Jorge Pavão Sousa não tem dúvidas. É essencial o regresso dos adeptos aos estádios para garantir a "vontade de as pessoas subscreverem os produtos premium de desporto" e, a venda centralizada dos direitos de futebol, que tem sido defendida pelo presidente da Liga e que o Governo já admitiu que pretende criar condições legislativas para que aconteça já em 2027, "faz todo o sentido" para a indústria do futebol nacional, defende o diretor-geral da Eleven Sports.
A empresa não detém os direitos dos jogos da I Liga - nas mãos da NOS e da Meo, com a transmissão a ser assegurada pela concorrente SportTV - mas acaba de renovar os direitos da LaLiga para o mercado nacional até 2024 e, viu a subscrição dos canais Eleven subir com o regresso da Champions League, cujas finais decorrem em Lisboa.
A pandemia, que levou à suspensão do pagamento das assinaturas durante meses, afetou a operação e obrigou a reajustes, mas permitiu "dar a experimentar a oferta de canais Eleven a potenciais futuros subscritores que experimentaram aquilo que temos para oferecer de forma regular". Resultado? "Estamos com a maior base de clientes OTT (over the top, acesso através da internet) alcançada após a entrada nos operadores em fevereiro de 2019." Mais, diz, "acreditamos que detemos uma base próxima de 25% de todo o mercado premium de desporto em Portugal, e continuamos a ser o único player a crescer market-share nos últimos 18 meses."
Quanto à oferta integrada de conteúdos de desporto que anunciou em maio estar a negociar com os operadores - de modo a reduzir os custos com a compra de conteúdos para os utilizadores - "algumas novidades irão ser anunciadas a curto prazo".
Champions League e F1 são duas competições para as quais têm os direitos para Portugal. Além das transmissões dos eventos, que conteúdos adicionais estão a preparar de modo a responder aos adeptos ainda fora das bancada?
Como sempre procuramos executar uma cobertura integral entre a TV e o digital, cobrindo os eventos com histórias inspiradoras e elevando pela positiva a nossa narrativa editorial e procurando abordar e encontrar o espírito das competições pela perspetiva dos fãs. O desafio, desta vez, é a particularidade do momento e a não participação de público, de forma generalizada, no desenrolar das competições, mas há que colocar a segurança de todos os intervenientes em primeiro lugar. Iremos trabalhar a componente digital de forma mais integrada com a transmissão televisiva, dinamizar maior interação com os nossos fãs e seguidores nas redes sociais, maior cobertura editorial próxima da realização do evento, desenvolvimento de storytelling com maior relação emocional com os nossos subscritores e envolvimento de ex-jogadores e ex-pilotos que partilhem a emoção daqueles momentos e contem histórias desconhecidas pelo grande público, elevando a relevância do conteúdo e a positividade do desporto.
Portimão vai receber a F1, marcando o regresso da competição a Portugal. Poderá cativar mais adeptos da modalidade a subscrever os vossos canais?
Entendemos que sim, e ambicionamos que assim ocorra. Estamos a trabalhar para preparar uma cobertura inédita da competição, da mesma forma que avançámos para novos formatos digitais durante o confinamento (F1 ELEVEN e o F1 1:1, no Facebook Live e no Instagram) e com acesso a muito Insight e “Behind-the-Scenes” do Paddock! Estou certo que iremos surpreender quem nos segue e acompanha a Eleven 3 ao longo da temporada da F1.
Poderá ser uma oportunidade para o regresso de um modelo de subscrição de pay-per-view (PPV), à semelhança do que fizeram em dezembro, com o combate de boxe entre Anthony Joshua e Andy Ruiz?
A contextualização do momento e a relevância do regresso da F1 a Portugal não permitirá a abordagem de PPV numa Corrida em particular. E o pricing point associado não seria sensato para maximizar o valor do produto que oferecemos naquele período, com o regresso da Fase de Grupos da Champions da próxima época. Mas iremos continuar a promover e a testar o modelo de PPV em conteúdos/eventos globais com cariz mais “One-Off”.
Que resultados obtiveram com esse combate? Quantos portugueses compraram 'bilhete'?
Tivemos uma mão cheia de milhares de subscritores do evento e praticamente 90% nunca tinham sido subscritores da Eleven anteriormente. E hoje, mais de 50% seguem sendo subscritores da Eleven, ainda. Muitos dos nossos parceiros de distribuição ficaram surpreendidos com os resultados obtidos e acredito que futuramente as plataformas irão também estar associadas na promoção dos eventos Eleven em PPV.
