Um empresário brasileiro, como tantos outros, tenta driblar a crise com investimentos mais ortodoxos – criação da Rex Inversiones, um corredor logístico para transporte de cargas entre a Argentina e o Chile – e menos – lançamento no mercado de Elysium, a pasta que branqueia os dentes por pouco mais de três euros por tubo. Pelo meio, tornou-se sócio da Vox2You, uma escola que ensina a falar em público, e tenta criar um concorrente, de aplicação sublingual, do Viagra na área da disfunção erétil.
Fora uma certa tendência para a excentricidade, não há nada de especial nos planos deste médio empreendedor, dono de 0,25% da empresa de petróleo OGX, que trabalha afincadamente com 20 funcionários no andar de um prédio comercial na Praia do Flamengo. O detalhe está no seu nome: Eike Batista. E no seu passado: há três anos era o controlador da mesma OGX, figurava entre as dez maiores fortunas do planeta, com 34 mil milhões de dólares, segundo a Forbes, planeava ultrapassar Carlos Slim, o mexicano líder do ranking à época, só não sabia, dizia, se seria “pela direita ou pela esquerda”, e em vez de 20 tinha 400 empregados ao seu dispor em 23 pisos de um luxuoso edifício no centro do Rio.
Eike, a ilustração perfeita da expressão “ascensão e queda” e a tradução em carne e osso do delírio brasileiro da Era Lula e do penoso despertar da realidade da Era Dilma, quer voltar ao jogo.
Natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, filho de uma alemã de Hamburgo, Jutta Fuhrken, e de um engenheiro brasileiro, Eliezer Batista da Silva, que tornou a mineradora Vale num gigante mundial nos anos 60, foi para Aachen, no país da mãe, estudar engenharia, o curso do pai, na adolescência. Voltou ao Brasil sem canudo mas com muitos marcos no bolso produto da venda de apólices de seguro porta a porta.
Após essa experiência, sentiu-se um self made man apesar do berço de ouro e investiu em minas de ouro no Pará e na bolsa do Canadá. Foi perdendo mais do que ganhando até entrar no negócio de família, minérios, e enriquecer.
Estamos no início do século XXI. Lula da Silva chega ao poder com um discurso market friendly para não atemorizar os empresários, que o viam como um perigoso e barbudo comunista. E o fundador do PT entrega o que promete: o PIB brasileiro sobe a pique, como sobem os de todos os BRIC, a começar pelo mais BRIC de todos eles, a China, cuja voragem pelas commodities brasileiras faz com que toda a gente ganhe dinheiro no país, dos 50 milhões de pobres que o governo tira da miséria aos já ricos que passam a milionários num abrir e fechar de olhos. É a época em que Barack Obama diz “this is the guy” [este é o homem] dirigindo-se a Lula em reunião na ONU. A época em que as organizações do Mundial de Futebol e dos Jogos Olímpicos caem no colo do país, finalmente a cumprir o seu ideal de potência planetária.
Eike, fotogénico e fanfarrão, assume o papel de modelo da Era Lula com prazer. “Há qualquer coisa entre mim e a Natureza, onde eu furo, descubro”, diz, rindo da própria sorte, depois de se envolver com o petróleo recém achado ao largo do Rio de Janeiro. A mulher, a ex-modelo Luma de Oliveira, seis vezes capa da Playboy, faz parte do seu show pessoal. Assim como os Mercedes e Ferrari que estaciona na sala de estar da luxuosa mansão.
O governo, entretanto, dá ordens para alimentar a sua fortuna, com empréstimos sem fundo de bancos estatais para a fundação do seu conglomerado, o Grupo X, constituído pela CCX, OSX, MMX, EBX e a estrela da companhia, a petrolífera OGX.
Mas a 26 de Junho de 2013, o império X, como um castelo de cartas, começou a ruir. Em vez dos propalados 20 barris de petróleo, a OGX anunciou aos mercados uma produção de apenas cinco. No dia 27, as ações caíram 25 por cento. Nos meses seguintes, 70 por cento. Um ano depois, valiam cem vezes menos do que os 23 reais que chegaram a atingir em 2010.
Eike, que na fase de delírio ainda lançou uma empresa de entretenimento, uma firma de taxis-aéreos, um clube de voleibol, um hotel de luxo, navios turísticos, restaurantes, uma companhia de catering e prédios, começou a perder o foco. Tal como Cleópatra, que matava os mensageiros, o empresário também despediu dezenas de colaboradores portadores de más notícias.
E foi perdendo, para cada credor o controle de cada empresa – incluindo a jóia da coroa OGX, a tal de que dispõe hoje de meros 025% do capital e que representava dois terços do faturamento. Em paralelo, tornou-se réu em ações penais sob a acusação de manipulação do mercado e uso de informações privilegiadas. Chegou ao cúmulo de ser condenado por um juiz que lhe apreendeu os carros e, não contente com isso, andou a circular pelas avenidas cariocas com o seu Ferrari, aquele que nos tempos áureos o magnata estacionava na sala de casa.
Os filhos do casamento com Luma, Thor e Olin, também deram despesa: o primeiro pagou fiança de um milhão de reais para sair em liberdade depois de ser acusado de homicídio culposo num acidente em que, com o tal Ferrari, matou um ciclista; e o segundo torrou rios de dinheiro numa vida boémia, incluindo o equivalente a seis mil euros na noite de junho em que o império do pai começou a derreter.
Supersticioso – daí o X da sorte no nome de cada empresa – e esotérico, Eike contratou uma benzedeira para purificar o estaleiro (do tamanho de Manhattan) da OGX. Mas nada feito: segundo mapa astral encomendado por aqueles dias pelo jornal O Estado de S. Paulo, o escorpião Eike estaria sob “um retorno de Plutão” mais uns anos.
Os anos passaram e talvez Eike entre agora, 60 anos recém cumpridos, em fase mais solar, com novo filho, Baldur, da segunda mulher, a advogada Flávia Sampaio, e Thor e Olin, calmos e a seu lado no escritório. O escritório no modesto andar de um prédio comercial na Praia do Flamengo, onde se com empresas de logística, pastas de dentes e concorrentes do Viagra. Os especialistas acreditam que Eike, como a economia brasileira, vai ressuscitar.