Educar com inteligência natural

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Lembro-me da altura em que não havia smartphones e só tínhamos acesso à internet através dos computadores. Antes disso, lembro-me da internet lenta, dos computadores serem escassos, pesados e parecidos com máquinas de secar roupa e de as pesquisas terem de ser feitas no papel. Lembro-me da minha existência sem acesso a computadores e de ter de ir às bibliotecas e arquivos consultar conteúdos para os estudos e pesquisas para trabalhos; lembro-me de tirar fotocópias e do barulho dos faxes a chegar. Na minha existência de décadas, passaram-se séculos.

Hoje, lê-se mais, há mais informação, mais competências e capacidade técnica, maior desenvolvimento em todas as áreas, acesso quase generalizado a quase tudo. Hoje dá menos trabalho aprender, saber, investigar, descobrir e inovar. Muito menos. É tudo mais rápido, intuitivo e simples. Transportem qualquer génio da nossa História para os tempos atuais e imaginem o que cada um teria feito com as ferramentas que hoje teria ao seu dispor. Só não sabe quem não quer saber e só não aprende quem não quer aprender.

Ao mesmo tempo, dizem, há soft skills e capacidades que se estão a perder - os nossos filhos, porque nós ainda estudámos sem computadores, à moda do século XIX. E quais são? Memória, concentração e competências sócio emocionais, como empatia, diálogo, gestão de conflitos e frustrações, adaptação à mudança e paciência. Não se espera por quase nada, existe cada vez menos interação humana nas famílias, no ensino e no trabalho e as gerações que aí vêm estão convictas de que tudo é possível sem esforço, sem tempo e sem trabalho. Não se aceita um não como resposta em nenhuma idade ou uma frustração como consequência natural da existência.

É a este mundo que chega o ChatGPT. Um mundo feito à sua imagem e que está ao nosso serviço. É uma ameaça à Humanidade, dizem alguns cientistas; é a segunda maior tragédia que aterrou na educação depois do Tik Tok, dizem pais e educadores. Os meus filhos descobriram os ChatGPT antes de ser notícia e já faziam trabalhos com pronúncia brasileira ainda os professores achavam a fonte era o inocente Google. Tenho amigos que fizeram relatórios de empresas, planearam estratégias comerciais, elaboraram enunciados de exames, conceberam logótipos e frases publicitárias para os negócios depois de conversas desafiantes com o ChatGPT. Depois disto, como não gostar do ChatGPT?

O ChatGPT e a Inteligência Artificial (IA) chegaram para desafiar a nossa preguiça, não para nos tornarmos ainda mais preguiçosos, inúteis, inconsequentes. Lidar com IA exige que se saiba fazer as perguntas, liderar os processos e traçar fronteiras adaptadas aos nossos objetivos. Se aquilo que os professores querem quando pedem um trabalho a um aluno é que ele aprenda a matéria, vão ter de mudar de estratégia. Porque não basta avaliar o trabalho, é preciso encontrar estratégias para aferir se a matéria foi aprendida. As provas e apresentações orais, ao vivo e presenciais, afinal não passaram de moda e serão talvez o método mais moderno para avaliar alunos.

O ensino à distância, digital, liberta professores e alunos de algum tempo fútil que pode e deve ser aproveitado para um ensino mais personalizado e próximo dos alunos. Um ensino mais abrangente, que não se foca em algumas em áreas de conhecimento mas em competências - o que abrange todas as áreas de conhecimento. O ChatGPT e a IA farão que os métodos de ensino do século XIX sejam de uma vez por todas abandonados e adaptados ao ensino do XXI. Novas estratégias e metas, novos objetivos e métodos de avaliação terão forçosamente de ser implementados ou a escola tal como a conhecemos deixará de fazer sentido. E sim, pode ser substituída por IA, se insistirmos em modelos poeirentos.

Também nas famílias a realidade terá de ser forçosamente outra. A educação exige estar e não apenas saber, conversar e não falar, partilhar o tempo e o silêncio em detrimento das experiências e do mundo das redes sociais. Educar hoje, exige que se volte a montar a mesa de jantar, que se desliguem telemóveis e televisões enquanto conversa, que se passe sem a dependência da internet, que se leia ou se oiça audiobooks para desenvolver a imaginação, a criatividade, a memória e a concentração.

A IA, tal como entrou de rompante nas nossas vidas, exige que sejamos mais humanos: mais pais, educadores, filhos e mais comprometidos em cada missão. Ou isso, ou nada.

Jurista

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