Elas trabalham a arquitetura do azulejar

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É um trabalho de rigor. Catarina e Rita Almada Negreiros - netas

do pintor e poeta José Almada Negreiros - verificaram e numeraram,

um a um e à mão, os mais de 21 mil azulejos que compõem o painel

do átrio da estação fluvial Sul e Sueste do Terreiro do Paço, em

Lisboa. Um teste que as duas irmãs arquitetas fizeram durante os

três meses de obra.

"A culpa é nossa. Quisemos fazer assim,

era a única maneira de chegar ao rigor que era necessário. Foi

planificado em 24 folhas grandes (A1) para fazer o assentamento dos

20 tons diferentes de azulejos, do preto ao branco, passando pelo

azul", explica Rita Almada Negreiros, 42 anos, uma das

fundadoras do atelier Can-Ran (de Catarina Almada Negreiros e Rita

Almada Negreiros), juntamente com a irmã Catarina, 39.

O convite para a dupla participar no projeto de recuperação e

ampliação do terminal fluvial foi feito pela arquiteta Ana Costa,

que assumiu o comando do atelier Daciano da Costa depois da morte do

pai. O Cota Zero é resultado desse convite. "O atelier Daciano

da Costa tinha a ideia de fazer um grande teto de azulejos para

aquele átrio, queria pedir a alguém e acabou por nos pedir porque

achou que sermos arquitetas e trabalharmos em cerâmica era uma

mais-valia para este espaço. Queria que o projeto tivesse, desde o

início, uma ligação forte à arquitetura do lugar. É mais do que

um painel."

O teto forrado a azulejos é suportado por oito colunas também

revestidas. "É como se flutuasse. O projeto tinha que ver com o

corte transversal da relação entre os percursos subterrâneos do

metro e a superfície da água. Está relacionado com o mergulho, com

a entrada e saída de pessoas, o fluxo enorme de passageiros que aí

passa diariamente. Agora, em vez de as pessoas saírem do barco e

atravessarem a passadeira exterior, entram diretamente para o metro.

A quantidade de gente que passa é impressionante. Tem, por isso, uma

enorme visibilidade", diz Catarina. Fazer este teto espelhado é

um jogo: "Espelha, não espelha. Estamos por cima ou por baixo?

Normalmente este é um trajeto profissional, a pessoa tem um momento

diferente no seu percurso. Este trabalho é muito à base da reflexão

da luz, aqui cada um tem a sua leitura. No fundo é darmos um momento

de reflexão, aproveitando as características do próprio azulejo -

um material que reflete."

Space e acaba de vencer o SOS Azulejo, uma distinção atribuída

pela associação de proteção e divulgação nacional. Mas este não

é o primeiro prémio que Catarina e Rita ganham.

As duas arquitetas começaram a trabalhar juntas em 2002, logo

depois do regresso da mais nova, Catarina, do mestrado em Harvard,

nos Estados Unidos. "Não foi bem uma decisão. Aconteceu.

Trabalhamos juntas, se calhar porque somos irmãs, talvez porque

estávamos no mesmo espaço, porque temos maneiras bastante

semelhantes de ver as coisas e, ao mesmo tempo, porque somos bastante

complementares", esclarece Rita. Juntas desenvolveram a segunda

fase do projeto de arquitetura da estação de metro de São

Sebastião (a primeira parte, da autoria da artista plástica Maria

Keil, esteve empacotada durante muitos anos. Quando apareceu o

projeto de ligação entre as linhas azul e vermelha, as duas

arquitetas trabalharam sempre em coordenação com Keil no novo

projeto, já que havia um novo átrio e o azulejo que existia não

era suficiente).

A azulejaria é uma parte importante na arquitetura de Catarina e

Rita. As irmãs Almada Negreiros criaram juntas o "azulejo

cinético", uma procura desenvolvida em parceria com a fábrica

Viúva Lamego e que resultou na criação de um azulejo com as

dimensões 14x14, medida do azulejo tradicional português, e que foi

também a dimensão usada no terminal fluvial do Terreiro do Paço.

"A Viúva Lamego é uma das poucas que ainda trabalham com as

técnicas tradicionais, as terras e os vidros, e de modo

semi-industrial. O incrível é ver que essas fábricas sempre

tiveram artesãos e artistas a trabalhar, o que permitiu que houvesse

renovação e nunca ficar uma coisa ultrapassada. O material é

ilimitado e nunca acaba de se reinventar. E, quando já não formos

nós, hão de ser outros quaisquer", diz Rita.

O azulejo cinético tem sido utilizado em vários projetos desde

2002. "Estava longe de nós, quando começámos a estudar

Arquitetura, pensar que os azulejos poderiam ser uma forma de

expressão nossa. O azulejo era um material que aparecia de vez em

quando, uns mais importantes do que outros, mas não era um material

como hoje o vemos, de expressão", assegura a arquiteta.

Além das parcerias com a fábrica de azulejos e com o Grupo

Aleluia, Catarina e Rita têm desenvolvido outros projetos,

destacando-se o projeto do cais fluvial de Linzhi, no Tibete (ao lado

do aeroporto com o mesmo nome), uma das paragens ao longo do rio mais

alto do mundo, o Yarlung Tsangpo, integrado no masterplan da zona, da

autoria do atelier de Pequim Standard Arquitecture. Em 2004, tiveram

o que consideram um momento importante das suas carreiras: o projeto

que apresentaram em parceria com outros três ateliers sob o nome

a-graft no concurso para a nova sede da Architecture Foundation,

Londres, ficou em segundo lugar, vencido pela Pritzker (Óscar da

Arquitetura) Zaha Hadid.

As duas arquitetas trabalham ainda em projetos particulares, como

o projeto de iluminação para Campolide Parque e a iluminação do

Castelo de Palmela, com o atelier Lighter. Os planos passam por

continuar a usar um material tão português como o azulejo nas

diversas dimensões artísticas. "Queremos fazer as coisas de

que gostamos no tempo que precisamos. Como costumamos dizer, andamos

sempre entre a arquitetura e os seus arredores. Mas tudo é plástico,

tudo é visual, tudo tem ligação com aquilo para que nascemos."

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