A fileira do calçado apresenta, formalmente, na sexta-feira o seu Compromisso Verde, um pacto para a neutralidade carbónica em 2030, em linha com as metas traçadas pelas Nações Unidas e pela Comissão Europeia, mas já em muitas empresas a aposta na sustentabilidade não é de hoje. Há cada vez mais exemplos de fábricas a procurar melhorar a eficiência energética e a investir em materiais que lhes permitem abranger um novo leque de clientes.
A apostar fortemente em painéis solares está a Kyaia que pretende, ainda este ano, tornar-se 70% autossuficiente em termos energéticos. O primeiro investimento nesta área foi feito há seis anos, com a instalação dos primeiros painéis fotovoltaicos e, agora, o grupo já contabiliza um milhão de euros aplicados, neste domínio, nos seus parques industriais de Guimarães e de Paredes de Coura.
"Sempre fomos adeptos da conservação do meio ambiente... e depois há a questão da poupança que se consegue. Somos um país que tem sol o ano todo, e que não custa nada. Mesmo que a eletricidade fosse barata teríamos sempre investido para aproveitar este recurso natural", explicou Fortunato Frederico. Mais ainda quando os custos energéticos dispararam em 2022, levando a reforçar o parque fotovoltaico, que abastece já 55% das necessidades elétricas da Kyaia. Considerada um exemplo neste domínio, a empresa será visitada pelo ministro do Ambiente e pelo comissário europeu da área esta semana.
Celita investe 1,3 milhões
Já a Celita, de Guimarães, que detém a marca Ambitious, está, este ano, a investir 1,3 milhões de euros na "adoção de processos de fabrico mais sustentáveis", a nível dos equipamentos ou no plano energético. Está também a finalizar o processo de certificação de qualidade e ambiental. "Estamos apenas a formalizar, com a certificação, tudo aquilo que já vimos fazendo, sem que tivéssemos qualquer obrigatoriedade nesse sentido", explica Paulo Martins, que é um dos subscritores do Compromisso Verde. Em causa estão, segundo o último balanço, 110 empresas, responsáveis por mais de 10 mil trabalhadores e com um volume de negócios de 970 milhões de euros.
A empresa, que este ano comemora 30 anos sobre a sua constituição e 15 sobre a criação da sua marca própria, cresceu 37% em 2022 para mais de 21 milhões de euros. A Ambitious vale já 40% das suas vendas, graças aos contributos de novos mercados, designadamente os EUA, Canadá e Irlanda, e a alguma recuperação de outros, como a Coreia do Sul e o Japão. Em Itália, a Ambitious conta já com 400 pontos de venda.
Mas a sustentabilidade na Celita não se resume ao processo produtivo. A empresa apresentou, na edição anterior da Micam, em setembro, a sua primeira coleção-cápsula Haven, com alguns dos seus modelos produzidos em materiais sustentáveis, com recurso ao máximo possível de materiais reciclados, dos componentes usados à embalagem de expedição. As etiquetas nas sapatilhas da Ambitious dão origem, se forem plantadas, a margaridas. Uma coleção que foi "muito bem recebida" e que está agora a chegar às sapatarias.
Também a Centenário instalou em 2020 os seus primeiros painéis fotovoltaicos, assegurando 30% de autonomia energética, uma aposta que vai reforçar este ano com mais painéis e a renovação do teto da fábrica, com uma cobertura térmica. Além disso, vai apostar em máquinas e software que lhe permitirá ser energeticamente mais eficiente, num investimento estimado de 400 mil euros nos próximos anos, e que inclui a troca dos fornos antigos por um moderno. Com o reforço da área fotovoltaica espera conseguir atingir 50% de autonomia.
Com 70 trabalhadores e uma faturação de 6,5 milhões de euros, a empresa de Cucujães, Oliveira de Azeméis, ainda não recuperou totalmente os valores pré-pandemia. Países Baixos, França, EUA e Espanha são os principais mercados.
Carité com marca sustentável
Com uma marca específica só para o segmento sustentável, a "Tentoes Made in Nature", o grupo Carité, de Felgueiras, tem vindo a apostar nesta área desde 2021, quanto mais não seja porque "todos nós temos que ir fazendo alguma pelo planeta", diz Reinaldo Teixeira, sócio-gerente. Em causa está calçado produzido com algodão orgânico, solas recicláveis e palmilhas de fibras naturais, bem como produtos plastic free.
Além disso, também a questão energética é uma aposta da empresa já há 15 anos, quando instalou os primeiros painéis solares, uma estratégia que reforçou em 2022 com novo investimento nesta área. Tem, para já, 20% de autonomia energética, mas "a ideia é ir crescendo".
A mobilidade verde é outras das vertentes, com a substituição da frota atual por carros elétricos. Um processo que decorre de forma gradual, até porque, lembra Reinaldo Teixeira, as empresas "têm que fazer uma boa gestão financeira, sobretudo, em tempos de incerteza como os que se vivem".
Com duas fábricas em Felgueiras e uma pequena unidade em São João da Madeira, a Carité é hoje o maior grupo industrial de calçado em Portugal, sendo que subcontrata ainda grande parte da sua produção noutras unidades, designadamente em fábricas em Castelo de Paiva e em Celorico de Basto que pertencem a outros elementos da família. 2021 foi "o melhor ano da história da Carité", feito que foi repetido em 2022, com uma faturação de 4,5 milhões. O grupo dá emprego a 240 pessoas e exporta praticamente toda a sua produção.
Produz 4700 pares ao dia e tem vindo a diversificar negócios com a entrada no segmento do calçado profissional e do militar. Em 2022, forneceu 100 mil pares de botas à NATO e aguarda, este ano, o resultado de três concursos a que se apresentou.
Joséli ainda pondera se adere ao Compromisso Verde
Já a Joséli Calçados, de Felgueiras, ainda não está no lote das primeiras subscritoras do Compromisso Verde, mas apenas porque quer saber mais sobre este pacto do setor. Até porque a empresa, que nasceu numa garagem, em 2006, ocupa hoje uma moderna unidade industrial, de sete mil metros quadrados, e acabou de investir 250 mil euros em 519 painéis solares que lhe asseguram 70% de autonomia energética.
Além disso, tem, desde 2018, uma linha de produtos 100% vegan, com recurso a novos eco-materiais produzidos a partir de resíduos de maçã e de uva, de fibras de milho, catos e folhas de abacaxi. "Cada vez mais temos clientes a procurar por este tipo de artigo", garante José Carlos Teixeira, responsável da empresa. A Joséli conta com 240 trabalhadores e teve em 2022 o seu "melhor ano de sempre", atingindo cerca de 18 milhões de faturação.
Exporta tudo o que faz e, embora tenha três marcas - a Jooze (calçado de homem), a Pretty Love (para senhora) e a God"s Move (que centraliza a oferta das duas) -, o private label (produção subcontratada para outras empresas) representa ainda 80 a 90% das suas vendas. Vende, sobretudo, para Holanda, Bélgica, Dinamarca, Inglaterra e EUA.
A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS