As eleições no Brasil correm, para alegria dos primeiros daqueles cinéfilos, ao ritmo do mais sanguinário Tarantino: cada dia, os candidatos e os respetivos padrinhos políticos atacam-se (ou elogiam-se por cálculo) nos tempos de antena, nos comícios, pelo twitter, nas páginas oficiais de facebook, em blogues sérios ou de guerrilha declarada, numa experiência tremenda, no mau sentido.
O jornal "Folha de São Paulo" tentou sintetizar o barulho, escolhendo para manchete de uma edição da semana passada um título tão interminável como certeiro: "Lula afaga Aécio que defende Marina que critica Dilma e Aécio, que rebatem Marina".
De facto na esquizofrénica batalha que precede as eleições do próximo 5 de Outubro, o campo do PT, de Lula, tenta suavizar críticas ao campo do arqui-inimigo PSDB, de Aécio Neves, porque Marina Silva se tornou o problema comum aos dois campos, enquanto a ambientalista finge que ignora o segundo, que acabou de ultrapassar nas sondagens, para bipolarizar a discussão com a presidente Dilma Rousseff que, por sua vez, e embora criticada pelo antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, se junta em coro ao delfim deste e ex-principal rival Aécio, para hostilizar a ambientalista e dizer que ela se faz de vítima.
Os telejornais resumem - na medida do possível - este enredo doentio. Logo a seguir, as propagandas eleitorais tomam o ecrã e voltam os mesmos protagonistas com os seus ataques, as suas esquivas e as suas alianças práticas, táticas, cínicas. Tudo intervalado com candidatos tipo Palhaço Tiririca a pedirem o voto porque pior do que está não fica. E desligando a TV, nas redes sociais, no rádio, por todo o lado, a luta continua.
O excesso de canais de informação torna-a, de tão difundida e gritada, irrelevante. Da mesma forma que - e é só uma opinião - 57 mortos numa única cena, para a qual são gastos milhares de tiros e os tais 1700 litros de sangue, banalizam a importância narrativa da morte.
Quarenta anos antes de Kill Bill, um dos ídolos de Tarantino, Sergio Leone, o guru do western spaghetti, costurou uma das cenas de ação mais emblemáticas do cinema. As personagens de Clint Eastwood, Lee van Cleef e Eli Wallach, respetivamente "O Bom, o Mau e o Vilão", enfrentam-se num cerebral e meticulosamente calculado "duelo a três", conhecido como "Impasse Mexicano", onde a vantagem não é de quem dispara primeiro mas de quem o faz em segundo lugar. Não fosse passar-se sob "The Ecstasy of Gold", de Ennio Morricone, e a cena seria silenciosa. Uma pena que Dilma, Marina e Aécio só tenham visto o Kill Bill.