Ela Disse: o lado podre de Hollywood

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A queda do produtor Harvey Weinstein no Outono de 2017, que caiu como uma bomba numa Hollywood inflamada pelos primeiros meses da administração Trump, obrigou a uma reflexão dura e inadiável. Os testemunhos das vítimas de Weinstein ao longo de trinta anos e o trabalho inatacável de investigação do New York Times tornaram impossível que o statu quo continuasse. Mas centrar a narrativa na culpabilidade de um homem poderoso e detestável seria demasiado simples. Esse era um risco que o New York Times corria e uma armadilha em que o filme "Ela Disse", que estreia esta quinta-feira em Portugal, afortunadamente não caiu.

O título da Universal Pictures, com produção executiva de Brad Pitt, não é uma dramatização romantizada de um dos maiores escândalos de sempre na indústria do cinema e televisão. Não é uma palmadinha nas costas dos jornalistas do New York Times. É um retrato minucioso, por vezes difícil de ver, do sistema que deixou Weinstein impune vítima após vítima durante décadas. Das vidas que ele e os seus facilitadores arruinaram. Da perseverança que foi necessária para que esta história visse a luz do dia, e da espinha dorsal que requereu a algumas pessoas em lugares-chave para resistirem às ameaças de um manda-chuva com demasiado poder.

O argumento de Rebecca Lenkiewicz coloca-nos nos bastidores desta história sem a fanfarra que se poderia esperar - e, felizmente, sem a bizarria de ter actores a interpretar outros actores ou o próprio Harvey Weinstein, que apenas se entrevê ao longe e de costas. O tubarão é pressentido e, de alguma forma, isso torna-o mais impactante. A realizadora Maria Schrader fez um bom trabalho a contornar o facto de tudo isto se passar com caras demasiado conhecidas do público, e com uma história demasiado recente, para serem interpretadas por colegas de profissão.

O foco está, portanto, no trabalho das duas jornalistas que investigaram e noticiaram o escândalo, Jodi Kantor e Megan Twohey, e nas vítimas que falaram com elas. A vergonha, a culpa, o medo, o ressentimento, o fantasma do que podia ter sido - tudo isto é apresentado de forma sensível, convincente, bem estruturada. Na exibição antecipada do filme em Los Angeles, perante uma audiência de críticos e jornalistas que respiram este meio diariamente, houve sobressaltos e algumas lágrimas, houve suspiros e palmas. Sabíamos bem o que o grande ecrã estava a mostrar.

Carey Mulligan e Zoe Kazan interpretam as jornalistas com a falta de glamour necessária. E isto é muito importante numa altura em que o bom jornalismo está constantemente a ser alvo de ataque, seja por utilizadores de redes sociais ávidos por enxovalhar qualquer um que os contrarie, seja por oportunistas que põem o braço fora da janela para ver de que lado o sopra o vento por estes dias.

A verdade é que o trabalho de Kantor e Twohey desencadeou um acerto de contas que ainda estamos a contabilizar, e não destapou apenas os horrores cometidos por Weinstein. Mostrou que ele teve muitos aliados que o escudaram de consequências, apoiados na tendência histórica de culpar as vítimas. E na mania de procurar primeiro sinais de trapaça, dolo ou histeria nas mulheres antes de considerar que o que elas alegam seja verdade.

"Ela Disse" é um filme importante, que também mostra como o trabalho de verdadeira investigação jornalística é feito e todas as barreiras que ultrapassa antes de ser publicado. O jornalismo americano, apesar de tudo o que se lhe possa apontar, continua a ser dos melhores do mundo. A ética jornalística é fundamental para uma sociedade aberta e uma democracia saudável, capaz de ser escrutinada sem se esboroar. Não tem nada que ver com o que Elon Musk vem balbuciando no Twitter sobre liberdade de expressão. Não tem nada que ver com o que magnatas poderosos consideram ser exposição ou censura.

E se podemos ver algum sinal de esperança neste momento tão confuso, é ter acesso a um filme como "Ela Disse" na mesma semana em que se apuram os últimos resultados das eleições intercalares norte-americanas, um sufrágio que decorreu de forma exemplar com vencedores e perdedores a respeitarem o processo. A verdade ainda conta. Os factos ainda são a base de partida. Há que manter a esperança de que o arco do universo moral penda, realmente, para o lado da justiça.

Ela Disse ★★★★★

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