Editorial | Xailes Negros

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No início da década de 90, a RTP Açores era um mimo. Séries importadas e documentários animados, o Herman colado sem pausa às vacas e paisagens da terra. A emissão era contínua, sem intervalos , sem alternativas. No Continente já tínhamos SIC e TVI, mas a televisão que entrava na casa dos meus avós em São Miguel era só uma. Foi com a RTP que descobri as ilhas: o Corvo, a Graciosa, as Flores, sítios que pareciam tão distantes, tão longínquos como Lisboa. Já passaram vinte anos, mas os Açores não mudaram assim tanto. Ainda continuam afastados pelo mar, à espera que lhes tragam as notícias. O mensageiro, soube-se ontem, pode deixar de ser a RTP. O novo modelo de serviço público - financeiro, austero, agressivo - corta em 2/3 as horas de emissão e reduz, radicalmente, a actual grelha de 30 programas. A futura televisão das ilhas terá menos oferta, mas o problema nem é o corte: é a demagogia que se gera à volta. A RTP nos Açores (conheço mal a Madeira) sempre fez, sempre foi, serviço público. Agora - sem verbas e com horário limitado - arrisca-se a ser apenas um serviço às benesses locais. É natural que, numa altura difícil, o Governo queira poupar dinheiro em Lisboa, recentrando a programação da RTP. Mas aplicar o mesmo modelo nas ilhas é um erro, sobretudo quando não há alternativas nacionais a uma televisão regional. Pior: por 24 cêntimos/dia, acho que os açorianos preferem ter uma televisão que é só sua.PS: Sobre os Xailes Negros: foi a primeira novela açoriana a correr Lisboa e a Escandinávia, mostrando as Sete Cidades no filme de Zeca Medeiros. Era miúdo quando os Xailes fizeram furor, mas consegui recordá-los aqui.

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