e já disse que quer uma "mudança de regime", mas terá de enfrentar a pressão de Trump para cortar juros, enquanto o conflito no Irão alimenta a inflação.

O responsável, cuja nomeação foi confirmada esta quarta-feira pelo Senado norte-americano, terá de lidar com uma combinação de dados complexa, com aumento dos preços da energia, um mercado de trabalho incerto e dúvidas sobre as mudanças nas tarifas comerciais.

Warsh foi confirmado numa votação maioritariamente partidária, por 54 votos contra 45, depois da sua nomeação ter sido colocada em dúvida nos últimos meses, após o senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte, ter dito que iria bloquear a nomeação enquanto o Departamento de Justiça investigasse o atual presidente da Fed, Jerome Powell, cujo mandato termina esta sexta-feira.

Um dos principais desafios de Warsh será a relação com o Presidente dos EUA, Donald Trump, que tem sido bastante vocal nas suas opiniões relativamente à Fed e a Powell, levantando preocupações no setor financeiro quanto à independência da instituição.

Warsh terá, no entanto, de equilibrar as exigências de Trump para um corte nos juros com a subida dos preços que se tem verificado na sequência da crise no Médio Oriente.

"O aumento acentuado nos preços dos combustíveis, provocado pelo conflito no Irão, cria desafios de curto prazo num ambiente onde tanto a inflação subjacente como a inflação geral no consumidor ultrapassaram a meta de 2% nos últimos cinco anos", sinaliza uma nota de análise do banco ING.

Para os analistas, Warsh "terá o cuidado de não parecer excessivamente cauteloso", o que "poderia aumentar os receios do mercado em relação a expectativas de inflação descontroladas, levando a custos de empréstimos de longo prazo mais elevados".

Warsh, de 56 anos, regressa à instituição 20 anos depois de dar os primeiros passos como banqueiro central, sendo que aos 35 anos foi nomeado o governador mais jovem da história.

Enquanto a oposição democrata o vê como um "fantoche de Trump", o responsável prometeu, durante a audiência de confirmação no Senado, "garantir que a condução da política monetária permaneça estritamente independente", acrescentando que o Presidente não lhe pediu para reduzir as taxas de juros.

Na audição, Warsh prometeu uma “mudança de regime” no banco central, que pode trazer mudanças nos modelos económicos, estratégias de comunicação e balanço da instituição.

O responsável defendeu cortes nos juros, como Trump exigiu, mas provavelmente terá mais dificuldade em implementá-los com a inflação acima de 3%, superior à meta de 2% da Fed.

Alguns governadores já vieram discordar da sugestão de que a Fed poderia reduzir as taxas diretoras, sendo que, historicamente, os presidentes dos bancos regionais da Fed têm sido mais propensos a discordar, enquanto os governadores sediados em Washington costumam apoiar o presidente.

As divergências podem reacender a tensão entre o Governo Trump e os presidentes dos bancos, que já foram criticados anteriormente por funcionários da Casa Branca.

Beth Ann Bovino, economista-chefe do US Bank, disse que as divergências demonstraram que os responsáveis da Fed são “muito independentes” e provavelmente manterão a taxa inalterada por mais alguns meses.

A analista tinha previsto um corte na taxa em dezembro, mas agora a incerteza aumentou, sendo que os investidores em Wall Street, em média, não esperam uma redução até ao próximo ano.

Jerome Powell sinalizou que se poderia continuar no conselho da Fed, enquanto governador, enquanto enfrentar ameaças políticas e legais, uma decisão que pode agravar as tensões com o Governo Trump e criaria o que alguns analistas chamam de cenário de “dois Papas”, com um presidente e um ex-presidente ambos no conselho da Fed.

Nesse caso, as divisões entre os formuladores de políticas poderiam aumentar, se alguns decidissem seguir a liderança de Powell em vez da de Warsh.

Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para suceder a Jerome Powell na presidência da Reserva Federal, a partir de maio de 2026.
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