Foi público, em maio, que estava a negociar com os operadores um “produto integrado” que agregasse os canais desportivos e ajudasse a baixar os preços. Até ao momento essa oferta não é conhecida. Como está esse processo?
É um processo evolutivo e em curso e estamos convencidos que algumas novidades irão ser anunciadas a curto prazo. É o caminho certo e natural nesta fase, que necessita de um espírito de colaboração e envolvimento, entre todos, para endereçar uma necessidade e apelo do mercado e dos clientes, num momento de maior esforço financeiro para as famílias portuguesas, decorrente do momento económico.
Estima-se que houve muito a acesso pirata a conteúdos premium durante o confinamento. Esse crescimento e ‘descoberta’ dos utilizadores não faz com que sejam mais relutantes em pagar por um serviço, numa altura em que as famílias sofrem perdas de rendimento?
Era um fenómeno já enraizado no comportamento de muitas famílias, antes do confinamento. Sem dúvida que se trata de uma ameaça a todo o ecossistema e que necessita ser combatido de forma conjunta e integrada pelos Rights Holders, Premium Broadcasters e pelas plataformas de distribuição e detentores dos ISP. Mas também necessita de um melhor enquadramento regulatório e legal que permita uma identificação e “take-down” imediato dos promotores ao acesso pirata dos conteúdos via ISP. Mas, se depois o enquadramento legal não permitir de forma célere e com impacto financeiro adequado penalizar o prevaricador, o efeito consequente será irrelevante. Em primeiro lugar, temos que apostar no desenvolvimento de um programa educacional junto das diversas gerações do impacto, a longo prazo, desta situação e como isso irá afetar o desenvolvimento e criação de uma indústria de conteúdos de forma livre, generalizada no acesso e mais sólida na sua independência de criação editorial. Estamos a fazer a nossa parte e a promover esse diálogo com quem se interessa por ele. Mas precisa ser catalisado e promovido por entidades e agentes públicos que coloquem o tema como prioridade de agenda.
Na fase da pandemia, em que as Ligas de futebol e a maioria das modalidades estavam suspensas, deixaram de cobrar assinaturas. Qual o impacto na operação?
Em primeiro lugar, criou impacto ao nível de geração de receitas e rentabilidade da operação, como seria normal, e que obrigou a um reajuste na estratégia de aquisição de conteúdos e a um ajuste na estrutura operacional da empresa no mercado local. Seremos sempre responsáveis na gestão de um P&L equilibrado e procurando otimizar a nossa estrutura de custos em função das receitas geradas. Quem não o faz, ou não executa dessa forma, estará condenado a médio prazo e incorrerá sempre no risco de criar desajustes no mercado de aquisição de direitos, com consequências no longo prazo.
Os assinantes voltaram depois? Como é que têm evoluído no mercado nacional?
O período de suspensão permitiu, pela positiva, “dar a experimentar” a oferta de canais Eleven a potenciais futuros subscritores que experimentaram aquilo que temos para oferecer de forma regular e de forma agnóstica em todas as plataformas onde estamos presentes. Foi muito interessante também perceber, após a reintrodução da faturação, quem era o nosso core target e qual a base flutuante de subscritores adicionais que procuram o nosso produto. Caminhamos agora, na conversão dessa base de forma mais acelerada e de forma mais efetiva, pois temos um melhor entendimento da data recolhida e trabalhada. Estamos com a maior base de clientes OTT alcançada após a entrada nos operadores em fevereiro de 2019.
Em abril do ano passado eram 100 mil assinantes. Quantos são hoje em Portugal? E quantos estima que venham a ser no fecho de 2020?
Estamos em linha com os objetivos revistos após o período de confinamento e acreditamos que detemos uma base próxima de 25% de todo o mercado premium de desporto em Portugal, e continuamos a ser o único player a crescer market-share nos últimos 18 meses. E com taxas de engagement nas redes sociais que são múltiplos de 6 a 8 vezes superiores aos nossos concorrentes. O “likeability” da marca é 2 a 3 vezes superior face ao principal concorrente, em todos os eixos demográficos. Por isso, achamos que estamos a fazer o nosso caminho de forma coerente e consistente no mercado, razão pela qual a nossa estratégia no digital procura ser replicada e “copycat” pelo resto do mercado. O que apenas nos orgulha!
