Elias Gaieta, o mentor de crianças em risco que sonha ser chef ou o próximo Usain Bolt

Esteve ele próprio em risco de cair na delinquência, mas aos 10 anos a Academia do Johnson deu-lhe a mão, passados anos fez dele exemplo e hoje retribui ajudando.
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Tem 19 anos, está a terminar o 12.º ano, a tirar um curso de cozinheiro e pratica diversos desportos, entre os quais Atletismo, tendo já conquistado várias medalhas na corrida de 100m. Talvez, por isso, de entre os vários sonhos de carreira que Elias Gaieta considera possíveis concretizar esteja o de emular os feitos do seu ídolo Usain Bolt ou tornar-se, quiçá, um chef de cozinha. Por enquanto, o jovem que vive no meio dos bairros socialmente vulneráveis da Amadora - o do Zambujal, Cova da Moura, Buraca e Boavista - contenta-se em ser mentor de crianças e adolescentes que, como ele, podiam ter caído na delinquência, mas com bons exemplos e valores de cidadania podem ser resgatados.

"A Academia tirou-me das ruas, deu-me a oportunidade de ser o homem que sou hoje", confessa Elias Gaieta, acrescentando que entrou com 10 anos, sendo, por isso, dos mais antigos. "Já estou na Academia desde o início, praticamente."

Criada em 2014 por um ex-recluso (ver peça ao lado), a Academia do Johnson soube canalizar a sua ira e frustração através do kickboxing, que pratica até hoje, e de outros desportos. "Eu, na Academia, praticava futsal, estudava e fazia kickboxing", conta Elias Gaieta.

O apoio nos estudos foi, e continua a ser, uma vertente fundamental da Academia do Johnson para as crianças e jovens, já que é um fator primordial para o sucesso escolar e contribui para a sua inclusão social. E tê-lo-á sido também para Gaieta. "Comecei como um dos meninos de rua e [a Academia] foi uma experiência incrível, que me deu tudo de bom e de melhor. Eu sou grato à Academia por ser a pessoa que sou hoje, em que me tornei hoje."

Procurando instilar valores de cidadania, solidariedade e respeito pela liberdade, própria e dos outros, o objetivo da Academia do Johnson é contribuir para o desenvolvimento humano dos jovens destes bairros, arrancá-los de potenciais comportamentos desviantes e conduzi-los no caminho da autorrealização. E a melhor maneira de o fazer é pelo exemplo dos próprios pares.

"Fui convidado para mentor. Tive uma conversa com o Johnson aos 17 anos, foi aí que decidiu nomear-me mentor - viu que eu já estava com uma responsabilidade mais acrescida, uma mente mais estável", recorda.

Desde então, Elias Gaieta dedica quatro a cinco horas do seu dia, no mínimo, às crianças e jovens da Academia. "Assim que saio da escola, vou logo para a Academia", diz. É "sempre antes das 17.30, 18.30, até às 20:30, que é o horário das crianças lá da Academia, eu estou sempre com elas. Após isso, também estamos sempre lá, para deixar já tudo organizado para o dia seguinte".

Gaieta conta que o acompanhamento que faz é dentro e fora da Academia, a título pessoal, na escola e mesmo dentro de casa. "Na parte mais pessoal, é quando um deles precisa de falar comigo ou manda-me mensagens: "Elias, olha, preciso de falar contigo, aconteceu isto", seja um sábado, um domingo, um feriado, sempre que eu estiver disponível, eu vou lá para falar com essa criança." E já aconteceu, conta, eles envolverem-se em situações complicadas ou serem vítimas de bullying e a Academia ou ele próprio intervir. "Como mentor eu tenho de ser o exemplo, tenho de ser o espelho dessas crianças", conclui.

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