Os estádios estarem ainda vedados aos adeptos ‘joga’ a favor de plataformas como a vossa?
A emoção do futebol é feita e assegurada pela paixão e emoção dos adeptos nos estádios. Será essencial retomar a sua presença para continuar a garantir o valor pelo produto e a vontade de as pessoas subscreverem os produtos premium de desporto. Dito isto, acredito que é do interesse pelo regresso do futebol e da paixão de uma competição como a Champions League, o catalisador do aumento de subscrições que tivemos no decorrer dos Jogos que concluíram a Round of 16 e que permitiram a algumas plataformas atingirem o seu maior volume de subscritores de sempre. Estamos satisfeitos e ambicionamos mais. Vamos continuar a procurar convencer os portugueses que o acesso legal ao nosso portefólio de conteúdos a 9,99 euros é a melhor proposta de valor que o mercado oferece.
Detêm uma série de direitos para o mercado nacional, com elevados custos. O número de assinantes já vos permite ser rentáveis? Para quando esse objetivo?
Estamos cada vez mais próximos desse objetivo e temos a certeza que somos a operação mais eficiente e mais “lean” no mercado, muito com a ajuda dos nossos parceiros estratégicos locais que entendem que a nossa permanência será longa e que iremos continuar a desenvolver uma relação estratégica cooperante e dialogante, e que permitirá ser eficaz e eficiente junto dos mesmo. O nosso sucesso, será o sucesso dos parceiros e marcas que estão já envolvidas connosco.
Renovaram os direitos da LaLiga até 2024, está previsto algum outro reforço ao nível de direitos desportivos para o mercado nacional?
O segredo é a alma do negócio, e por vezes é nos momentos mais desafiantes que as melhores oportunidades surgem. Quando encontramos parceiros racionais, dialogamos. Quando assim não acontece, ouvimos e apontamos caminhos alternativos que não comprometam independência e valor futuro de monetização. Desta forma, entendemos melhor quem nos procura e está enfocado no longo prazo ou apenas preocupado com o curto prazo. Preferimos os primeiros, sempre.
Nos jogos da I Liga o tema da venda centralizada dos direitos de futebol voltou à discussão este ano. O Governo admitiu este mês que criou um grupo de trabalho para criar “as condições já para que em 2027 a centralização seja uma realidade”, disse o secretário de Estado do Desporto, João Paulo Rebelo. Como é que olha para este cenário? É uma oportunidade?
Se me pergunta se faz sentido, assumo que faz todo o sentido. O desenvolvimento do futebol nacional como produto premium e com potencial de valorização internacional será sempre potenciado por um maior equilíbrio competitivo e desenvolvimento sustentável do valor dos Direitos. E o benchmark internacional de outras Ligas e Competições já demonstrou que a centralização de direitos é um fator catalisador desse efeito. Em vários mercados internacionais, esse catalisador foi promovido pela intervenção direta dos governos e alteração de enquadramentos regulatórios, permitindo uma maior transparência e transferência de benefícios de forma articulada entre os clubes e as Ligas.
A Eleven estará atenta às oportunidades que serão criadas e estará sempre disponível para avaliar, em conjunto com os diferentes stakeholders, onde poderá acrescentar valor ou dinamizar um conjunto adicional de benefícios e contrapartidas que o seu footprint mais global e network de parcerias poderia acrescentar valor, designadamente no valor dos direitos Internacionais. Ao nível nacional, abertos para fazer parte da construção futura de um ecossistema que seja mais sólido e competitivo e que permita reforçar o valor do futebol nacional nos grande palcos internacionais, ao nível das competições da UEFA. O que foi alcançado ao nível da Seleção Nacional, nos últimos anos, permite demonstrar que há um caminho possível e que nos deve deixar a todos orgulhosos. Agora, apenas devemos ambicionar potenciar esse spillover para a performance dos clubes portugueses nas principais competições e assegurar, sempre, duas equipas portuguesas na fase de Grupos da Champions e a manutenção dos jovens valores nacionais no desenvolvimento da nossa Liga.
Se a oportunidade de estarmos envolvidos no campeonato nacional se tivesse proporcionado, muito possivelmente. Nas condições atuais, e com o enquadramento atual de detenção e partilha dos direitos, muito pouco provável esse cenário. A médio prazo, gostaríamos muito de avaliar, e considerar, essa oportunidade.